Confissão sobre o pote da Ana

Eu não havia reparado, mas era a primeira vez que eu pegava um tupperware emprestado.

Festa, sobrou comida, sim, quero levar.
Dia seguinte, lavei o pote que eu deveria entregar na quinta e a ficha caiu. Consumimos tantos alimentos em embalagens que hoje ninguém mais trocatupperwares e eu estava ali segurando um pote de plástico que eu deveria devolver, com as regras de sociabilidade que aprendi subindo pelas minhas costas, pesando em meus ombros.

Quando eu era criança havia pilhas de potes em casa que precisávamos devolver, mas não o conseguíamos.

Os antigos, acredito que da época que todos tinham tempo para fazer as melhores guloseimas em casa, sempre devolviam potes emprestados com alguma item alimentício dentro. Sim, não podíamos devolver potes vazios e com isso, alguns potes nunca seriam devolvidos.

Minha mãe era muito atarefada e assim raros os momentos para os bolos, o pudim de leite condensado em dias especiais, nunca uma torta salgada, especialidade da minha vó na época, e os potes se acumulavam no armário.

Retirei o pote da Ana do escorredor de pratos e o que eu poderia colocar ali para passar o dia todo na mochila do trabalho? Meu primeiro pote verdadeiro, o primeiro que não era recipiente descartável de alguma comida pronta, o primeiro que não vinha com rótulo nem marca em relevo, o primeiro que deveria voltar para a dona cheio de algo preparado pelas minhas mãos…

Quebrei uma tradição.

Like what you read? Give Verônica Ramalho a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.