Hip Hop e Moda: Identificação e ascensão social através do vestuário
As roupas, e os outros elementos que compõem o vestuário, carregam significados e são utilizados por nós, enquanto sociedade e enquanto indivíduos, para comunicar diversas mensagens. A roupa pode ser um determinante fator de identificação social, de pertencimento a um grupo ou de diferenciação do mesmo. Sendo assim, a moda aproxima-se em diversos momentos da história à outras manifestações culturais, como a música, ambas servindo para expressar e refletir os anseios, necessidades e reflexões de um tempo.
No final dos anos 70, nos guetos nova iorquinos, um movimento cultural dava seus primeiros passos: o hip hop. Em meio a uma crise política, econômica e social, a violência policial e das gangues de rua tomava conta da região, do Brooklyn ao Harlem, onde a população era majoritariamente afro-americana ou descendente de imigrantes, entre porto-riquenhos, jamaicanos e outros. Desde este momento, a vestimenta já era utilizada como bandeira de identificação: as gangues, que se dividiam por distritos e bairros, eram diferenciadas através das roupas que usavam. O traje obrigatório consistia em jaquetas jeans que ganhavam os nomes da gangue pertencente na parte de trás.

Em meados da década de 70, uma série de ações pacificadoras foram impulsionadas pelas próprias gangues, em especial os Ghetto Brothers. Os grupos se reuniram e uniram forças para promover melhorias em suas comunidades. As lutas foram substituídas pelas confraternizações e festas, e os confrontos deram lugar à dança, rima e grafite. Estava dado o contexto de surgimento do hip hop.
As primeiras estrelas do hip hop, foram, naquele momento, os DJs, e não os rappers, como é visto hoje em dia. O DJ Grandmaster Flash foi um dos primeiros, e em 1976, o seu grupo Furious Five adotava um visual muito inspirado pela disco music, que bombava na época. Com roupas brilhantes, casacos de pelo e calças justas, estes primeiros artistas tinham a intenção de se destacar através do figurino, que fazia parte da performance no palco.

Em seguida, enquanto o hip hop deixava a sua veia mais festiva e passava a se consolidar como um movimento contestador, que denunciava a realidade dos bairros americanos através das rimas, o visual dos artistas passou a mudar também. Agora, a ideia era comunicar uma imagem de aproximação com a população, adotando estética semelhante à que já se via nas ruas.
Os próprios Furious Five foram personagens importantes nessa mudança. A famosa letra do grupo, ‘The Message’, é considerada a primeira rima de contestação do rap. A mudança nas mensagens das músicas se traduziu também nas vestes. O grupo Run DMC, por exemplo, usava a mesma roupa que qualquer jovem comum da vizinhança usava: chapéus Kangols, conjuntos da Puma, óculos Cazals, tênis Adidas. O sucesso do grupo foi tanto, que eles foram um dos primeiros artistas a firmarem uma parceria paga com uma marca como a Adidas.

As décadas de 80 e 90 serviram para consolidar o hip hop como uma poderosa indústria, capaz de movimentar multidões, e de gerar transformações imensas na sociedade. Toda a estética urbana que se tornou febre no mundo inteiro nos anos 90, com peças oversized, grafismos, itens esportivos e cores contrastantes, foi diretamente influenciada pelo hip hop. Os clipes musicais que bombavam na MTV e séries de TV como Fresh Prince of Bel Air transmitiam ao mundo o poder da imagem que emanava desta cultura.
O visual destes artistas, ao mesmo tempo que busca representar identificação com o público, simboliza também a afirmação do status social. Trata-se de um grupo historicamente marginalizado economicamente na sociedade, logo, a roupa é utilizada para demonstrar poder de consumo. As enormes correntes de ouro e peças de grifes de luxo como Gucci e Prada passam a ser parte obrigatória do visual do artista de hip hop.
Por outro lado, os artistas aproveitam o espaço para lançarem suas próprias grifes, enquanto outros personagens participantes da cultura hip hop passam a aventurar-se no mercado de moda. Assim, os anos 90 testemunham a ascensão de diversas marcas oriundas desse contexto: Cross Colours e Karl Kani eram as principais. Estas marcas saíram do lugar da marginalidade para levar a estética afro-americana a patamares antes impensados, rompendo com o visual hegemonicamente branco e ditado pelas grandes grifes francesas, e transformando o potencial criativo que emanava da cultura hip hop em potência econômica.

Hoje, o “street style” se refinou e ganhou ares luxuosos. Grandes artistas como Kanye West, Pharrell Williams e Jay-Z, lançam constantemente parcerias de peso com marcas poderosas como Nike e Adidas, além de serem donos de suas próprias marcas, que capturam o visual de rua com pinceladas de modernidade e luxo, já que as peças são tão (ou mais) caras e desejadas quanto um prét-à-portér da Dior, por exemplo. A própria Supreme, uma das grifes mais faladas atualmente, teve um boom em popularidade quando passou a ser usada pelos artistas da cena atual do hip hop norte-americano, em especial o Kanye West e o Frank Ocean.

Como se vê, desde os seus primórdios, a cultura hip hop vem caminhando lado a lado com a moda. O nome de uma gangue bordada em uma jaqueta, uma marca, uma cor, uma corrente de ouro: todos são elementos do vestuário que, isolados, não carregam significado algum. Mas, quando colocados dentro de um contexto específico, passam a apresentar significados importantíssimos para todo um grupo e uma geração, e emprestam valor para quem os utiliza, seja o da ostentação, da ascensão social ou da identificação cultural. A moda apresenta-se, também, como importante ferramenta para a observação, e agente nas transformações políticas, sociais e econômicas que se transcorreram no hip hop ao longo das suas 4 décadas de existência.
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