Somos todos terroristas

Terça-feira, 11:30, ponto de ônibus no meio de uma das vias mais importantes da cidade. Já fazia mais de 20 minutos que esperava o ônibus pra casa.

Milhares de pensamentos circulavam na minha cabeça pra não ficar entediada.

"Não vejo a hora de tirar a carteira de habilitação", "que fome", "minha bolsa tá pesada demais", "quinta tem prova e eu nem estudei", entre outros.

Até que, num dado momento, um homem apareceu. Ele aparentava ter uns 70 anos, e ficou bem na minha frente, bloqueando a minha visão. Com a maior tranquilidade do mundo, ele olhou pra mim e começou a cantar.

Cantarolava qualquer coisa enquanto arrumava a mochila. Pegou um saco de biscoitos e um pote de iogurte. Colocou a mochila nas costas. Deixou cuidadosamente o pote de iogurte no chão e foi embora.

Ele seguiu andando, calmo, até que parou e olhou pra trás novamente. Depois, apertou o passo e saiu correndo.

Olhei pro potinho de iogurte.

"Ferrou", era meu único pensamento. "Esse cara é terrorista".

Não soube o que fazer. Tentei me distanciar daquele pote, mas eu jamais saberia a distância suficiente.

Tive uns cinco ou seis segundos de pânico.

E um grupo animado de adolescentes se aproximou. Eles dançavam e cantarolavam qualquer coisa, e um deles pisou no pote de iogurte.

Nada aconteceu.

Devo ter tremido de medo no momento, mas depois me senti um ser humano ridículo. "Quanta bobagem", pensei, "isso só acontece em filme norte-americano".

Acontece tanto em filme, que virou estereótipo. Ficamos tão neuróticos, que ações simples acabam sendo encaradas como "loucura", "doenca", "terror".

Fruto desse julgamento nosso de cada dia.

No fim, meu julgamento aterrorizou muito mais do que o próprio "terrorista".

Após mais alguns minutos, meu ônibus finalmente chegou.

Uma senhora atrás de mim olhou para o mesmo pote e me disse "quanta sujeira, né".

Bela moral da história.