CAPÍTULO VI— COMO PARTICIPAR DE UM GRUPO

  1. Faça um roteiro de espaços públicos onde você possa se sentar durante o dia, como cafés ou salas de espera.
  2. Permaneça no máximo 1 hora em cada espaço.
  3. Quando entrar em cada espaço, perceba o ajuste sonoro sutil quando as pessoas percebem a sua presença. O volume do som pode ficar mais baixo ou podem ocorrer interrupções súbitas nas conversas. O nível do ajuste vai depender do tipo de espaço: quanto maior esse espaço, menos mudanças ocorrerão. Se você entrar em uma estação de trem, a sua presença dificilmente irá causar alguma alteração no som do ambiente. Se você entrar em um café, onde apenas alguns clientes estejam sentados, a mudança no som será substancial.
  4. Observe uma leve tensão que se eleva com a sua entrada silenciosa no espaço, especialmente se as pessoas estiverem conversando. Perceba a sua total falta de familiaridade com o lugar, se for a primeira vez que você o visita.
  5. Agora você pode utilizar o seu silêncio para medir a coesão do grupo a sua volta. Se for um grupo fechado, onde todos são familiares entre si, eles vão se incomodar com o seu silêncio. Pode até ser um pouco assustador para eles, que podem inclusive interpretar a sua atitude como uma demonstração de superioridade. Se for um grupo recém-formado com indivíduos aleatórios, o seu silêncio será negligenciado.
  6. Permaneça em completo silêncio e espere.
  7. Depois de algum tempo, cuja duração vai depender do tipo de grupo, o ambiente sônico vai aos poucos voltando para um estado semelhante ao da sua chegada. Ao sentar em silêncio, permita que a sua atenção vagueie entre as conversas que você ouve. Note as adjacências sônicas e ainda como cada conversa tem um dependência sônica em relação à conversa ao lado, como se elas estivessem procurando companhia ou validação. Observe como as conversas permanecem adjacentes, sem que haja sobreposição ou cortes entre elas. Elas se estabelecem em uma relação similar à adjacência espacial; elas formam uma vizinhança sônica. As pessoas sabem que os seus vizinhos podem escutar a conversa, mas isso não faz com que elas sussurrem ou se abstenham de falar, desde que também possam ouvir as conversas dos outros grupos.
  8. Passe um tempo contemplando a vizinhança sônica ao seu redor. Permita-se mergulhar nela. Você vai perceber que não está mais separado dela e que uma sensação vaga de solidariedade emergiu, resultado da compatibilidade com o grupo a sua volta.
  9. Você pode distinguir dois tipos de solidariedade, dependendo do tipo de grupo ao seu redor. A solidariedade de um grupo coeso é percebida na aceitação da sua presença na periferia. O seu silêncio é transformado em um buraco negro, que carrega a conversa do grupo para um portal onde ela pode passar. A solidaridade de um grupo recém-formado permite o retorno a você mesmo e o alargamento do seu lago de silêncio, desde que haja espaço para isso.
  10. Se você não conseguir sentir solidariedade, não se desespere. Permaneça em silêncio e espere. Esta é outra maneira de se conectar à um grupo - conexão pela compulsão.
  11. Sentindo solidariedade ou não, levante depois de uma hora e repita a experiência em outro lugar, para assim aprender a virtude de se mover entre grupos.
CAPÍTULO I - COMO DESAPARECER
CAPÍTULO II - COMO REAPARECER
CAPÍTULO III - COMO OUVIR SUA VOZ INTERIOR
CAPÍTULO IV - COMO ENCONTRAR SIGNIFICADO MATANDO TEMPO
CAPÍTULO V - COMO ALTERAR A SUA FREQUÊNCIA
CAPÍTULO VII - COMO SAIR DE UM GRUPO