COMO NÃO SER UM ARTISTA PROFISSIONAL

Bruce Davidson, “USA. New York City. 1959.

Ninguém gosta de ser chamado de amador ou diletante. Dizer que alguém "não é profissional" pode até mesmo ser considerado um insulto. O profissional faz sempre os movimentos certos. Ele sabe o que dizer, como se comportar e conhece as pessoas que importam. Controlado e comedido, o profissional nunca fode com a pessoa errada ou bebe demais na festa. Ele nunca se emociona nas inaugurações, nunca permanece deitado por dias deprimido, imóvel. Dizem por aí, que com o tal profissional "é fácil trabalhar" ou que eles são "exigentes e brilhantes". O profissional tira vantagem de todo e qualquer encontro e trata cada um dos novos conhecidos como "contato". Ele sempre faz as entregas dentro de prazo. Quando lhe perguntam sobre o trabalho que está desenvolvendo ele sempre sabe o que dizer: alguma explicação rápida com pitadas de intriga e alusões aos abismos da pesquisa, aos mistérios do fazer. Eles respondem emails em poucos minutos. Seus PowerPoints são super concisos e seus websites modernos, clean, very pro.

Você não se identifica com nenhuma dessas coisas.

Você está com fome, cansado, sobrecarregado de trabalho. Você bebeu demais na festa e transou com a pessoa errada. Você perdeu os prazos. Os aproveitadores a sua volta desapareceram em meio a riqueza e a fama. Sua agente lhe diz para você usar mais vermelho, esse vermelho que está na moda. Talvez ela recomende utilizar apenas o vermelho por um tempo. Seus alunos faltam às aulas para frequentar as feiras de arte. Os colecionadores mais vorazes são os os detentores dos títulos dos financiamentos estudantis. Você leva dias para responder um e-mail. Seu website, se é que existe, está em ruínas.

Você pensa, duvida. Você muda o estilo, o meio, muda de cidade. Você experimenta e falha. De novo.

Não ser profissional significa quase que literalmente "não estar de acordo com os padrões da sua ocupação". Quem criou estes padrões? Todos os artistas são remunerados? De maneira justa? Ser um artista é como ter um emprego ou outra coisa? Quem configurou esses padrões? Você quer ser padronizado?

A arte e o sucesso.

É tão fácil fundir essas duas palavras sob a égide do “profissionalismo”. Pegue o currículo de um artista famoso e leia do início. O sucesso se parece com uma escultura no lado de fora do Palácio de Versalhes? Se parece com uma bienal, com um prêmio ou com um agente sagaz? Se assemelha com a capa de uma revista ou com um catálogo espesso de uma retrospectiva? Então aquele fotógrafo envelhecido comprou um carro de luxo, luzente e potente, após ter trocado a modesta galeria, que o representou por tantos anos, por um grande negociante e sua jovem namorada, luzente e potente como o seu carro novo; talvez ele agora contrate uma secretária, governanta, babá ou qualquer coisa que abra uma pequena brecha para o mundo opaco da riqueza, que está muito longe das baratas que andam pela pia da sua cozinha ou do fato de que no último mês você só teve purê de abóbora e cigarros para se alimentar.

Isso não parece coisa de profissional, mas é verdade. Você passou por isso para ser um artista.

A sua obra descreve o caminho que você percorreu, seus mais preciosos pensamentos, suas mais profundas emoções. Expressar tudo isso através da arte por si só já é uma tarefa muito dura e requer muito trabalho, mas hoje você acha que precisa ser profissional. A pressão e a penúria fazem com que você fique nervoso e ressabiado. O que você pode fazer para afastar a pobreza da sua carne, esta que ameniza o sentimento de estar cometendo um terrível equívoco?

De alguma forma, ganhar dinheiro nos faz sentir de verdade. Dinheiro pode ser trocado por casa, comida, tempo, espaço e materiais para continuar. É difícil ter que lidar com essas coisas, mas não são elas que nos fazem de verdade. Nós já somos.

Todo mundo pode ser artista e não é a sua formação ou quanto você vende que vai definir isso, mas sim um certo viver artístico que preza pela liberdade, habilidade, atenção e imaginação.

Porém os artistas trocam notas promissórias e se submetem à autoridade das instituições em troca de alguma legitimação. Fazem isso para mostrar aos entes queridos que eles não estão loucos em lhe apoiar financeiramente, emocionalmente ou espiritualmente. Mais tarde, falido, você trocará sonhos por dinheiro, ou talvez, mais tarde ainda, transformará o sonho dos outros em realidade para poder trocá-los por dinheiro.

Os colecionadores continuam só querendo saber do vermelho.

O caminho é claro para o profissional. Bacharelado em Belas Artes, Mestrado em Belas Artes, galeria, museu. 5 coisas que todo o artista deveria saber para expor em uma galeria. 10 dicas para estimular a visitação ao seu estúdio. 3 simples passos para o estrelato na arte. Uma nomeação para um instituto de ensino, uma bolsa aqui, uma residência acolá.

Para os que não são profissionais o caminho não está definido. Assim como Charles Bukowski escreveu, “a distância mais curta entre dois pontos é muitas vezes intolerável.”

Não se trata de afirmar que os artistas não devem ser remunerados pelo trabalho, mas devemos recusar uma atribuição de valor baseada meramente na vendabilidade ou na validação por instituições. O sistema vai sempre querer nos engolir. Precisamos resistir ao aparato da eficiência com a leveza da nossa humanidade. A falta de profissionalismo nos garante o direito de sermos humanos perante a máquina.

Ser frágil, fraco, vacilante ou desastrado demais para ser profissional é apenas um sinônimo de humanidade. Isso não significa agir sem ética, honestidade, ou gentileza. Essas qualidades podem facilmente ser independentes da forma como permutamos nosso tempo por dinheiro.

O profissionalismo faz da pessoa uma marca. O cínico acha que isso já aconteceu: os nossos movimentos mais tênues são rastreados e transformados em anúncios personalizados, nossas declarações e fotografias que compartilhamos se transformam em puro comércio. Por mais que os outros tentem lhe profissionalizar, ou reduzir o seu espírito a um slogan, em um produto, você não precisa fazer isso com você mesmo.

Vivemos sob o capitalismo, mas não precisamos nos submeter às alienações sistemáticas, divisões e desigualdades dos valores de mercado.

Eu estava ansiosa para escrever isso, principalmente depois que li um ensaio publicado na Artnews, escrito por Daniel S. Palmer, que termina com uma frase inspiradora: “São nesses momentos de monotonia e conformismo que os artistas deve retomar sua liberdade.”

Ele abre o ensaio descrevendo uma apresentação de um jovem artista sobre o seu próprio trabalho, em um encontro com profissionais do mundo da arte. Ao final da apresentação, Daniel Palmer não se sentiu nem um pouco impressionado. O profissionalismo, neste sentido, nem sempre funciona. Pode ter impressionado aqueles que já são hiper-profissionalizados como esse jovem artista, em um sistema concebido para tais propósitos. Só que não funcionou com Daniel Palmer e não funcionaria comigo.

Esse profissionalismo é crasso, carreirista, vazio. Repulsivo talvez. O termo “ jovem artista ambicioso” sempre soou como um insulto para mim.

Eu vejo o fazer artístico como uma expressão necessária do espírito humano. Todos precisamos viver, mas quando o desejo de riqueza se converte em esforço primordial você já não é mais um artista, mas um financista.

Mais do que um galerista ou gestor, negociante ou consultor, crítico ou curador, mais do que um exército de assistentes e um amontado de colecionadores, um artista precisa da coragem de agir só e de uma comunidade que o apoie, que permita a vulnerabilidade, o inapropriado, a vagabundagem, a selvageria, o estranho e a falha.

Que aceite o diletante, o amador.

Um amador está repleto de um amor que vai além das compensações. Os diletantes vão sem medo à lugares aos quais eles não sentem pertencimento. Os não profissionais não tem as pretensões conservadoras dos especialistas. Quando saímos dos limites impostos pelo profissionalismo, podemos nos tornar tão abertos quanto estudantes, podemos flertar com outras maneiras de viver, de buscar conhecimento, experiências e valores sem limites.

Fora da validação institucional e das pressões do mercado somos livres para sermos humanos, artistas, amadores.

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Autor: ANDREW BERARDINI

Tradução livre de Ivan LP. Artigo publicado originalmente em Momus