COMPARTILHAMENTO: O SURGIMENTO DE UM CONCEITO

Moebius (Jean Giraud)
Uma conversa entre Cornelia Sollfrank e Wolfgang Sützl

Cornelia: Sua pesquisa mais recente tratou da noção de "compartilhamento" e eu gostaria de entender melhor de onde veio esse seu interesse e como ele está inserido em um contexto mais amplo do seu trabalho.

Wolfgang: O interesse vem da minha pesquisa em midiativismo. No decorrer do meu projeto de pesquisa na Universidade de Innsbruck, percebi que o "compartilhamento" exerce um papel importante em muitas comunidades ativistas, ainda que o significado dessa palavra seja ainda um tanto quanto vago. Obviamente ela se relaciona com o fenômeno bastante tópico do compartilhamento de arquivos digitais, mas existem muitas outras implicações.

O midiativismo se propõe a intervir na estrutura sócio-econômica da mídia e da indústria da tecnologia. Isso envolve também questionar a noção de escassez. Se você pode criar conteúdo para muitas pessoas de graça, por que não criar? Em uma entrevista que realizei com Eben Moglen, co-fundador da Free Software Foundation, ele perguntou: se você pudesse fornecer comida para todas as pessoas apertando apenas um botão, que argumento moral você utilizaria para negar? Os ativistas se deram conta de que, fora do âmbito da economia da escassez, as mídias digitais possuem este potencial. Para examinar tais questões, nós organizamos uma conferência chamada Cultura e Ética do Compartilhamento em Innsbruck. Pouco tempo depois, eu co-organizei com Nicholas John a ICA Pré-Conferência em Compartilhamento Digital. Desde então o foco das minhas pesquisas tem sido principalmente a dimensão conceitual do compartilhamento.

Cornelia: Antes de falarmos sobre o fenômeno do compartilhamento no contexto das redes digitais — um campo que tem sido redescoberto e se difundiu nos últimos 20 anos — estou interessado em saber mais sobre as raízes intelectuais desse conceito. Você tem se aproximado de filosofias que podem ser úteis no sentido de conceitualizar a noção de compartilhamento. Georges Bataille e a idéia de excesso…

Wolfgang: Bataille é um pensador interessante a este respeito, pois desenvolveu as linhas gerais de uma anti-economia que começa a partir do excedente e não da escassez. Seu foco era no que nos leva a gastar recursos, em vez do que nos leva a produzi-los. Ele entendia que o marxismo não era radical o suficiente, pois aceitava a noção de escassez, o coração do modelo econômico capitalista. Bataille definiu um limite para o intercâmbio econômico, onde as despesas se caracterizariam pelo o que não pode mais ser negociado, aquilo que não produz nada e não pode ser reciclado para consumo. Ele chamou isso de "A Parte Maldita", que também é o título de um livro de sua autoria, escrito em 1949. Assim como a noção de dispêndio de Bataille, o compartilhamento não é algo que possa ser utilizado para o crescimento econômico. O conceito de "economia compartilhada" não faz sentido algum.

Cornelia: O que mais lhe vem à cabeça sobre o compartilhamento e sua inserção na cultura cristã? Em que medida a conotação positiva do compartilhamento advém da origem religiosa?

O Novo Testamento contém muitas referências ao compartilhamento. A mais conhecida talvez seja aquela onde Jesus e seus seguidores compartilham uma quantidade aparentemente ínfima de comida com cinco mil pessoas. Isso acontece após Jesus dizer aos seus discípulos para que não mandassem as pessoas aos povoados vizinhos para comprar comida, ou seja, ele impede o envolvimento no intercâmbio econômico. O que me parece relevante aqui, não é o compartilhamento de pedaços de pão e de alguns peixes com uma multidão e de maneira satisfatória. A questão é que haviam muitos cestos cheios de comida que não foram consumidos. Existe um excedente cuja origem é o compartilhamento, onde em concordância com “A Parte Maldita” de Bataille, é este excedente que não produz e não pode ser reciclado. Este é o modelo da anti-economia, subjacente à demanda para oferecer a outra face. A conotação positiva do compartilhamento, ou a sua "bondade", vêm da ideia de igualdade e união pela partilha. É importante dizer que essa noção de igualdade é bem diferente da igualdade formal apreciada pelos participantes de um determinado mercado e das hierarquias que são criadas ou fortalecidas através da esmola…

Cornelia: Juntamente com Bataille e sua noção de dispêndio, a multiplicação do pão e do peixe sugere um paralelo com o que estamos experimentando nas mídias em rede: abundância em vez de escassez. Qual o seu pensamento sobre isso?

Wolfgang: Bataille chama de "excesso" as práticas que despendem energia sem que haja um retorno, incluindo sacrifícios, luxo, guerra e sexo não-reprodutivo. Portanto a riqueza seria uma questão de gastar o que não pode ser reciclado para consumo. Em princípio, as mídias em rede podem ser consideradas excessivas, pois objetos digitais pode ser reproduzidos indefinidamente, no sentido de que sempre haverá muito, sempre haverá mais do que somos capazes de utilizar de maneira produtiva. No entanto, a comercialização da internet tem levado a uma situação paradoxal, onde essa disponibilidade excessiva alimenta o crescimento do Facebook, Google, etc. Há alguns anos atrás, midiativistas iniciaram o suicídio virtual dos perfis nessas plataformas, uma espécie de sacrifício se quiser chamar assim, uma reminiscência do pensamento de Bataille.

Cornelia: Continuando com esse raciocínio e trazendo a noção de compartilhamento, torna-se necessário distinguir de maneira mais precisa o compartilhamento e a troca, como transações econômicas. Você poderia explicar a diferença entre esses dois conceitos?

Wolfgang: Ao contrário da troca, o compartilhamento não é recíproco. Ele não consiste em dar e receber, que é a estrutura da troca, tanto da troca econômica em um mercado qualquer quanto da troca simbólica: dar e receber presentes, palavras, entre outros símbolos. A obra A Troca Simbólica e a Morte (1976), de Jean Baudrillard, mostra a importância da troca simbólica no capitalismo e se utiliza da crítica marxista para além das questões econômicas. Bourdieu também desenvolveu uma crítica da troca simbólica em associação com a ideia de capital cultural. Mas ambos param na ponto onde uma representação formal da reciprocidade se torna impossível, que Baudrillard mais tarde chamou de "troca impossível", título de um livro dele.

Cornelia: Me parece que a troca simbólica está em algum lugar entre a troca econômica e o compartilhamento…

Wolfgang: Presentes ou esmolas são variações da troca simbólica. Ela determina quem está na base e quem está no topo. Por exemplo, você oferece a gorjeta e o garçom aceita. Essa verticalidade da troca simbólica explica por que razão a troca de presentes entre pessoas que querem se igualar, como um típico casal moderno por exemplo, pode ser um assunto complicado e que em alguns casos acaba sendo resolvido com a suspensão da troca de presentes.

Baudrillard argumenta que a troca simbólica possui muitas variantes que dão suporte à troca econômica, como por exemplo, a lei e o estado, que intervém quando as trocas econômicas falham, notadamente no caso de falências, desemprego, ou do ajuste das taxas básicas. Isso também mostra como a troca simbólica está ligada ao poder político. O crime organizado, os mercados paralelos, ou as economias controladas pelo Estado funcionam predominantemente desta forma.

Cornelia: Isso significa que nós permanecemos em uma espécie de economia do dar-e-receber, enquanto o compartilhamento é um conceito que está fora do território das relações econômicas. Penso que deveríamos continuar a examinar os conceitos filosóficos que você vêm analisando para desenvolvermos um conceito de compartilhamento. A fenomenologia por exemplo.

Wolfgang: Quando você se dá conta de que não é possível teorizar o compartilhamento em termos de troca, você passa a enfrentar problemas muitos semelhantes aos que encontramos ao tentar teorizar sobre a experiência cotidiana. O compartilhamento faz parte da rotina do dia-a-dia, e como tal, não possui uma verdade própria, como um objeto de investigações científicas ou estéticas. Os ready-mades de Duchamp são uma resposta às dificuldades da cotidiano. Como seria uma obra de arte desvinculada da experiência cotidiana profana? Segundo Duchamp, um urinol, ou então um engradado. Em termos ontológicos, Heidegger empreendeu uma investigação semelhante em sua obra Ser e Tempo (1927), onde ele procurou entender o Ser através do Dasein cotidiano, ou seja, do simples fato de que o nosso ser-aí está dado, independente de qualquer questionamento.

Heidegger se utiliza do termo Mit-sein ou Ser-com para compreender o Ser como algo já compartilhado. De acordo com ele, não há outra maneira de entender o Ser. Ao me encontrar no mundo, eu já compartilho o mundo com outros. O Ser não pode estar separado do compartilhamento e os outros aparentam serem outros por causa deste compartilhamento. Este é o motivo pelo qual compartilhar no "comum", como descrito por Ostrom, define uma subjetividade política. Isso também oferece um ponto de partida para entender porque uma economia da troca, em vias de totalizar-se conforme o avanço do neoliberalismo, encontra dificuldades em relação às noções de alteridade e diferença. Para funcionar, a troca precisa anular a diferença e a alteridade, ou seja, transformá-las em farsa como diz Žižek. Então, nesse sentido, a alteridade se transforma em negatividade desenfreada ou violência aleatória, que é apenas outra caricatura da busca por sentido.

Cornelia: O que não seria benéfico no compartilhamento?

Wolfgang: Uma vez que entendemos o compartilhamento como um limite da expansão econômica, como um antí-doto para os princípios econômicos, passamos a questionar uma crença profundamente arraigada na cultura ocidental. Isso representa uma exterioridade que pode ser assustadora, porque não pode ser regulada pela lei, inclusive porque a lei é uma operação de troca. Os piratas, que não reconheciam as leis marítimas, possuíam uma cultura de compartilhamento sólida e que ressuscitou com a pirataria digital. No momento do compartilhamento, deixamos de ser indivíduos auto-suficientes e entramos na esfera da intimidade. Existe uma vulnerabilidade, que aparece com o compartilhamento, expresso no problema do “oversharing” nas redes sociais, onde os usuários disponibilizam informações íntimas à pessoas que mal conhecem. O compartilhamento é naturalmente uma prática limitada a comunidades pequenas. Finalmente, nós compartilhamos coisas como gases dos escapamentos, os ruídos dos nossos carros ou a crueza dos outdoors. Nem sempre o compartilhamento é benéfico.

Cornelia: A troca e o compartilhamento existem em paralelo, seja offline ou online. Eu gostaria de lhe pedir para que você descrevesse e desvelasse esta coexistência em relação as mídias digitais em rede; e também falasse um pouco sobre as confusões, talvez intencionais, que emergem daí.

Wolfgang: Hoje há uma confusão muito grande entre compartilhamento e troca, por causa da maneira que utilizamos as palavras na comunicação online e do hype em torno da economia compartilhada. É uma confusão fácil de acontecer por causa da natureza intrínseca do compartilhamento, mas também existe uma confusão que faz parte do plano de negócios da indústria de mídias digitais, que considera o compartilhamento como uma forma lucrativa de "engajar o consumidor". A confusão é fácil de ocorrer porque compartilhar é um fenômeno comunal: é justamente porque o Ser é sempre Ser-com-o-outro que compartilhamos e experimentamos significado. Por isso que Jean-Luc Nancy pode dizer que "o significado é o compartilhamento do Ser." Mas nas mídias sociais corporativas, as subjetividades são formadas através de formas estruturadas de comunicação, cujos provedores chamam de compartilhamento e se beneficiam do potencial anti-econômico do digital (seu excesso) e das conotações de amabilidade que vêm com o compartilhamento. Essas subjetividades são moldadas para caberem nos planos de negócios e colocam os usuários como clientes, como os sujeitos da troca. Porém, significado não pode ser trocado, apenas compartilhado. É por isso que grande parte da comunicação nas mídias sociais é comercial ou trivial, como no casos clássicos dos vídeos de gatos. Existe uma erosão do significado sob o domínio da troca e consequentemente muito compartilhamento de conteúdo vazio, pois o que importa ao provedor do serviço é o lucro que vem do engajamento do consumidor. Isso é verdade para as mídias digitais comerciais, mas não se trata de algo inerente à tecnologia digital. A Wikipedia é uma prova disso.

Cornelia: Para concluir esse breve bate-papo, pode-se dizer que o "compartilhamento" como essência do ser-com-os-outros ganhou uma nova dimensão através da tecnologia digital. Ao mesmo tempo, esta nova forma de compartilhamento, no campo dos arquivos digitais e do conhecimento, é dependente de uma tecnologia que é totalmente dependente dos ciclos capitalistas de produção, ou seja, da troca. Penso que aqui está a verdadeira rachadura do conceito. Penso também que há um outro atrito no fato de que o neoliberalismo expande a sua lógica de "economização" em todos os domínios possíveis da vida. Através da economia compartilhada, por exemplo, houve um encobrimento da clara distinção entre compartilhar como um meio de ser, ou de tornar-se sujeito, e como troca econômica. Que risco corremos aqui? O que de fato impulsiona as suas pesquisas?

O que me impulsiona é a crença de que um melhor entendimento do compartilhamento pode nos trazer maior clareza sobre os limites da troca. Isso é necessário porque a corrente neoliberal atual vê fronteira em vez de limite. Esta fronteira seria como um limite temporário a ser rompido, um lugar para os mercados emergentes e capital de risco. Essa fronteira tem avançado na esfera política, na subjetividade e na racionalidade, através das mídias digitais corporativas e do desaparecimento de alternativas ao capitalismo. Wendy Brown oferece uma análise convincente deste processo em seu último livro, Undoing the Demos (2015). O que está em risco aqui é a possibilidade de formação de comunidades políticas significativas, no sentido mais básico desta palavra, e junto com isso a possibilidade de comunicar qualquer coisa política. Sendo assim, um melhor entendimento do compartilhamento pode ajudar a formular uma argumentação política contra o neoliberalismo, talvez o único tipo de argumento do qual se pode esperar alguma eficácia. Se o compartilhamento de ideias imediatamente se transforma em transação econômica, fica complicado comunicar alguma coisa. Nós ainda podemos aprender muito com o movimento de mídia tática a este respeito. Talvez, com a dominância da mídias sociais corporativas e suas estratégias de negócios, a tática seja algo de extrema relevância hoje. As mídias digitais ainda oferecem possibilidades reais e não-utópicas de compartilhamento, lembrando que este é apenas o primeiro passo. As críticas à economia compartilhada estão cada vez mais generalizadas e isso me parece um bom sinal. Assim abrimos espaço para um debate essencial sobre a noção de compartilhamento.

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Cornelia Sollfrank é artista, pesquisadora, vive e trabalha em Berlim. Seu trabalho atual, Giving What You Don’t Have (GWYDH), explora a contribuição dos artistas para a manutenção e produção do comum: http://artwarez.org

Wolfgang Sützl é teórico das mídias, filósofo e linguista. Atualmente está escrevendo um livro sobre a fenomenologia do compartilhamento: http://wolfgangsuetzl.net

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Tradução livre de Ivan LP. Entrevista publicada originalmente em APRJA.