HIPÉRION A BELARMINO

Imagem: Olivo Barbieri

Não tenho nada que me permita dizer: isso é meu mesmo.

Distantes e mortos estão meus amados e nada mais ouço deles, nenhuma voz.

Minha tarefa na terra acabou. Cheio de vontade, fui para o trabalho, nele sangrei e não aumentei a riqueza do mundo em um centavo sequer.

Sem fama e solitário, retorno e caminho por minha pátria, que se estende a minha volta como um jardim dos mortos, e nela me aguarda talvez a faca do caçador, que nos espreita, a nós, gregos, como a caça na floresta.

Mas você ainda brilha, sol do céu! Ainda verdeja, terra sagrada! Ainda murmuram os rios em direção ao mar, e árvores sombreadas sussuram ao meio-dia.

O delicioso canto da primavera conduz ao sono meus pensamentos mortais. A abundância do mundo repleto de vida nutre e sacia meu ser carente, embriagando-me.

Oh, natureza bem-aventurada! Não sei o que acontece comigo quando elevo os olhos diante de sua beleza, mas todo prazer do céu reside nas lágrimas que derramo diante de você, o amado diante da amada.

Todo meu ser silencia e escuta quando a delicada onda do ar brinca em torno de meu peito. Perdido na imensidão azul, olho muitas vezes para o éter, lá no alto, e para o mar sagrado, ali embaixo, e sinto como se um espírito próximo me abrisse os braços e a dor da solidão se dissolvesse na vida da divindade.

Ser um com o todo, essa é a vida da divindade, esse é o céu do ser humano.

Ser um com tudo o que vive e assim retornar numa bem-aventurada abnegação para o todo da natureza, este é o ápice do pensamento e da alegria, o cume sagrado da montanha, o lugar do descanso eterno onde o meio-dia perde o ar abafado e o trovão, a sua voz e o mar fervente se assemelham às ondas do trigal.

Ser um com tudo o que vive! Com essas palavras, a virtude larga a irada armadura, e o espírito humano, o cetro e todos os pensamentos desaparecem diante da imagem do eterno mundo uno, tal como as regras do artista em luta diante de sua Urânia, e o destino brônzeo abdica do poderio, e a morte escapa da aliança dos seres, e a indivisibilidade e a eterna juventude encantam, embelezam o mundo. É nessas alturas que me encontro com frequência meu Belarmino! Um momento de reflexão, porém me joga para baixo. Penso e vejo-me como era antes, sozinho, com todas as dores da mortalidade e o refúgio de meu coração, o eterno mundo uno se desvanece: a natureza fecha seus braços e fico parado diante dela como um estranho, sem compreendê-la.

Ah! Se jamais tivesse frequentado as suas escolas. A ciência que segui até o fundo do poço, da qual esperei, jovem tolo, a confirmação de minha alegria pura, ela arruinou tudo em mim.

Com vocês, tornei-me tão sensato, aprendi a me distinguir fundamentalmente daquilo que me cerca e eis que vivo, então, isolado neste belo mundo, fui expulso do jardim da natureza onde cresci e floresci, ressecando ao sol do meio-dia.

Oh, o homem quando sonha é um deus, mas quando reflete é um mendigo; e quando o entusiasmo acaba, ele fica ali parado, como um filho desgarrado, expulso da casa paterna, observando o miserável centavo que a compaixão jogou em seu caminho.

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Hipérion ou o Eremita na Grécia - Friederich Hölderlin