O QUE É UM TERRITÓRIO?

Titus Kaphar

Na entrevista intitulada Abecedário Deleuze, Deleuze diz para a jornalista Claire Parnet, que ele e Felix Guattari criaram com a noção de território “algo como um conceito filosófico”. Isto é importante, porque Deleuze definiu a prática da filosofia como criação de conceitos. Acho que vale a pena refletirmos sobre o que isso implica. Em primeiro lugar, se a filosofia envolve a criação de conceitos, estes conceitos não estão dados ou são parte do universo, muito menos estão situados em algum mundo platônico das ideias, aguardando para serem descobertos. Eles são inventados e talvez depois calcificados em formas “senso comum” de ver o mundo. Para ser mais claro, o que é dito aqui como “conceito” não é redutível ao significado de uma palavra, mas à uma estrutura complexa que não admite a definição do dicionário. Um conceito é uma forma de organizar a informação, que de outra maneira permaneceria caótica, mas esse mesmo caos pode ser organizado de infinitas.

Um mau filósofo é alguém que não inventa conceitos, e se serve de idéias prontas, emite opiniões. E aí ele não faz filosofia, ele diz: “É isso o que penso”. Conhecemos muitos, ainda hoje, mas em todos os tempos houve opiniões. Ele não inventa conceito, não coloca, no verdadeiro sentido da palavra problema, nenhum problema. Fazer história da filosofia é um longo aprendizado, em que se aprende, em que se é aprendiz, nesse duplo campo: a constituição dos problemas, a criação dos conceitos. O que é que mata, o que faz com que o pensamento possa ser idiota, débil, etc.?
As pessoas falam, mas nunca se sabe de que problema elas falam. Não só não criam conceitos, elas emitem opiniões, mas além disso, nunca se sabe de que problema elas falam. Ou seja, conhecemos, a rigor, as questões, mas se digo: “Deus existe?”, não é um problema. Não disse o problema, onde ele está? Por que coloco tal questão? Que problema está por detrás disso? As pessoas querem colocar a questão: “acredito ou não em Deus?” Mas ninguém liga se acreditam ou não em Deus, o que conta é: por que dizem isso, a que problema isso responde? E que conceito de Deus elas vão fabricar.

Entender o conceito significa compreender o problema para o qual ele responde. Deleuze utilizou frequentemente as ideias de Platão para explicar essa questão. “Ideia” é um conceito. Este conceito responde ao problema de distinguir cópia verdadeira de simulacro. Não se trata de tentar puramente intuir a Ideia de Justiça, por exemplo - que poderia ser apenas Justiça e nada mais - o problema é utilizar o conceito como meio de classificar e encontrar o mais verdadeiro entre os pretendentes. Assim, nesse exemplo, a ideia é utilizada como uma forma de lidar com o desafio concreto de distinguir o que se originou de algo meramente legal de um ato de vingança.

As pessoas sabem que Platão criou um conceito que não existia antes dele e que é geralmente traduzido como a “Ideia”. Ideia com um I maiúsculo. E o que Platão chama de Ideia é bem diferente do que outro filósofo chama de Ideia. É um conceito platônico, tanto que se alguém emprega a palavra Idéia em um sentido parecido, responderão: “É um filósofo platônico”. Mas concretamente o que é? Acho que o que ele chama de “Ideia” é uma coisa que não seria outra coisa. Ou seja, que seria apenas o que ela é. Isso também pode parecer abstrato. Há pouco, dizia que não se deve ser abstrato. E algo que só é o que ele é, é abstrato.
Então, vamos pegar um caso que não seja de Platão. Uma mãe. Uma mamãe. É uma mãe, mas ela não é apenas uma mãe. Por exemplo, ela é esposa e ela também é filha de uma mãe. Suponhamos uma mãe que seja apenas mãe. Pouco importa se isso existe ou não. Por exemplo, será que a Virgem Maria, que Platão não conhecia, era uma mãe que só era mãe? Mas pouco importa se isso existe ou não? Uma mãe que não seria outra coisa além de mãe, que não seria filha de outra mãe, é isso que devemos chamar de “ideia de mãe”. Uma coisa que é só o que ela é. É o que Platão quis dizer quando disse: “Só a Justiça é justa”. Porque só a Justiça não é outra coisa além de justa. A gente vê que, no fundo, é muito simples.
Claro que Platão não parou só nisso, mas seu ponto de partida foi: “Suponham-se tais entidades que sejam apenas o que elas são, iremos chamá-las de Ideias”. Portanto, ele criou um verdadeiro conceito, este conceito não existia antes. A ideia da coisa pura. É a pureza que define a idéia. Mas por que isso parece abstrato? Por quê? Se nos entregamos à leitura de Platão é por aí que tudo se torna tão concreto! Ele não diz isso por acaso, não criou este conceito de Ideia por acaso. Ele se encontra em uma determinada situação em que, aconteça o que acontecer, em uma situação muito concreta, o que quer que aconteça ou o que quer que seja dado, há pretendentes. Há pessoas que dizem: “Para tal coisa, eu sou o melhor”. Por exemplo, ele dá uma definição do político. E ele diz: “A primeira definição do político, como ponto de partida, seria o pastor dos homens”. É aquele que cuida dos homens. Mas aí, chega um monte de gente dizendo: “Então, eu sou o político. Eu sou o pastor dos homens”. Ou seja, o comerciante pode ter dito isso, o pastor que alimenta, o médico que trata, todos eles podem dizer: “Eu sou o verdadeiro pastor”. Em outras palavras, há rivais.
Agora, está começando a ficar mais concreto. Eu digo: um filósofo cria conceitos. Por exemplo, a Ideia, a coisa enquanto pura. O leitor não entende bem do que se trata, nem a necessidade de criar um conceito assim. Mas se ele continua ou reflete sobre a leitura, ele percebe que é pelo seguinte motivo: há uma série de rivais que pretendem esta coisa, são pretendentes e que o problema platônico não tem nada a ver com o que é a Ideia, — do contrário, seria abstrato — mas é como selecionar os pretendentes, como descobrir em meio aos pretendentes qual deles é o bom. E é a Ideia, a coisa em seu estado puro, que permitirá esta seleção e selecionará aquele que mais se aproxima.
Isso nos permite avançar um pouco, pois eu diria que todo conceito — por exemplo, o de Ideia — remete a um problema. Neste caso, o problema é como selecionar os pretendentes. Quando se faz Filosofia de forma abstrata, nem se percebe o problema. Mas quando se atinge o problema, porque ele não é dito pelo filósofo? Ele está bem presente em sua obra, está escancarado, de certa forma. Não se pode fazer tudo de uma vez. O filósofo já expôs os conceitos que está criando. Ele não pode, além disso, expor os problemas que os seus conceitos… ou, pelo menos, só se podem encontrar estes problemas através dos conceitos que criou. E se não encontrou o problema ao qual responde um conceito, tudo é abstrato. Se encontrou o problema, tudo vira concreto. É por isso que, em Platão, há constantemente estes pretendentes, estes rivais! Está ficando cada vez mais óbvio.

O importante é que um conceito supostamente deveria corresponder a um problema. Logo, se Território é um conceito, a questão seria: a que problema ele responde? Infelizmente Deleuze e Guattari não são tão explícitos sobre isso. O conceito é implantado em múltiplos contextos, desenhado em exemplos: na vida dos animais, na história dos nômades em relação ao Estado, no desenvolvimento de várias formas de arte, etc. Entretanto, digamos que de maneira geral, eu poderia sugerir que o Território responde ao problema da Identidade, seja ela uma pessoa, um lugar, ou outra coisa.

De acordo com o senso comum, a identidade não seria um problema. Por exemplo. De alguma forma, eu sempre tento permanecer o mesmo ao longo do tempo e espero que os outros também, mas tudo em nós muda o tempo inteiro: os cabelos ficam brancos, rugas aparecem e visões de mundo mudam. Ainda assim eu penso: meus cabelos, minha pele e minha perspectiva. Mas o que assegura essa identidade? No filme de ficção científica cult Dark City (1998), aliens congelam o tempo, todos os dias a meia-noite, e colocam todos os habitantes da terra para dormir. Então eles trocam as memórias entre os humanos, criando identidades ao bel prazer, no intuito de determinar o que é que produz a individualidade. O herói diz à um dos aliens, ao final do filme, que ele está procurando no lugar errado: na mente e não no coração, ou na alma.

Em um contexto mais filosófico, David Hume trouxe o problema da identidade pessoal séculos antes. Como eu sei que sou a mesma pessoa que eu era ontem, ou há uma hora atrás, ou apenas há momentos atrás? Uma resposta para essa questão seria através da alma, resposta que Hume rejeita e caracteriza como improcedente. Ao contrário, de acordo com Hume, o hábito de contrair hábitos é parte da natureza humana. Nós esperamos que o futuro lembre o passado e que, através disso, memórias sejam formadas, assim como uma compreensão do que eu sou, etc; mas abaixo de todas essas contruções não há nada estável, apenas o fluxo da experiência.

Gottfried Leibniz, no caminho contrário e alguns anos antes, insistiu em em pensar a identidade como um princípio fundamental, demonstrada em sua metafísica que ele chamou de Monadologia. Uma mônada é precisamente um princípio de unidade, ou seja, a alma. No intuito de criar uma metafísica consistente, Leibniz ampliou esse conceito para todas as coisas: pedras, árvores, animais e até para cidades e exércitos. Esses últimos exemplos são particularmente problemáticos. Se mônadas são as substâncias mais simples pelas quais o mundo é criado, que sentido faz dar essa identidade metafísica a uma cidade? Certamente a cidade é uma conquista histórica constituída através de inúmeras operações e não uma identidade prévia.

Deleuze e Guattari seguem a trilha de Hume na questão da identidade, mas pensando sobre coisas como as cidades. O Eu não é simples, mas uma multiplicidade de objetos parciais. Estes por sua vez podem ser montados, ou reunidos, para constituir algo como uma identidade, que por si mesma nunca será totalmente estável. Este é o processo descrito como Territorialização. Território não é dado, mas sim constituído e essa constituição também caracteriza a organização do indivíduo no território. Desta forma, Deleuze e Guattari negam uma distinção entre natureza e cultura e assim como em Hume, o homem é considerado um animal assim como qualquer outro. É claro que existem diferenças entre a territorialização do homem e do lobo. Entretanto, em ambos os casos, ela se dará através de uma série de marcas, sinais, posturas gestos e sons. É apenas através do território que uma identidade toma forma. Sem isso estaríamos em um campo social caótico, impossível de ser descrito.

Imagine entrar em um bar ou café que não tenha nada a ver com você. Talvez seja muito barulhento, muito cheio, ou simplesmente frequentado pelo tipo de gente que não lhe agrade. Um território onde não há lugar para você; um lugar que você não pode territorializar. Em outras palavras, você não pode ser você mesmo nesse lugar. Deleuze e Guattari apontam que este “Eu” não é algo que existe ao longo do tempo como a alma, mas um conjunto de hábitos; um território inóspito seria então aquele cujos habitantes não encontram espaço. O bar foi territorializado por outros, ciclistas talvez, cujas posturas mudam assim que você adentra o recinto. Eles te olham de cara feia, riem e cochicham entre si: uma piada as suas custas? Em um espaço verdadeiramente estranho você nunca teria certeza. Os gestos poderiam ser incompreensíveis, estariam além da sua compreensão em decodificar. Você fica na defensiva e abaixa a cabeça. Talvez seus ombros se contraiam e seus olhos fechem; uma postura defensiva para proteger o território que é o seu corpo e “espaço individual”.

O fato é que o próprio território é estruturado por algum tipo de nomos (costume, hábito) que é definido por formas de comportamento e sua função no território. Muito importante: o território tem lado de fora. Ele deve ter um lado de fora e também deve ter uma saída para ele. Só que esse lado de fora não deve ser pensado unicamente em termos espaciais; espaço em si (termo utilizado por Deleuze e Guattari) não deve ser pensado unicamente no que concerne ao espaço físico. Mais importante é pensar o lado de fora em termos do significado dos signos, etc.: estes tem um sentido dentro do território, mas podem assumir outros fora dele..

Isto então nos leva para o conceito de Desterritorialização, que envolve destacar um signo do seu conceito de significação. É um movimento para o nonsense. Este é o link com a esquizofrenia: é uma desterritorialização que envolve uma perda do “eu”. O interesse de Deleuze e Guattari pela esquizofrenia é em última instância um interesse nesse movimento de desterritorialização, muito mais do que um interesse na doença mental (sobre isso, Deleuze vai dizer que a pior coisa para uma pessoa é a perda da dignidade; Deleuze e Guattari vão criticar de forma ferrenha os efeitos da internação nos esquizofrênicos; no entanto deixam claro que suas preocupações filosóficas não tem relação com tais indivíduos). A desterritorialização tende a ser seguida por uma territorialização em outro domínio. A preocupação com os esquizofrênicos tem a ver com o processo de reterritorialização. Deleuze e Guattari usam exemplos como o canto dos pássaros (1), entre outras coisas, para chegar a a esta noção de des/re-territorialização. Em última análise, eles expandem essa noção para articular a lógica de um tipo de processo histórico grandioso. Podemos começar com um exemplo banal.

O seres humanos não são tão territoriais quanto territorializantes. Considere, por exemplo, uma situação de sala de aula, onde não existem carteiras marcadas. No primeiro dia de aula, os alunos vão procurando se sentar em locais onde se sentem mais confortáveis. É difícil dizer porque uns preferem sentar na frente enquanto outros preferem os lados, ou a parte de trás, mas isso não importa. O que interessa é que alguns tendem a sentar no mesmo lugar o curso inteiro e se alguém “toma” o lugar é como se houvesse uma infração de território.

Nesse contexto de sala de aula, levantar a mão significa querer falar ou perguntar algo. Como maneira de se comportar esse gesto funciona, porque o seu significado foi definido no território. Fora desse território pode ser que não tenha significado algum. No entanto, alguém pode desterritorializá-lo e reterritorializá-lo em outro lugar. Por exemplo, se eu estou sendo repreendido por um amigo que não me deixa argumentar, então eu levanto a minha mão para indicar que quero falar. O problema é que esse gesto, nesse contexto, não parece funcionar como no contexto escolar. Exemplos na arte são ainda melhores: usar palavras para criar poesia em vez de comunicar, imagens para expressar em vez de representar, etc. A desterritorialização é uma separação de um propósito dado (“a si mesmo” definido em termos do seu território) e a reterritorialização um re-propósito em outro domínio. Um lenço de papel deixa de ser uma ferramenta para remover maquiagem e passa a significar uma ferramenta para assoar o nariz. Isto não é nada novo em si. A des/re-territorialização tem acontecido ao longo da história, mas arranjos sociais tentaram manter por debaixo do tapete. A desterritorialização de um místico poderia ser permitida, desde que o discurso criado pudesse ser reterritorializado sob o dogma da igreja. Desterritorialização demais poderia significar heresia, que era punida na fogueira.

Segundo Deleuze e Guattarri, a desterritorialização está no coração da lógica capitalista. Uma lógica que não só desencadeia as forças de desterritorialização, mas depende delas. É uma linha de pensamento que tem alguma semelhança com o que Karl Marx afirmou sobre o capitalismo, como sendo um sistema que permanece em constante revolução, só que mais abrangente. O capitalismo é dependente da desterritorialização: ela dissolve formas de significação estabelecidas, desloca populações, dessubstancializa o trabalho e o reinscreve em termos monetários. Talvez essa seja a reterritorialização final: dar um valor monetário a tudo. Mas mesmo o dinheiro já se desterritorializou nos mercados financeiros globais. O capitalismo faz com que tudo seja uma questão de fluxo, sem que haja pontos fixos de referência. Enquanto Deleuze e Guattari parecem de certa forma apresentar a desterritorialização como um mecanismo de liberação política, é bom lembrar que ela é a base do sistema atual.

Já faz tempo que o trabalho extrapolou os limites da “fábrica”: trabalhar também de casa ou ao menos responder aos emails já é um padrão. A aprendizagem não está mais confinada à escola: a “formação permanente” já é um padrão. Entramos na era da “Sociedade do Controle”, onde existe uma ilusão de liberdade que é determinada por um conjunto de códigos. As regras se tornaram mais fluidas e ao contrário de nos libertarem das restrições do território do Estado, essa difusão do poder nos colocou ainda mais sob controle das forças do capitalismo. É difícil enxergar uma saída. Se é possível levar a desterritorialização para além disso, no sentido de abrir outras possibilidades políticas, será assunto para um outro texto.

  1. O canto dos pássaros tem a função de constituir um território, mas também pode assumir um outro propósito mais artístico. O capítulo “O Refrão”, da obra Mil Platôs, é apenas uma das instâncias onde Deleuze e Guattari discutem o comportamento dos animais. Ao que parece há duas boas razões para isso. A primeira trata da negação de qualquer distinção forte entre natureza e cultura. Deleuze disse a Claire Parnet, no Abecedário Deleuze, que via todos os elementos da arte na territorialização animal. A segunda é um desdobramento da noção de devir-animal: “Os devires-animais não são sonhos nem fantasmas. Eles são perfeitamente reais. Mas de que realidade se trata? Pois se o devir animal não consiste em se fazer de animal ou imitá-lo, é evidente também que o homem não se torna “realmente” animal, como tampouco o animal se torna “realmente” outra coisa. O devir não produz outra coisa senão ele próprio. É uma falsa alternativa que nos faz dizer: ou imitamos, ou somos. O que é real é o próprio devir, o bloco de devir, e não os termos supostamente fixos pelos quais passaria aquele que se torna. O devir pode e deve ser qualificado como devir-animal sem ter um termo que seria o animal que se tornou. (Ibidem, p. 18)”

Autor: Cæmeron Crain

Tradução livre de Ivan LP. Artigo publicado originalmente em Mantle Thought