Verônica Soares Da Costa

Verônica Soares Da Costa

Jornalista de Ciências, Mestre em História, Política e Bens Culturais pelo CPDOC/FGV, Doutoranda em Textualidades Midiáticas pelo PPGCOM / UFMG.

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Dilma levou até o fim a tese de que o impeachment sem crime de responsabilidade seria um golpe de estado, mais especificamente golpe parlamentar. Ao fazer esse gesto, está sacrificando a possibilidade de acordos na Realpolitik e falando para o lado "movimento" do PT, sua base política, os intelectuais que denunciam a violação da Constituição, reforçando o clima que o poder foi saqueado em uma manobra da direita. Seu ato pode ter múltiplas leituras, desde o resguardo da sua biografia no último instante, o enfrentamento legalista contra o golpismo, o "registro para a História" e outras menos nobres, como a reorganização do PT a partir da última ponta de identificação com a esquerda que restou — aproveitando a tosquice rudimentar da direita nacional (e latino-americana em geral), sempre disposta a sacrificar seu aparente respeito à legalidade em nome da destruição do adversário político — , construindo o clima para que Lula figure como candidato competitivo em 2018. A esquerda ex-governista e todo "apoio crítico" (ou linha auxiliar) aos governos do PT reafirmará que se tratava de um governo de esquerda contrastando-o aos crápulas que cinicamente discursavam na Câmara e no Senado, vociferando impropérios e mediocridade em nome dos valores tradicionais e todo esse entulho reacionário que estava na defensiva nos últimos dez anos, mas agora volta com força. E há no mínimo um grande argumento — que convenceu não apenas a eles, mas também uma parte da oposição de esquerda — em torno da violação da soberania popular. A deposição de uma Presidenta legitimamente eleita, com a força do voto do povo, é um fato que quebra a normalidade democrática que, a muito custo e tropeços, vinha se configurando no Brasil. Aliás, esse campo legalista joga contra a direita nacional a depreciação da imagem positiva que o Brasil vinha conquistando na última década. Ao contrário do que os pittbulls da direita vociferam, desenhando o Brasil como estado "bolivariano", havia um amplíssimo consenso internacional a tornar o Brasil um projeto de potência mundial entre os BRICS exatamente porque, ao contrário dos outros membros do consórcio, teria como característica um Estado de Direito bem consolidado e uma democracia com regras respeitadas. Esse respeito reverencial à forma característico da democracia liberal foi colocado em risco em nome de exigências imediatas de deposição do PT, com o retorno de velhas oligarquias fisiológicas para a cabeça do poder (para a cabeça, porque todo o resto do corpo já tinham).