De tanto idealizar

Idealizo o riso, as curvas e os riscos. Rabisco o futuro e o agora com algumas linhas tortas na direção errada. Eu idealizo as horas, os minutos e segundos. O movimento, a multidão e cada ser com quem esbarro. Os filmes, os livros e todos os personagens já idealizados. Encaixo cada momento no meu passo desengonçado e fora de ritmo. Troco o grau do óculos para ver com a alma. Idealizo a fala e o silêncio, a estabilidade e a turbulência, o medo e a coragem, a vontade e a hesitação. A palavra, o verso, o parágrafo para enfim chegar ao ponto final e adicionar uma vírgula. Idealizo a música, a letra, o cantor, o poeta. Idealizo o que já foi dito e o que não há como dizer com palavras. Os gestos, carinhos e amores.

Idealizo a dor, a angústia e o erro. A pressa, o esquecimento e a tristeza. As brigas e o adeus. As noites sozinhas e o receio da solidão. A vida, o ar e os ventos. O mar, o céu e o universo. A morte, o último suspiro e o último momento. O papel, a caneta e os pensamentos embaralhados. A esperança e a falta dela. Ao fim do dia, me idealizo.

E de tanto idealizar, me afoguei em minha própria alma e mente, sem achar o caminho de volta para a realidade. De tanto idealizar, não reconheço mais o reflexo do espelho. De tanto idealizar, me tornei uma estranha habitando meu próprio corpo, esquecendo meu eu nas linhas tortas que rabisquei até aqui.

Like what you read? Give Viviane França a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.