AIESEC: nem aqui, nem na Turquia

Como a ONG considerada a maior organização jovem do mundo é tão desorganizada.

Jovens que vendem uma experiência muitas vezes nunca vivida: o intercâmbio. Esse pode ser um breve e leve resumo da minha percepção da AIESEC.

Antes de continuar peço encarecidamente que você seja empático ao ler este texto. Caso a AIESEC tenha feito diferença de forma positiva em sua vida eu fico muito feliz, de coração. Afinal, nada mais compensador do que viver momentos coerentes com nossos anseios e nossas expectativas.

O texto será longo, mas tentarei não entrar em detalhes, pois se tem algo que aprendi durante o intercâmbio (e que vale para todos os aspectos da vida) é: por mais que você conte e reconte, as pessoas jamais entenderão seus sentimentos em determinadas situações.

Talvez o maior motivo deste desabafo é o cansaço, pelo descaso da AIESEC, por tentar tomar medidas corretas e cautelosas para ambos, por achar que existiria a famosa empatia mencionada acima.

Já tive colegas que trabalharam na ONG, já tinha ouvido falar dela há anos, tive boas referências de pessoas que confio… Pois então imagina a minha surpresa ao pisar em solo turco e descobrir que os intercambistas são apenas números das metas a serem cumpridas.
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Ensino médio, sonhos e ambições, foi a partir dessas palavras-chaves que a Galadriel de 15 anos motivou-se a realizar um intercâmbio, que foi concretizado praticamente uma década depois, consequente de organização, muito trabalho e planejamento financeiro.

Vamos entender melhor?

Fui para a Turquia em novembro de 2017, por meio da experiência internacional da AIESEC denominada “Talento Global”, para atuar na área de Marketing de uma multinacional, que vende ferramentas e máquinas para desenvolver joias. Contei melhor sobre a vivência no país no post “De Curitiba à Istambul”.

Após ser a escolhida para a vaga, a AIESEC deveria agir com simples responsabilidades, como: auxílio na busca por moradia, na documentação legal para residir no país, na garantia de que a job description fosse cumprida por parte da empresa.

O que a AIESEC solucionou? Absolutamente nada.

Meu primeiro e-mail descontente foi em dezembro de 2017, um mês após a minha chegada.

Desde o meu primeiro contato com a AIESEC, ainda no Brasil, fui informada de que a acomodação seria providenciada, de que o aluguel com as contas inclusas não excederiam a um valor “x”, que até então foi pesquisado pela própria AIESEC.

E o baile começou: a primeira opção enviada já excedia o valor. Enviei a localização para uma amiga turca, residente de Istambul, e o retorno era de que o lugar era inseguro para morar. Durante o período de espera por novas moradias e preocupada com a proximidade da viagem (pois como em qualquer contrato empresarial minha data de início já estava determinada) aluguei um Airbnb durante duas semanas por segurança e por achar que estando no país ficaria mais fácil de visitar possíveis locais para se morar, contando, claro, com o apoio da AIESEC.

Mais uma vez nenhuma perspectiva de ajuda, o dinheiro do Airbnb que poderia ser gasto como um primeiro aluguel ou cheque caução foi uma despesa inesperada e desnecessária se agissem conforme o protocolo que a própria ONG criou. As duas semanas de hospedagem viraram três e o gasto ainda aumentou.

E para encerrar o primeiro tópico com chave de ouro fui obrigada a ler uma mensagem via WhatsApp, escrita por um membro da AIESEC Istambul, que ficar no Airbnb foi uma escolha minha e que no final da experiência eu deveria avaliar a ONG de forma positiva quanto ao suporte moradia (que se realmente ficasse por conta deles eu moraria no aeroporto, não é mesmo?).

Segundo fator: a permissão de residência, mais conhecida como documentação legal no país. Essa foi até motivo de piada. Nenhum membro sabia de nada, tive que ligar para o governo turco e descobrir por intuição qual número teclar para alguém me atender em inglês. Depois de muito custo e seis, isso mesmo, seis meses de espera, consegui finalmente minha documentação. Agora o melhor sempre fica para o final do parágrafo: um membro da AIESEC Istambul, responsável por esse setor, me pediu para explicar para um novo intercambista como eu fiz a documentação e quais os passos deveriam ser tomados, porque ele não sabia. Oi?

Vale lembrar que, eu só consegui o número de telefone e agir conforme os procedimentos corretos porque outros intercambistas me auxiliaram, se não até hoje eu não teria a identidade turca (rindo, mas de nervoso).

Para finalizar o Top 3 e não menos importante, porque falei que tentaria ser sucinta, lá vai: o que a empresa, a qual fui contratada na área de Marketing, garantiu versus o que realmente aconteceu.

Aqui tentarei me abster aos pontos objetivos: eu tinha que preparar café da manhã todos os dias na empresa (e não era só o famoso cafezinho preto, essa é a refeição mais importante na cultura turca, joga no Google “café da manhã turco”); toda semana eu tinha que limpar o chão da empresa; me asseguraram a participação em viagens internacionais, as quais a empresa atua realizando eventos — inclusive foi o principal fator que motivou meu interesse pela vaga: maior conhecimento na área de marketing e vendas em diferentes culturas. As viagens não estavam apenas na descrição da vaga, mas foram claramente comentadas nas entrevistas. Pois bem, nunca aconteceram e sempre que eu questionava era uma desculpa nova. Até hoje me pergunto porque todas essas questões não foram acordadas previamente por Skype.

Ah e eles raramente conversavam em inglês no ambiente de trabalho. Um belo dia solicitei uma reunião de alinhamento de estratégias de Marketing e os sócios-proprietários da empresa, bem como a gerente, conversavam em turco entre eles para, então, a gerente traduzir em inglês o que havia sido dito, muito diálogo e interação cultural, não é mesmo?

Esses e outros pontos foram mencionados via e-mail para diversos membros da AIESEC do Brasil e da Turquia e nenhum deles foi capaz de solucionar qualquer um dos problemas.

Concluindo? Autoestima profissional baixa, depressão durante o período em que estive na Turquia, dez quilos a mais.

O que me manteve dez meses fora? Relacionamentos, pessoas boas que cruzaram meu caminho e a alegria no coração de ter conquistado algo que eu havia juntado dinheiro há anos, mesmo com tantos obstáculos, que só aconteceram por incompetência de terceiros.

Aí surge o questionamento: mas será que o problema foi cultural?

Os poucos brasileiros que foram pelo mesmo programa se queixaram com tamanha falta de consideração, assim como eu. Até mesmo fui a testemunha de um relato escrito por minha amiga Izabela Souza: “A AIESEC que ninguém te conta — mas que a maioria conhece”.

Pessoas de outras nacionalidades, mesmo similares à cultura turca, se queixaram tanto quanto eu, nenhuma delas teve resolução. Algumas voltaram para os seus países de origem, outras conseguiram emprego por conta própria e se desvincularam da AIESEC.

O ponto final? Talvez nem com esse texto, o que a AIESEC me fez passar ninguém no globo merece. E tenho escrito.

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