Sororidade e Trabalho
Hoje em dia muito se fala sobre sororidade e sobre apoiar outras mulheres, mas como isso realmente se manifesta na realidade? Você, mulher, já refletiu sobre o que têm feito no seu dia a dia para apoiar outras mulheres?
Desde criança somos cobradas a sermos sempre boas. Sempre perfeitas e impecáveis em tudo que fazemos. Sou dos anos 90, já cresci com os tempos mudando em relação às mulheres (e ainda tem muita coisa para mudar pela frente), mas os reflexos da cultura patriarcal também me afetaram e afetam até hoje.
Tive o privilégio de crescer em uma família que sempre me apoiou nas minhas escolhas. Se eu queria fazer ballet, eles apoiavam. Se eu queria fazer natação, eles apoiavam. Se eu queria fazer capoeira, eles apoiavam. Já experimentei de tudo na infância e mesmo desistindo dessas atividades, eu sempre recebi o apoio dos meus pais. Posso dizer que sempre tive essa “liberdade” de escolha, pensando sempre no que eu gostaria de fazer e nos meus desejos.
Quem sou eu para falar de opressão patriarcal com uma família boa dessas? Pois bem, o machismo pode vir de fora, não é mesmo? Vamos pensar um pouquinho… Sempre vai existir uma pressão em cima das mulheres, pois fomos criadas para sermos sempre perfeitas. Fomos criadas para sempre sermos A melhor em tudo que fazemos. Segundo lugar nunca será bom o suficiente, temos que estar sempre em primeiro. E mesmo assim, sendo a melhor em tudo, sempre temos que respeitar o “lugar do homem”.
Assim nasce a rivalidade feminina. Somos colocadas umas contra as outras e ficamos tão cegas com isso que, enquanto “brigamos”, os homens tomam vantagem e saem na frente. Podemos ver essa desunião quando uma mulher erra e, ao invés de ser conscientizada e auxiliada a superar, ela é criticada de forma exagerada inclusive por outras mulheres. O homem, mesmo errando, além de ser humanizado nessas horas, muitas das vezes nem é visto como um erro (a famosa “passada de pano”).
Quando você cresce com esse pensamento (que é bem difícil de desconstruir, diga-se de passagem), a gente não consegue se humanizar. Acabamos sofrendo muito por erros mínimos, coisas que são comuns e que as vezes nem têm tanta importância assim. Podemos ver isso facilmente quando uma mulher e um homem cometem o mesmo erro. A mulher é quase sempre crucificada e o homem é perdoado, afinal todo mundo erra.
Mas, minha reflexão central neste texto é sobre como esse pensamento foi tão internalizado nas mulheres, que nós mesmas reproduzimos esse machismo com outras mulheres. Como geramos e alimentamos essa rivalidade feminina, quando poderíamos simplesmente nos unir e desconstruir esse pensamento.
Por exemplo, a mulher no mercado de trabalho. Historicamente falando, foi uma grande jornada para que as mulheres conseguissem serem incluídas no mercado de trabalho e ter a liberdade de escolha na sua carreira/profissão. Ainda estamos lutando por equidade nessa questão, pois sabemos que ainda existe desigualdade salarial, mulheres sendo demitidas após licença maternidade, mulheres com dificuldade de se reinserir no mercado após uma certa idade, entre muito outros problemas. Com tanta luta para ainda resolver na área de trabalho, imagina com a desunião das mulheres?
Existem vários fatores que impedem a sororidade entre mulheres, principalmente na área profissional. Mas podemos afirmar que somos submetidas a essa rivalidade desde cedo. É muito difícil desconstruir um pensamento ou uma crença que temos desde quando nos entendemos por gente, mas o primeiro passo é reconhecer isso como um problema real.
Se você já tem a consciência desse problema e já percebeu isso ocorrendo com você, comece com uma reflexão interna. Como você têm agido com as outras mulheres do seu trabalho, ou com outras mulheres da sua área de atuação?
Como foi dito acima, temos que nos humanizar primeiro. Nos permitir ao erro. Falo por mim e sei que esse é um passo bastante difícil, considerando uma infância baseada em atender expectativas. Reconhecer que também já fomos uma pessoa que fomentou a rivalidade feminina é extremamente importante. Ninguém nasce com todos os pensamentos desconstruídos.
Outro fator que interfere diretamente na união das mulheres são os próprios homens. Vamos ouvir várias “piadinhas” machistas, podendo até mesmo ouvir intrigas para realmente motivar a rivalidade. Mas você é responsável pelo o que você faz. Você é quem escolhe como vai reagir com relação a isso. Você já tem a consciência do problema, você já tem empatia para saber como outra mulher se sentiria nessa situação, você já sabe dos vários outros problemas que as mulheres sofrem no mercado de trabalho. A única pessoa que saberá o que você sente (principalmente o que você sofre) sendo uma mulher no mercado de trabalho, será outra mulher.
Sim, os homens também devem ser conscientizados sobre esse assunto, mas o foco dessa reflexão é nas mulheres. O foco é na rivalidade feminina e como somos cobradas sobre isso. Se as protagonistas do problema somos nós, temos que começar a conscientização e a resolução por nós mesmas.
Quando conseguir identificar suas atitudes tóxicas, partimos para a reflexão sobre como podemos ajudar outras mulheres. Existem inúmeras formas de ajudar, mas até pequenas ações já fazem uma grande diferença. Observe seu trabalho, observe quais as principais dificuldades das mulheres, sejam dificuldades técnicas ou dificuldades de relacionamento com outras pessoas no ambiente de trabalho. Ouça o que as outras mulheres têm para dizer e faça com que elas se sintam acolhidas. Dê suporte e ajuda, doe seu tempo, seu conhecimento, o que você puder doar. Quando você ajuda alguém, você está criando inspiração e não concorrência. A ajuda que você dá hoje, será uma corrente e assim vamos construindo a união entre as mulheres, a verdadeira sororidade.
Por fim, queria deixar uma página do livro “Clube da Luta Feminista: Um manual de sobrevivência (para um ambiente de trabalho machista)”, de Jessica Bennett e Simone Campos para uma reflexão final.

Ajudar é criar inspiração, e não concorrência.
Este texto é apenas uma das minhas reflexões diárias sobre o que passo e sobre o que observo no meu dia a dia. Sinta-se à vontade para discordar e, caso queira, discutir comigo sobre esse assunto. Comente aí embaixo ou me mande uma DM @vianaerica :)
