Toda quarta-feira…
Resolvi escrever esse texto depois de sair duma sessão de análise muito bem aproveitada.
Faço análise toda quarta-feira. Tiro uma hora por semana para desligar meu celular e conversar com um completo estranho, que eu não sei absolutamente nada, já ele sabe minha vida inteira.
E hoje, depois de longos meses, foi a primeira vez que falamos sobre a minha cirurgia. De verdade.
Situando você, que tirou uns minutos do dia para ler este texto, eu operei o coração. Não uma, nem duas, mas três vezes.
Na última vez, há oito meses, eu passei por cima de um monte de sentimentos. Quando sua aorta pode estourar a qualquer momento você não sabe muito bem como lidar com isso. Existe um medo imenso de morrer e, por causa disso, uma enorme vontade de viver. Foi uma cirurgia de alto risco. Altíssimo. Me lembro que quando entrava na sala de cirurgia pensei naquilo que todo mundo já viu em filmes, leu em livros e ouviu de alguém que já passou por isso: passa um filme da sua vida.
Não é foi bem um filme, foram vários momentos cruciais que me tornaram quem eu era naquele momento, deitada naquela maca, prestes a entrar em uma cirurgia que eu não sabia se iria sair.
Foi nisso que eu pensei.
Nos momentos que me tornaram quem eu sou.
Na primeira casa que morei. No dia que meus pais se separaram. No dia seguinte em que tomamos café juntos. Nos dias que meu pai me levou para a escola. Nos dias que minha mãe fez nega maluca. No ensino fundamental. Na primeira vez que peguei um livro de Harry Potter pra ler. Nas férias com minha avó. Nos jogos de xadrez com meu avô.
Nas pessoas que fizeram parte da minha vida. Nas pessoas que saíram dela.
E ali, eu derramei uma lágrima só.
E quando acordei foi como eu imagino que seja renascer.
Eu tive que reaprender a andar. Tive que reaprender a respirar. Nos três dias que fiquei no hospital eu dependia de alguém para quase tudo. E mesmo assim eu só pensava em sair de lá. Em voltar a viver normalmente.
Mas a dura verdade é que não dá pra viver normalmente depois disso.
Existem coisas que ficam com você. Ainda bem.
Semana que vem comemoro meus vinte e quatro anos. E estou emotiva. Choro enquanto escrevo isso. Choro porque há oito meses atrás eu pensei se minha vida acabaria com vinte e três. Parece que foi anos atrás mas não foi.
Foi este ano.
E neste ano poderei comemorar vinte e quatro anos. Com vários anos pela frente.
Então conversei sobre o meu analista sobre o que virá a seguir. Eu ainda não sei o que vem, mas sei que será grande, porque sinto, de verdade, que o pior já passou.
E eu continuei.
