Victória Caetana
Sep 2, 2018 · 2 min read

Cansativo não poder falar do dia, contar do sol e da saudade que sinto do cheiro do café e da canela que era colocada em tudo da casa, ganhava até do gengibre, me cansa não poder ir a praia fingir que leio enquanto ouço o mar ir e voltar pra onde sempre esteve. Não poder ir na esquina gastar meus últimos cinco reais com o melhor bolo de chocolate da cidade ou o melhor açaí, dependia do fim do mês, subir a ladeira de paralelepípedos de bicicleta e parar no meio pra fazer carinho em algum gato da vizinhança, esse quarto de 2,30x3,0 me reduz a uma planta, vai ver por isso comprei tantas, com flor sem flor, nada, nem as flores, a escrita é compulsiva sempre sobre um tal buraco, vai ver sou eu faltando em mim, dissociação, desentender-se de si mesmo, aquela coisa de flutuar no mar, eu já morei em quatro cidades e não vivi nenhuma delas, achei sempre acertada comigo mesmo na cabeça que do rio não saia, o mar não ia deixar. Sai confundindo as ruas as cores e não me despedi nem do pão de queijo nem do açaí. Hoje ando nas ruas procurando caixas, pedaços de mim que caíram na estrada, falam de desfragmentação, vai ver foi quando a polícia nos parou, tirou tudo do carro, ainda devo estar ali na linha vermelha jogada no chão, perto daquelas três árvores. Eu te disse que minha cabeça tava fora de mim e que não achava nas malas, certeza que ficou grudada com o coração naquela ladeira que a gente subia pra ir pra tua casa, sempre gostei muito da sua cozinha, a vista pro mas as pessoas chegando, as garrafas de vinho, o gato mandachuva y toda aquela coisa quente até quando chovia, os temperos, limão, canela e açúcar, sorvete de banana todo dia de manhã. Ainda não te superei. Nem sei se dá. Ainda não sai do rio, e não sai daqui antes de ir pra lá, fiquei pela Bahia antes mesmo de montar a barraca, vi o céu abrir antes de olhar pra baixo e ver a terra, dormi perto do fogo mesmo sabendo da possibilidade de combustão diante do meu mapa natal. Acho que sempre foi a torre, a queda a subida, sempre foi o gosto pelo voo da queda, o ar batendo no rosto, a pela vermelha de vento.

Vivo a cidade em que estou nesse cubículo quarto que divido com mais plantas do que deveria e com meu anjo da guarda, eu penso na possibilidade de existir pra além daquele quarto, sempre foi assim, pra além de tudo eu que não me acho não me procuro me trombo em mim mesma, desisto do fim do mundo, escalo a torre mais alta e pulo.

Acordo de mais um sonho onde tudo sempre foi deus.

    Victória Caetana

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    só vim ver o jardim

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