III

Não se ama por sofrer
vive-se por amar.

Continuarei falando com o espírito,
incomodando-o aos pedaços 
como fiz com ela.

Espíritos não sofrem,
permanecem.
Vivem de concessões,
de anulações,
de delicadas incertezas. 
Alimentam-se de medo.

E quem suportaria a atormentadora imagem dos limites do incondicional?
Isso não é a arte do encontro,
é a atecnia da solidão,
uma alma deslumbrada com o breu.

A existência interligada? 
grande ilusão,
e fábrica de ressentimentos.

Querer tudo de alguém,
amar para todo o sempre,
as mais brutais violências de um amante.

Afinal, quem se satisfaria com
doses diárias das próprias palavras?

Nada nos é necessário, ninguém é suficiente,
mas engana-se imaginar inconquistável penumbra.

O que ainda fazes aqui?
porque some tão vagarosamente 
deixando-me ludibriado e 
com esperança no peito?

Já és dor a tempos, oh fantasma!
de toda a expectativa de ver-te,
de todo o tempo gasto a me cuidar,
a te invocar, me trazes o real.

Suma com as suas palavras bonitas e sociáveis,
desapareça com seus antigos feitiços,
tessituras,
gritos túrgidos.

Pegue suas palavras gastas,
seus cabeçalhos,
suas ideias comuns,
seus sonhos que nem conheci,
e desapareça!.

Em brasa fumegante eu suplico, 
vire fumaça e misture-se a mim.
Aquela mesma que outrora nos embriagou,
lembra como dissipava?

Pois vá! 
Se esvai, 
espírito pesado.

Cansei de ter o sono interrompido,
una-se as demais carcaças
seu invasor ressentido.

Deixe-me como um velho espelho solitário
que conta a própria história.

Mas não espere que eu vire memórias que vagam distantes,
vampiro!

Me imolei com essa ilusão
e só hoje descobri que eros me tragou.

Mas não vai ficar assim,

já que tu adora imagens,
eis o que te ofereço:

Sempre que olhares qualquer fumaça
me verá sorrindo carinhosamente,
eu, e meus convidativos olhos negros.

Que fim medíocre para tão bem 
planejada contra-capa.

Que ao menos o nosso fruto transforme-se em cascos 
para o livre trotar dos cavaleiros sem verdade.

Vá sem dor,
desapareça!

Esperava que eu pulasse de alegria 
quando dissesse a tua verdade?
Não suje esse verbo.

Não confunda paixão cristã com o que senti,
espiritualidade não precede a existência,
não é um valor sentido, uma pena,
uma essência selvagem,
um impulso para adquirir, ou trocar.
 
O amor não vale a pena,
e não é razoável quando sentido,
não procede do verbo publicitário.

Jamais pode ser negociado, 
transferido, 
ou depositado.

Acorda espírito perturbador!
Não durmas mais ao meu lado!

O amor mesmo só provoca o choro de quem olha, 
de quem assiste à distância.
Quer saber o que é amor?
Olhe para si, névoa.

De ti já fugi mil vezes, 
espectro alienador.
Mas agora te enfrento!
 
Sabia, delírio, que se tu quisesse existir
bastava querer.
Bastava transformar os teus rígidos conceitos.

É alquímica a essência humana
e o que tu faz? atormenta-se,
sonha ter uma vida diferente 
em outro mundo, mas não muda.

Esquece-se com a tua tão boa memória.

Faço votos com tesão 
que permita-se ser,
amar como eu te amei, 
que desenhe a própria carne.