Jorgito

Ele olhava a janela, nem sempre enxergando realmente o que estava através. Mas usava os tons do dia, os feixes de luz que o atingiam, um detalhe entre tantas informações saltitantes e flutuantes e daí viajava, mais longe do que quem cruza o mundo nas grandes máquinas ambulantes. Seus sentidos à flor da pele, o peito borbulhante, perdia-se no tempo ao achar-se em sua mente. Sentia-se mais confortável com emoções jamais sentidas e sabidas, ao menos era o que pensava… bastava voltar ao físico que percebia não poder ser o único a desfrutar de tais alucinações. Na certa é mais um tabu das mentes errantes, o proibido falar, reações ancestrais que devem permanecer no subconsciente. Que desperdício, ria. Sabia que era puro devaneio, mas fazia muito mais sentido do que a falsa realidade onde estão todos presos à carne e osso, porém tão soltos quanto partículas de poeira ao se permitirem às chamas do abstrato onde se conectam diretamente e unicamente, nem que por um momento considerado breve ao mundo que insiste definir o tempo, com a condição de seu ser. A Jorge restaria o estado de louco, se deixasse transparecer seus lapsos, julgado na visão das almas perdidas. Para Jorgito eles que eram os loucos, os abutres que só farejam o morto, ou o que está para morrer. Daqui a mais comerão suas próprias mentes, já que a deixam apodrecer. Também não é para tanto, repensava, só estão perdidos, só estão perdidos ainda.

O quanto que Jorge quis não pensar — quando viu era uma armadilha. A mente não para, a dele ferve.

Julien Pacaud

Em cada canto imagina um cenário, dentro de um cenário. Brinca com a transposição dos objetos, com as falas alheias, as sombras ganham independência e de repente tudo está em interação, do bichinho abandonado à pessoa que anda olhando para o chão. Sabe que ninguém é como aparenta ser, por isso atribui um aspecto de irmandade a todos, pois sabe que também está longe de ser o que pensam que é. Jorge é transeunte pelos conceitos, faz questão de rodear todos e não adentrar nenhum. Tem quem o faça por ele, o coloca numa caixinha por achar que é mais confortável, mas gente foi feita para respirar fundo e sentir o ar transbordar o pulmão espalhando-se pelo corpo e seguir a desvendar este mundão louco.

Gente foi feita para ser que nem Jorgito, livre de tudo, até mesmo de si, para então pertencer à vida e vivenciar tudo que surgir.


Twitter: @vicfroesab / emeio: vicfroesa@gmail.com

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