O processo de devolução

A cada ato do musical era mais uma caixa de documentos que era embalada pelos estagiários da sua mente. A ordem foi dada pela diretora da repartição, que resolveu se livrar dos casos sem resposta. Precisava liberar espaço para os próximos documentos que viriam de fora da estação. E já faziam alguns bons meses que as respostas não chegavam.

Ainda tentou.

Requisitou contato visual com o destinatário dos documentos. Ele estava bem do seu lado, no meio de milhões de pessoas, muito perto e mais longe ainda. As falhas no departamento de comunicação afetaram a saída de voz.

Mais caixas embaladas. As mensagens de texto, o primeiro beijo. Tudo pronto pra devolução.

Se não conseguia se fazer ouvida, o departamento cardíaco estava um caos. O coração batia descompassadamente e fazia com que alguns andares acima, as caixas de documentos pulassem e deixassem escapar alguns papéis. Os estagiários corriam atrás dos papéis como se corressem atrás de galinhas. Há quem diga que era possível ouvir as batidas de fora da estação. Quem sabe ele não havia escutado?

Bruscamente, o silêncio.

A diretora olhou pelas duas grandes janelas de seu escritório. “O musical acabou”, entendeu.

Um suspiro. Ou dois.

“Não há mais nada a fazer aqui”, suspirou. “Vamos, andem. Terminem logo com essas caixas”, ordenou a seus subordinados.

Ela andou a caminho do metrô. Ele estava ao seu lado, e ao mesmo tempo não estava. Trocaram algumas frases soltas. Lá na repartição, silêncio. O processo de devolução havia de fato começado.

“Devolução de quê?”, você deve se perguntar.

Devolução do amor, eu respondo. O ato de se guardar e despachar um amor deve ser um dos mais tristes que se possa imaginar. Trata-se de se livrar dos momentos. Se livrar daqueles momentos que te fazem abrir um sorriso involuntário no meio de uma tarde chuvosa e fria.

Voltemos aos fatos.

Dentro do trem começaram as panes. O caos no diretório central se refletia em todos os andares. O setor da atenção travou suas máquinas num só ponto bem distante dali. Lá, quase no térreo, o setor das articulações tinha dificuldades para manter as pernas firmes.

Lá em cima, perto do arquivo, vulgarmente conhecido como cérebro, o alerta de resposta soa.

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