Sobre a tensão entre a humanidade e a santidade (apontamentos para um ensaio futuro)

Que o pecado é uma mácula que sempre acompanhou e sempre acompanhará a humanidade é algo que todos nós deveríamos saber. Mas parece que faz parte da forma mental da modernidade, mesmo entre aqueles que dizem ter “um lado espiritual” (leia-se: têm alguma afinidade com doutrinas espirituais ou espiritualistas quaisquer), negar a sua constituição humana — i.e., pecadora — e portanto imperfeita. Há muitas formas de o fazermos: leituras literárias, absorção de situações múltiplas da vida humana (observar o comportamento das pessoas em filas como de banco, da padaria ou de pagamentos de boletos bancários é uma boa escolha), ou simplesmente contemplar imaginativamente o que determinado homem faria numa situação x são alguns exemplos. Rastrear a origem e as consequências dessa falha de cognição é um exercício fundamental para entendermos o destino que a humanidade traça neste instante.

Como no momento não posso explicar pormenorizadamente que espaço o homem ocupa na ordem do ser (pelo menos não como faziam os antigos e os medievais), passo ao leitor um singelo diagrama baseado numa teoria que venho desenvolvendo há certo tempo:

Escolhi representar a viga horizontal como o tempo porque em geral as coisas são mostradas graficamente da esquerda para a direita — numa linha do tempo, por exemplo, tudo que acontece no passado fica à esquerda da linha, e tudo que vem se aproximando do presente ou que vai para o futuro fica à direita. O espaço, por sua vez, é representado de maneira vertical porque convencionalmente na as esferas cosmológicas são representadas dessa forma, de forma que a esfera humana está abaixo do mundo das mudanças ou mutações, que está abaixo do mundo das formas que por sua vez está abaixo da esfera de Deus. Nossa imagem do espaço, portanto, vem de baixo para cima, do mais mundano para o divino, do imanente para o transcendente, numa escala de libertação vertical. Dessa forma, para passar da reles humanidade para a compreensão divina atravessamos a encruzilhada tempo-espaço.

Mas e o Logos? Porque é Jesus, o próprio Criador, que está estancado ali?

É justamente porque Deus, como fixador de todas as coisas e ordens transcende tanto o tempo como o espaço. Porém, feito homem, Ele está fixado, preso no drama e nas dores humanas (pelo menos carnalmente). Foi preciso que Deus, o Criador e nosso Senhor, se fixasse nalgo que ao qual em geral Ele não se determina para que nós entendêssemos de uma vez por todas a nossa posição na escala das coisas. A tal entendimento e tal artifício usado por Jesus nós damos o nome de Revelação.

Portanto, a condição de vivência humana está implicada — e tem que ser obrigatoriamente entendida — no contexto da Revelação. Jesus nos revela o mistério da divindade e lança luz sobre a fragilidade do homem expulso do Éden.[1] Dessa forma, a mentalidade humana está necessariamente modificada de forma radical. Porém, infelizmente, as ações humanas, não.

A consciência da mudança no espaço metafísico não muda, e nem por função pode mudar, a natureza humana. O homem permanece aquele animal que, mesmo dotado de razão, ainda comete ações, ainda faz estupidez, ainda estupra, mata e rouba por causa de suas paixões e desejos vis. O homem ainda está desamparado num mar de desesperança, lutando constantemente por luz e sabedoria, se movimentando no espaço e lutando contra o tempo — contra o fim da sua realidade carnal. Este mar de desesperança é o mundo caído, o mundo pós-Eden, o mundo marcado pelo pecado e pela mudança constante. É mundo da instabilidade, no qual, a um só tempo, divino e demoníaco convivem, lutando cada um pela sua prevalência sobre o outro. Este é o mundo no qual Adão escolheu deliberadamente viver e por causa dele padecemos das dores e temos que comer o pão feito pelo nosso próprio suor. Esse é o princípio da vivência humana e a causa primeira de tudo que existe que tenha procedência antropológica. Porém, neste mundo, demoníaco e divino não convivem e batalham simplesmente sós: por mais que exista a infusão e a manifestação do Espírito Santo ou a possessão demoníaca, há factualmente um elemento humano que ativa a vitória de um sobre o outro. Há elementos do mundo imanente que façam prevalecer (tal como elementos jurídicos, políticos, ideológicos etc.) que façam que o Bem ou o Mal prevaleçam no curso da História humana.

Por saber que a perfeição é inatingível enquanto vivo (já que mesmo os santos só se tornam santos depois de mortos), o homem contemporâneo, afim de se ver livre dessa instituição que pede a sua santificação neste desterro que chamamos de Terra, pôs na sua cabeça que a sua felicidade individual não depende da sua elevação espiritual para além do desamparo carnal, mas sim da sua satisfação material imediata. Além disso, qualquer recriminação desta mesma satisfação pessoal dos seus desejos mais baixos e espúrios é falso pois aparentemente partem de construção materialista artificial que pedem uma “higienização” do ser humano, uma “higienização” que vai contra a sua constituição mesma. Em outras palavras, o messianismo moderno nos presenteou este novo “No princípio não foi assim”, já que, ora, se nem sempre houve Igreja e nem sempre houve a Revelação, então essa Revelação é uma criação meramente humana feita por homens que querem negar a sua natureza mesma. Excluindo-se Jesus (ou seja, excluindo a divindade da jogada), a Revelação perde seu r maiúsculo e portanto toda a sua autoridade. Acontece que esse fato — tal messianismo flagrantemente gnóstico[2] — é uma herança de um positivismo atroz que impugna qualquer possibilidade de melhoramento comportamental (para dizer o mínimo) via refreamento dos nossos desejos. É que sem um abalizador mental que transcenda a carnalidade das coisas, desvios morais, desde que nos venham pela via do desejo, se transformam em coisas tão essenciais quanto nossas funções fisiológicas. A psicologia do século XX ajudou a lacrar o túmulo da consciência da nossa queda do Éden.

Removido este empecilho, esperava-se que agora o homem marchasse implacavelmente para a harmonia perfeita sem as acusações arbitrárias da Igreja — entidade que, abstraída da sua função santificadora espiritual virou um mero dado sociológico de caráter primitivo, a manjedoura da nossa sede de sangue, de bodes expiatórios, do falso espartanismo carnal que aparentemente nos é necessário se quisermos ir ao Céu — , tudo que temos agora é purgar individualmente o falso moralismo que ela ferrou em brasa, cicatriz e autos de fé durante 2.000 anos na nossa mentalidade.

Mas o que, de fato, aconteceu? O século XX nos mostrou por a + b o que a vaidade, o desejo humano e o assassinato flagrante da autoconsciência faz com o homem. A democracia, que foi trombeteada pelos intelectuais do início daquele século como a solução política definitiva, que o governo dos homens seria o motor Volkswagen que nunca superaquece no Fusca da História, logo virou um pesadelo terrível nas mãos dos donos do poder. E onde as coisas descambaram para a ditadura — justamente nos lugares onde se proclamaram os novos direitos dos homens — nos foi deixada um vermelho saldo de 200 milhões de mortos.

Passando ao século seguinte e vendo que as certezas tão sólidas que foram construídas no passado agora se dissolviam em dúvidas patológicas, o homem vê que talvez a sua consciência moral transmitida através da História pelo cristianismo por fim não estava tão sepultada assim. Ela continuava lá, nem mesmo adormecida, mas simplesmente ignorada com toda a solenidade do mundo; sendo chamada por outros nomes; sendo ofendida e humilhada; esquecida e calada. Num mundo em que a consciência e a imaginação moral são tratadas dessa forma é difícil manter o senso das proporções: na ausência da nossa consciência, do diálogo naquela chave imaginativo-poética conosco (um diálogo cuja finalização formal se dá na figura do padre no confessionário), não há como dar às nossas ações o devido peso, visto que não há mais o Logos abalizador que nos confere — como conferiu a Adão no início dos tempos — o poder e a habilidade de dar nome às coisas. Adão só o fez — e não poderia ter feito de outra forma — porque Deus lhe soprou a vida (a consciência) ao fim da Criação, no sexto dia (Gen 2:7), após já ter criado tudo mais, e ao completar a Sua obra-prima. Se fosse diferente, se não tivesse, no ato mesmo do sopro no rosto do homem, se Deus não tivesse feito isso, viveríamos neste exato momento entre os bichos. Não como S. Francisco de Assis viveu, mas como macacos mesmo.

Sem esse ordenador primeiro nós estamos inevitavelmente condenados a viver em extremos, apontando, quer com boas intenções, quer com más intenções, sistematicamente o erro dos outros. Tais condenações, que revelam uma galopante falta de amor, são as fontes mesmas da violência e do esfacelamento social.

Apenas com a nossa consciência interna inabalável e com rigor moral intrapessoal implacável é que nos lembramos que somos seres caídos e que precisamos de ajuda para nos levantar. A Revelação já nos mostrou que há sim, um caminho a se seguir, mas que a luta é constante e eterna. Pode parecer cinismo dizer que a solução está em nós mesmos e que, porém, não será nesta vida que iremos obter a paz que queremos. Nestes dias e nesta era, esta era que se vê tão acostumada a achar normal uma transformação social maciça de forma instantânea (apesar das constantes desgraças que tais transformação nos legaram — e eis aí o resultado de acreditar na famosa 11.ª Tese contra Feuerbach), dizer que a vida é dura e que levar socos na cara faz parte do jogo parece uma brincadeira desprezível. Mas isso é somente para aquele que esquece que ele não sofre sozinho — é para aquele que se sente especial de uma maneira “ao contrário” e que não se lembra mais das palavras do Salve Rainha: vivemos num desterro. É para aquele que acha que a tese do bastardo social foi feita especial e sob medida para ele; ou pior: é para aquele que enxerga em si o bastardo original, apesar da latente artificialidade desta visão.

Para uma modernidade que se vê cada vez mais justificada em crer que a causa alfa e ômega das coisas tem cunho sexual vale lembrar que a Igreja condena, igualmente, a masturbação, a bigamia e a homossexualidade. Mas ela a um só tempo, perdoa esses pecados e abraça o pecador como se ele fosse o mais querido dos filhos. E ela o faz porque o pecador, ao pedir perdão, ao terminar seu autoexame, é verdadeiramente o mais querido dos seus filhos. A isso chamamos de milagre.


[1] V., por exemplo, Jesus sobre o divórcio na lei mosaica: “Porque Moisés, por causa da dureza do vosso coração, permitiu-vos repudiar vossas mulheres; mas no princípio não foi assim” (Mt 19:8). Moisés, homem que foi chamado a um dever profético, cedeu aos apelos carnais do homem; mas Jesus, que nada deve à carne, restitui as coisas às suas devidas ordens.

[2] Dedico algumas páginas ao comentário desse messianismo em meu texto “O Último Pedaço de Ilusão: Flannery O’Connor, a Identidade e o Real”, a ser publicado brevemente nos anais do II Encontro Nacional de Discurso, Identidade e Subjetividade (II ENDIS).