Covarde é você

O tema suicídio sempre dividiu opiniões, mas “13 Reasons Why” passou a mensagem errada e conseguiu expor os preconceitos

Oi, esse texto não é uma resenha sobre 13 Reasons Why. Eu só uso um tiquinho da série pra ilustrar um ponto maior, que é o preconceito das pessoas com suicídio.

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Pra quem ficou: existe um grande motivo pelo qual pessoas que se matam ficam divididas entre deixar mensagens elaboradas e complicadas, ou simplesmente pular de uma janela sem avisar ninguém. A grande verdade é que raramente uma pessoa quer se matar de fato. O suicídio é um duelo entre corpo e mente; o seu corpo, normalmente, resiste a morte a todo custo. Basta ver relatos de pessoas que tentaram se afogar, o corpo faz de tudo pra vencer a mente e te convencer a tirar o corpo de lá. Quando uma pessoa se joga do topo de um prédio, o corpo “desliga” segundos antes da queda fatal, como uma morte antes da morte, porque é o último instinto de sobrevivência que ele consegue conjurar.

E ainda há quem diga que é covardia.

O suicídio, como a televisão, ou o álcool, ou as drogas, é uma válvula de escape da realidade. O que torna a ideia do suicídio — veja bem, a ideia — tão atraente é o fato de que ele é permanente. Você não sente mais as dores que te afligem e ainda deixa uma forte mensagem. Por mais torto que seja o raciocínio, normalmente ele é feito em meio a muita dor e sofrimento, o que faz com que esse sentimento seja validado. 13 Reasons Why acabou, sem querer, dando voz a esse raciocínio ao invés de combatê-lo; além de passar a mensagem de que o que resolve a vida de um potencial suicida é isoladamente amor e carinho (e não ajuda profissional), colocou o suicídio como uma forma de controle, de poder, algo que pode ser perigoso para pessoas que pensam em se matar para mandar uma última mensagem a todos, quer essa mensagem seja “eu precisava de atenção e ninguém me ouviu” ou “espero que eu assombre a vida de vocês pra sempre agora”. O que era pra ser uma série anti-suicídio acaba sendo um estímulo para o mesmo.

Mas Victor, o que que tem a ver a série — caaaaalma. Eu não pretendo ficar falando muito da série não, ela só foi uma ferramenta que fez com que as pessoas, as da vida real, mostrassem o quão ignorantes podem ser nas suas opiniões.

Por passar uma mensagem tão errada, as reações das pessoas à série foram divididas e erradas. De um lado, muitas pessoas que já aterrorizaram a vida de outras — e sequer pediram desculpas — resolveram se tornar especialistas em suicídio e ativistas contra o bullying, passando conselhos e sugestões péssimas, como impor a série como material de estudo para adolescentes (porque tudo que o adolescente deprimido precisa é ver uma imagem bem HD de uma pessoa se matando). Mas, pior ainda, de outro lado, ressurgiram aqueles que acreditam piamente que Hannah Baker foi “dramática” (ugh), e, pior, que ela “escolheu o caminho mais fácil”.

O primeiro grande problema que eu tenho com tudo isso é essa, perdão, essa IDIOTICE de “caminho mais fácil”. O que torna um caminho mais fácil ou mais difícil? Quantas variáveis você realmente enxerga nas escolhas de uma pessoa? Por que resistir os instintos de sobrevivência do seu corpo é “fácil”? A resposta é “você é um babaca insensível”. Não existe mais fácil, nem mais difícil. Não existe nada de “digno” em seguir empurrando a vida com a barriga se você não procura ajuda.

Ao mesmo tempo que as pessoas que gostam da série têm essa impressão errônea de que potenciais suicidas conseguem se sustentar só na emoção, sem auxílio profissional, esses outros trogloditas gostam de falar como se fosse fácil procurar ajuda. “É só pegar o telegone e ligar”, “tá cheio de psicólogo por aí”, etc… É sempre muito mais fácil pra quem olha de fora. Admitir que você tem um problema, se convencer a resistir à vontade de autodestruir (comer muito, não comer, gritar pro mundo que se odeia, etc), é tudo muito mais difícil, especialmente quando vivemos em uma época onde os pais são de uma geração muito mais insensível a distúrbios mentais do que os filhos. Não temos suicidas entre os baby boomers, mas temos um sem-número de alcoólatras, viciados, etc, vivendo perfeitamente em sociedade e descontando nos outros. Mas isso é assunto pra outro texto.

O ponto é: vocês, por assistirem uma porcaria de uma série de 13 episódios, decidiram que ou viraram especialistas em psicologia, ou se tornaram completos idiotas do século XIX. Isso tudo só mostra o quanto as pessoas tem a aprender sobre esse assunto antes de sair falando com propriedade. Chamar de “covarde” uma pessoa que abre mão da coisa que o corpo menos quer perder, dizer que crianças de 13 anos precisam ver uma pessoa cometendo suicídio pra aprender que é ruim, evitar os diálogos complicados e complexos da psicoterapia e apelar para atalhos… Tudo isso vem da ignorância geral sobre o tema suicídio, e mais ainda, sobre a mente humana, um dos maiores mistérios da ciência.

Agora, dito isso, minha opinião pessoal, como sobrevivente de duas tentativas de suicídio:

A ideia de me matar nunca vinha de um desejo de sumir do mapa. Eu, perdão pelo trocadilho, morro de medo da morte, do nada, do vácuo. Mas, convivendo com bullying, depressão, pressão social e pessoas horríveis e insensíveis ao meu redor, a ideia do suicídio se tornava concreta e palpável pelo mesmo raciocínio torto de “assim eu vou conseguir poder”. Curiosamente, todas as vezes que eu fantasiava com suicídio, eu imaginava ele fracassando, mas me deixando de tal maneira que mesmo assim eu precisaria ser internado, mas bem o suficiente para receber visitas e imaginar as caras das pessoas, chocadas por algo que elas já deviam saber que estava acontecendo.

É ou não é um raciocínio assustadoramente confuso?

O primeiro suicídio ter fracassado foi um mero acaso, eu escorreguei, mas o segundo eu acho que fracassou pelo mesmo motivo; talvez, no fundo, eu queria que desse errado. Talvez meu corpo se voltou contra mim e me fez errar. Isso tudo é uma parte muito nebulosa e confusa que eu prefiro nem ter que raciocinar muito sobre, mas o que eu posso dizer é que eu precisei de muito mais coragem pra tomar essas duas decisões isoladas (2006 e 2016, exatos 10 anos de diferença) do que eu precisei pra empurrar a vida com a barriga igual vinha fazendo quando não queria me matar.

Então, mais uma vez, tanto no pessoal quanto no profissional, o meu recado singelo:

Covarde é você.

Que julga os outros; que se acha superior aos outros; que consegue olhar uma pessoa pedindo ajuda e rir da cara dela; que tem a pachorra de fazer pouco caso de pessoas que optam por tirar a própria vida por causa desse seu comportamento; que não escuta quando te pedem socorro; que força a sua visão de mundo em todos aqueles que não encaixam no seu mundinho; que faz isso atrás de um computador, ou com pouca gente perto, e foge do assunto em público, guardando suas opiniões nefastas pra si mesmo.

É você o covarde, seu lixo.

É VOCÊ.