Menos amor, por favor

Você atrai o que transmite.
Fazer o bem sem ver a quem.
Toda positividade do mundo a você.
Vibrações positivas sempre.
Deixe estar.

O leitor tem Facebook, eu assumo. Se você tem Facebook, certamente já se deparou com a onda de ódio que assola não só esta rede em questão, mas a internet como um todo; o anonimato e a facilidade de se amontoar em grupos de pensamento igual cria as condições ideais para que extremismos odiosos, machistas, classistas, xenofóbicos e homofóbicos se criem e se espalhem pelo mundo virtual, afetando, assim, o convívio no mundo real. A resposta a esses movimentos, portanto, teria de ser uma força oposta. Se “O lado de cá” fala em falta de moral e severidade, “O lado de lá” aposta muito em discursos de positividade, vibrações e amor. Certo, não é?

Não.

A banalização da palavra “amor” já vem de longa data e certamente não pode ser creditada aos movimentos sociais, mas é verdade que as ações desses movimentos começaram a “tocar” o discurso cotidiano das pessoas e hoje se vê, com uma potência muito maior, a exaustivamente repetida frase “Mais amor, por favor”. Eu tenho um problema muito grande com essa frase, mas mais ainda com as pessoas que a usam. Tornou-se um padrão enraizado nas gerações recentes essa noção de que, para não se tornar uma pessoa detestável, você deve ser uma bolinha de energia positiva. Sorrir sempre! Amar ao próximo! Fazer o bem sem ver a quem! Vivacidade-Viva-a-cidade! Se desprender do material! Leveza do ser! Lar, doce mar!

E eu posso te dizer que essa é uma mentira muito da mal-lavada.

O ser humano é, afinal, humano. Essa forçação de barra não chega nem a ser saudável. Nós somos criaturas belas e imperfeitas, que possuem defeitos e necessidades que nem sempre batem com o “open de amor”. Nós temos que saber ser negativos. Temos que entender que, ao negarmos nossa natureza e nos forçarmos a amar todo mundo, ser gentil a todo momento com todo mundo, nunca fugir de uma briga, etc, tudo que estamos fazendo é guardando tensão dentro de nós mesmos, aquela energia que devia sair e fica presa lá dentro, e vai acumulando… até chegar o ponto em que explodimos.

Mas não é todo mundo que explode. Por que? Por causa da tal da hipocrisia, outra notória característica que o ser humano recusa a aceitar que tem. A hipocrisia permite que essas pessoas sejam negativas sem achar que estão o sendo. A mesma pessoa que quer espalhar amor pelo mundo é a primeira a não pensar duas vezes antes de ser extremamente malcriada e intolerante com alguém que pensa diferente dela, ou que pisa fora da linha. A mesma pessoa que fala em empatia entre dois emojis de flor (sidenote: precisamos parar com essa mania de falar “verdades” entre florzinhas. assim como os signos, começou como um negócio interessante e acabou virando justificativa pra ser babaca) é a pessoa que não se coloca no lugar de quem traz uma perspectiva diferente à mesa, ou que não perde dois segundos a mais do seu precioso tempo quando alguém próximo pede ajuda. A mesma pessoa que diz que gosta de coisas leves é a pessoa que exige resposta imediata às mensagens, que corta as pessoas do convívio por nada. A mesma pessoa que não dá bom dia pro porteiro cita “Three Little Birds” do Bob Marley quando pode. Aliás, Bob, foi você que começou com esse negócio de falar “love love love” toda hora. Amor não é água pra você sair jogando por aí nas prantinha, amor é coisa séria, é responsabilidade, é sentimento.

Mas então o que, Victor? Vamos todos ser uns merdas então, hipócritas, não pode mais fazer caridade ou desejar o bem? Claro que não! Essa é outra mania que os “Mais Amor Por Favor” adoram: levar a conversa pro 8 quando o 80 é questionado. Não, ninguém precisa agora começar a agir como “eles” e ser homofóbico, xenófobo, classista, desrespeitoso… e também não precisa achar que o mundo é um eterno filme da Disney em que dois corações unidos invocam o dragão do amor que derrota a serpente da desgraça!

O segredo não é “mais amor”. É respeito. Diálogo. Tenha certeza de que se aceitando e aceitando os diferentes — não só os diferentes que você gosta — você já está fazendo um favor pra humanidade muito maior do que pintar a base do viaduto que corta o Ibirapuera de colorido e escrever Namastê. Se ao invés de negar, aceitarmos a nossa natureza imperfeita, hipócrita e controversa, podemos reduzir MUITO a presença desses defeitos no nosso cotidiano. Temos que aceitar também que algumas pessoas simplesmente não foram feitas pra se gostar, mas podem se defender no caso de alguma injustiça. Se conhecermos nossa imperfeição, podemos driblá-la e ser maduros por um bem maior e comum; não o bem que nutre a nossa visão parcial de mundo. Colegas de campo não precisam ser colegas de vida, e vice-versa. Tudo na vida se resolve no poder do diálogo e do respeito de humano para humano, e de humano para si. Compartilhe menos ideias de pessoas que você sempre concorda no Facebook e passe a notar as coisas na natureza, na civilização e nas pessoas.

Você quer falar do fundo do coração? Então seja humano e escute ele direito.

Mais respeito, por favor.

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