Nem todo mundo quer ser salvo

Há algum tempo, uma amiga minha veio, desesperada, pedir a minha ajuda para lidar com o pós-término do namoro de três anos que ela manteve. Logicamente, como sempre faço, pedi para que ela primeiro me contextualizasse, contasse a história toda e as tangentes, quem falou o que, essas coisas. Escutei pacientemente e sem interrompê-la a não ser que tivesse uma dúvida relevante — algo que as pessoas bem que podiam aprender quando estiverem ouvindo alguém desabafar — e, enquanto escutava, notei algumas peculiaridades.

Enquanto ela me contava, em algumas tangentes da história, o que as amigas e amigos dela comentavam com ela a respeito da situação, ou como agiam com ela, eu percebi que as pessoas ao redor da minha amiga adoravam dar a opinião deles, mesmo quando não requisitada. E é óbvio que a coitada, enfraquecida emocionalmente, deixava com que falassem o quanto quisessem.

E eu descobri que isso é um problema muito recorrente entre nós. Nós não sabemos aconselhar uma pessoa sem dar palpite, ou pior, às vezes damos palpite sem que peçam para nós. A gente não pode ver uma pessoa triste que já coloca a roupa de Superman e voa de encontro aos fracos e oprimidos para palpitar a nossa vivência na consciência vazia e sensível deles. Ora, eu mesmo confesso que às vezes quero tanto ajudar alguém que acabo sendo um tanto intrusivo. Mas eu nunca dei palpite.

Com tanta gente dando opinião, eu-acho-que-você-devia, se-eu-fosse-você-eu-faria, e etc, eu me pergunto por que será que preferimos tanto ficar sozinhos na depressão…? A resposta é óbvia. Já temos que lidar com vozes o suficiente na nossa cabeça para ter que ouvir vozes externas também.

E, sinto muito, mas a maioria dos seus amigos, leitor, não sabem dar conselho. Inúmeras foram as vezes em que tive o (des)prazer de estar perto ou dentro de uma "rodinha de conselhos" — vocês sabem, uma pessoa contando o problema e os demais deliberando, como um júri — e o tratamento dado ao deprimido é sempre próximo do ridículo. Há quem relativize e faça piadas sobre o ocorrido porque leu em algum lugar que rir é o melhor remédio; há quem fique só contando das próprias experiências, ficando horas falando só de si mesmo, achando que está fazendo um favor quando na verdade só está massageando o próprio ego; e, por fim, há quem apenas cite frases que leu por aí no Facebook, no Instagram, em livros… mas não frases realmente profundas, e sim aquelas que você veria em "quem sou eu" do Orkut — "A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios (…)"

O que se tira disso tudo é que, na maioria das vezes, as pessoas acabam tentando, no meio desses "conselhos", tornar a pessoa algo que ela não é — ou não tem como ser naquele dado momento. Nós estamos sempre tentando salvar as pessoas, mas a verdade é que nem sempre as pessoas querem ou precisam ser salvas. Às vezes, as pessoas só querem ser ouvidas e/ou compreendidas, só querem uma ajudinha para se levantar. E isso não se faz dando palpite.

E foi pensando nisso que, depois que ofereci algumas palavras de conforto e sugestões de rotina, quando minha amiga perguntou qual era a minha opinião a respeito disso tudo, eu respondi:

"Minha opinião não importa de porra nenhuma. É você quem sabe melhor o que você deve fazer, e mais ninguém. Eu só tô aqui pra ajudar."

E hoje ela está muito melhor — porque ao invés de procurar uma parede para se apoiar, ela levantou sozinha, e eu só tive que dar um empurrãozinho. Afinal, o mundo começa e termina por nós mesmos, e super-heróis só existem dentro dos nossos corações.

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