Na Escuridão, Agora.

Oh Mother, I can feel the soil falling over my head 
See, the sea wants to take me 
The knife wants to slit me 
Do you think you can help me?
- The Smiths, I Know It’s Over
Jackson Pollock, Sea Change (Divulgação)

Querido diário, esse é o meu primeiro dia de depressão.


Talvez não seja de verdade, talvez tenha começado bem antes, mas eu só sinto que não tem volta agora, no dia em que ela chegou do nada as nove horas da manhã e me fez sufocar e querer chorar no meio de uma palestra de orientandos de literatura. A Nathalia achou que eu estava dormindo, mas o que eu estava fazendo era tentar conter o choro. Eu diria que estou oficialmente vencido pela palavra Babaca. Talvez deva ser meu nome a partir de agora, já que ela me subjugou e me definiu durante tanto tempo, como nenhuma outra além do meu nome.


O Babaca quando fica triste resolve pesquisar sobre musica, seja conversando com pessoas sobre, seja ouvindo, seja baixando, etc. Acho que porque é a arte em que O Babaca mais sente do que analisa. E a unica que faz ele chorar de vez em quando. Agora que o irmão do Babaca está tocando baixo, isso torna tudo ainda mais legal e interessante, principalmente quando ele tenta aprender musicas das bandas que eu gosto. A ultima musica que ele está tentando é The Less I Know The Better, minha musica preferida do Tame Impala.


Hoje o Babaca pensou em suicidio de forma real pela primeira vez. De como talvez fosse melhor se o Babaca simplesmente não existisse, seria uma grande ajuda para o mundo que um cara desse não estivesse importunando as pessoas do mundo. O Babaca ficou parado, encostado na parede por alguns minutos, querendo que toda essa narrativa louca acabasse logo. A expressão que o Babaca usou hoje é de como se o tempo fosse só abismo, e a cada segundo você precisa estar preparado para pulá-lo, mas eventualmente você vai cansar.


Uma coisa brutal devia acontecer com o Babaca logo. Seria o jeito mais facil de lidar com o problema mental, arrumar um problema maior. Perder um braço, ser espancado na rua, entrar para um clube gay de BDSM e ser a cadelinha que mais gosta de levar chicotada e ser dominada. Qualquer coisa física que o faça esquecer os pensamentos por um momento. Ele é idiota o suficiente para não ir agora, pelo menos não antes de deixar algo, mas cada vez que o momento de terminar esse algo se aproxima, mais alta é a chance.


O Babaca acha que a Sylvia Plath teve um fim parecido com o que ele vai ter. Claro que ela não era da mesma espécie que ele, mas seu marido era. A questão é que ela foi subjugada emocionalmente de tal forma que ficou impossível aguentar mais um dia na terra. A diferença é que ela estava preso pelo casamento com o seu problema, enquanto o Babaca tentou se livrar das pessoas que o deixaram assim, mas terminou num deserto mental, onde ninguém chega mais.


O Babaca pensa porque ele contou para Carolina sobre a traição. Ele poderia só ter terminado com ela e ter seguido em frente. Ela entenderia, no final das contas. Ninguém fora algumas pessoas da faculdade saberiam, e nunca contariam para ela porque nunca ao menos teriam contato. Do que adiantou a verdade se ela terminou sobrepujando o Babaca a um exílio? A verdade realmente deve prevalecer a todo momento? Nelson Rodrigues, nosso artista genial mais conservador, pediu as pessoas que mentissem, porque isso era essencial para se manter as aparências e a felicidade alheia. Um pensamento que procura manter as coisas como estão parece ao Babaca naturalmente inconcebível, e todos sabem que foi por essa agenda da verdade que ele contou o motivo do termino, e não porque Carolina merecia saber ou algo do tipo. Agora ele está pensando seriamente em começar a se cortar e se furar porque a mudança chegou até ele também.


Eu espero realmente que vocês saibam que no meu caso posso morrer por conta de outros, espero que essa verdade chegue a vocês também.