Perda de controle

It’s only falling in love
Because you hit the ground
- Queens Of The Stone Age, I Appear Missing
Richard Kern, Lydia and Foetus (Divulgação)

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.” Essa é a unica frase que eu conheço do livro O Pequeno Príncipe, porque eu não sou obrigado a ler um livro onde se encontra umas ideias erradas como essa. O senhor Saint-Exupéry só podia estar muito apaixonado ou muito maluco para pensar que alguém é culpado por algo que outra pessoa faz só por uma gostar da outra.


Tem muita coisa na nossa mente formada pela exposição de imagens maravilhosas que vimos nos cinemas, nos livros e tudo mais. A que eu mais odeio é a imagem do casal perfeito. Um bilhão de filmes hollywoodianos tentam fazer você acreditar que dois seres humanos juntos vão realmente viver felizes para sempre e nunca ter problemas sérios como brigas, ciumes e tudo mais, mostrando só o melhor de um relacionamento, ou um casal que supera os problemas externos porque se amam muito e qualquer bobagem do tipo. O motivo de Romeu e Julieta ser o casal ocidental mais copiado da literatura é porque o amor deles durou quatro dias e foi extremamente intenso, o que gerou uma interpretação merda dos românticos e resultou nesse modelo maluco reproduzido até hoje, mas agora com a ajuda do corte da historia ao invés da morte dos adolescentes retardados.


Não é como se eu estivesse esperando que a arte ensine as pessoas como se relacionar ou qualquer merda do tipo, e nem como se eu não entendesse que o motivo disso funcionar é a esperança que gera nas pessoas de um dia elas conseguirem chegar nesse ideal (é assim que praticamente todos os elementos que prendem o leitor comum funcionam, assim como a “identificação” que eu falei ontem), mas o minimo que eu espero das pessoas é saber que aquilo não é real e nem deveria ser o que guia um relacionamento de verdade.


Eu tendo a olhar tudo pelo lado da relação de poder, porque Foucault fodeu a minha cabeça nesse sentido. Para eu chegar em alguém na balada hoje em dia eu preciso fazer muito esforço mental para achar que está ok incomodar uma pessoa desconhecida só para ver se uma variável meio especifica entre varias está correta e, bem, beijar ela por meia hora e depois fingir que nada aconteceu. Namoro para mim é um campo de guerra, o único onde a rendição pode acontecer antes mesmo da luta começar.


O ciume na minha opinião é a entrega do controle sentimental a outra pessoa. E não se pode culpar uma pessoa por não saber lidar com isso, senhor Exupéry. A complexidade do que pode ou não pode ativar esse gatilho emocional é gigantesca, e não é só aquele esteriótipo bobo da pessoa que não aguenta ver o namoradx falando com outras pessoas potencialmente pegáveis e dá um chilique por isso. Aliás, a pessoa ciumenta não reage da forma que reage porque acha que é a melhor coisa a fazer, e sim porque ela não está estável emocionalmente para manter o controle, e acaba fazendo coisas irracionais da qual vai se arrepender logo depois (ou não, sei lá).


Eu não sabia, e talvez ainda não saiba, lidar com o ciume da Carolina. Primeiro de tudo porque ela tinha motivos para desconfiar mais do que outras pessoas, mesmo eu tendo sido sincero sempre que possível, até sobre a traição. Segundo, porque o ciume continuou mesmo depois do termino, e mais forte do que antes, porque agora ela tinha certeza de que algo rolaria com outra pessoa, já que não havia mais nada impedindo. Acabei perdendo o controle dessa situação na fatídica noite de 14 de outubro, praticamente um ano depois da outra fatídica noite em ipanema.


Quando sou eu sentindo ciúmes, eu nunca falo para a pessoa. Porque esse sentimento mostra quem tem mais poder na relação, e até poder confiar totalmente na pessoa e saber que ela não vai usar isso contra você, não recomendo deixar a outra pessoa saber que você está mais suscetivel a chorar quando tudo acabar, porque o medo de te machucar vai acabar fazendo ela se afastar de você.


Claro que em nenhum momento eu estou falando do ciúme extremo que gera sequestros e prisões em cativeiros. Esses a midia adora reproduzir por ai como tema policial, e talvez sejam a contraparte que gera esse medo de ciúmes que tantas pessoas tem.


O assunto do ciúme nunca fica só entre os dois, e o maior problema vem dai: conselhos alheios. Esse é um momento onde as pessoas estão muito suscetíveis a: dar pitaco e ouvir o pitaco. A real é que o que me fez parar de falar com os meus antigos amigos não foi o 362732 ataque de ciúme da Carolina, e sim como todas as outras pessoas reagiram sobre o caso. Pessoas tendem a procurar respostas rápidas e fáceis, e o problema de não pensar e questionar nesses casos é que você pode estar prestes a foder algo que era apenas uma pequena rachadura com conserto fácil.


Eu devo admitir que mesmo assim eu tenho raiva da Carolina as vezes, mesmo sabendo que não é culpa dela.