Top 10 Álbuns 2017

Keith Haring - Resist! at the Palladium, New York City (1988)

2017 acabou, e eu sempre gosto de iniciar novas coisas no dia 1 de janeiro, porque eu acho bem cabalístico começar um projeto junto com o começo do ano. Então agora vou usar esse espaço para falar do assunto que vem dominando a minha vida nos últimos tempos, que é a musica. Ouço mais musica hoje em dia do que durmo, e isso é uma quantidade de tempo gasto numa coisa só que eu não dedicava nem na época que eu tentava ler 300 paginas por dia na livraria (para não gastar dinheiro comprando os livros). Eu ainda não conheço muito de musica como gostaria, por isso sou uma pessoa totalmente criticável quanto a tudo que falarei aqui e aceitarei os pensamentos adversos numa boa, como sempre faço. Para começar esse novo ano, decidi reunir o que eu achei de melhor do ano passado, porque acho que o melhor jeito de conhecer alguém que você queira acompanhar num assunto desses é saber que tipo de coisa ele gosta, e eu acho que essa lista me representa bem. Sem mais delongas, vamos a eles:


10° lugar: Dark Days + Canapés, Ghostpoet

Antes de entrar na loucura de ouvir todos os álbuns de 2017, ou pelo menos o máximo que eu conseguisse, eu ainda tinha muito preconceito com certos estilos de musica, como o Hip Hop ou Eletrônica. Procurando por ai na internet quem estava realmente fazendo um trabalho bom nessas áreas ao invés da bobagem que eu tanto ouvia nas baladas ou nas playlists dos amigos, eu finalmente achei coisas que amo hoje em dia e o preconceito foi completamente perdido. Ghostpoet é o melhor simbolo dessa nova era musical, por ser um artista que utiliza muito elementos de eletrônica e de Hip Hop, mas também é muito influenciado por Jazz, o que torna as batidas sempre imprevisíveis e interessantes, fora o seu flow ser muito gostoso de se acompanhar. O álbum também tem uma interessante mudança no que deve ser o lado A e lado B do LP, porque no começo é pegada hip hop eletrônica que aparece mais, sempre mantendo o clima pesado e escuro (o que eu acredito ser a parte Dark Days), mas a segunda pegada tem mais presença instrumental e a influencia do Jazz fica cada vez mais aparente, o que dá uma leveza na segunda parte mas não deixa o interesse se perder. Grandessíssimo álbum que não teve tanta atenção quanto merecia.


9° Lugar: Written At Night, Uncommon Nasa

Outro preconceito que havia era com a questão dos feats. Para mim feat na musica servia apenas para que um rapper tivesse um refrão cantado por alguém conhecido e famoso (cof cof U2 em DAMN.) ou para que um rapper jogasse um verso meio whatever no meio de uma musica de outro estilo (cof cof Kendrick Lamar em Songs Of Experience) e que o objetivo final era ter um trafico de influencia junto com uma atração de publico nova e diferente, sem nenhum valor musical real (COF COF COF). Já aqui no novo álbum do rapper Uncommon Nasa só em duas faixas não há feats. E nesse momento a sua capacidade de produtor se faz presente para juntar essa quantidade interminável de vozes (todos rappers também), para criar um álbum denso, diversificado, politica e socialmente não só engajado, mas também pensando essas questões com mais clareza que muita gente por ai (talvez seguindo um conselho básico de Zizek: Não aja, pense primeiro). O conceito de ser uma historia onde ele foi abandonado pela pessoa que estava esperando e se ver sozinho (embora cheio de vozes ao redor) escrevendo o álbum e refletindo a escuridão com o passar das horas, tornando o som cada vez mais perturbador, caótico e pesado foram varias das coisas que eu nunca esperaria ver num álbum de Hip Hop, e que me fizeram gostar tanto dessa maravilha de 2017.


8° Lugar: Crack-up, Fleet Foxes

Vendo o ultimo vídeo do ano no canal Alta Fidelidade, que foi uma retrospectiva de 2017, Lui Lui comenta sobre o álbum definindo-o como “um rock rural progressivo”. Por mais que rural não seja exatamente o que me vem a mente quando ouço esse álbum (folk pra mim sempre tem haver com politica e temas adjacentes, não com o campo) a definição cabe muito bem para o novo trabalho do Fleet Foxes. O novo álbum de Robin Pecknold e companhia, depois de 6 anos do ultimo e maravilhoso (embora um pouco do mesmo) Helplessness Blues, veio querendo ser mais: mais complexo, mais rico, mais polarizador, mais grandioso e mais épico. Para isso aposta em faixas que são duplas ou triplas (as chamadas “suítes”) onde dentro da musica você tem variações de instrumentação, peso e ritmo, como na faixa de abertura (que já mostra para você como vai ser o disco e se você não gostar dela, nem precisa tentar ouvir o resto). Um álbum que merece a sua atenção mesmo que você não goste de folk, e para mim o melhor que a banda lançou até hoje, me deixando ainda mais empolgado com o futuro dela.


7° Lugar: Utopia, Björk

Não seria interessante se as pessoas que gostam de copiar a Björk não o fizessem só na estética, mas no seu som também, ou melhor, no espirito vanguardista que esse som tem? de exploração dos limites, do fantástico (no sentido de fantasioso mesmo) e do belo sem nunca cair na mesmice? A exploração sonora que a cantora islandesa faz em cada álbum sempre me deixa embasbacado, e Utopia não podia ser diferente, mais uma vez se juntando com o produtor venezuelano Arca, presente no disco antecessor, mas dessa vez para fazer algo completamente diferente, um som que aspira a beleza da natureza e do colorido, um uso de um instrumento raríssimo num disco popular (a flauta) como coluna principal de todo o álbum, mas mesmo assim as letras não deixam escapar o clima tenso que ainda existe na vida da cantora, chegando a momentos pesadíssimos e diretos como “Sue Me”, faixa que aborda diretamente a questão da batalha judicial sobre a custodia da sua filha. Intenso, desbravador e honesto em todos os sentidos, Björk já deveria ser considerada uma lenda viva da musica popular mundial.


6° Lugar: Drunk, Thundercat

O novo álbum do baixista de varias estrelas do Hip Hop e do Jazz, como Kendrick Lamar e Kamasi Washington, mostra o porquê do homem ser tão requisitado entre os melhores e sua criatividade, honestidade e seu humor diante do cotidiano. Variando do Jazz ao R&B, com algumas pitadas de Rap com colaboradores como o próprio Lamar e Lil Wayne. As 23 faixas geralmente são curtas e com muita variedade sonora, mas o que brilha mesmo são as letras, principalmente as mais engraçadas, como Thundercat pedindo para jesus pegar o volante em “Captain Stupido”, Pensando em como seria ser um gato em “A Fan’s Mail”, querendo gastar todo o dinheiro em coisas de animes em “Tokyo”, entre varias outras boas surpresas escondidas nesse álbum maravilhoso.


5° Lugar: After Laughter, Paramore

Esse foi provavelmente o disco que eu mais ouvi em 2017, e a minha relação com ele foi meio engraçada: quando o primeiro single saiu, “Hard Times”, eu torci o nariz porque a banda estava se afastando cada vez mais da vibe Pop Punk e virando algo pop, no caso Synth Pop. Porém eu não conseguia parar de ouvir a musica. Tinha algo nela que me deixava completamente fascinado, e eu só percebi o que era depois que o segundo single saiu, “Told You So”. A nova fase da banda tinha uma estranha mistura de instrumentais alegres e doces com letras pesadas e tristes, algo que parece refletir o ano de depressão que a Hayley passou em 2016, fora os vários problemas que a banda anda tendo ao longo dos anos e mesmo assim utilizando a criação sonora alegre como força motriz para suportar esses sentimentos que rondam. Passado o preconceito com a mudança eu percebi a altissima qualidade desse álbum, em que praticamente todas as musicas poderiam ser hits da radio (menos “No Friend”, que para mim é o único erro do disco, não por ser mais experimental, e sim pela escolha de deixar os vocais de Aaron Weiss sumirem na bagunça instrumental que rola) e letras como as de “Fake Happy”, “Caught In The Middle” e “Tell Me How” mostram que esse é com certeza o álbum mais depressivo do Paramore. Mesmo com a aparência de felicidade, quando você vai mais fundo no album, acaba-se revelando que o novo som é apenas uma mascara de lagrimas. Pelo menos é uma mascara linda.


4° Lugar: Caravanas, Chico Buarque

Eu não acho que esse ano tenha sido bom para a musica nacional. De todos que eu ouvi, só três realmente ficaram no meu Media Player (sim, eu não uso Spotify): Unlikely, da banda Far From Alaska; Magnetite, da banda Scalene; e o álbum em questão. Entre as várias decepções, estão o álbum da banda Boogarins, Lá Vem a Morte (cada vez mais uma copia descarada de Tame Impala) e o novo do Os Paralamas do Sucesso, Sinais do Sim (impressionante como uma banda tão sem talento para escrever letras e um som tão cover de si mesmo nos bons tempos ainda faça álbuns). Porém, um cara que nunca decepciona é o grande Chico, que veio com um disco matador esse ano provando que está com tudo e não está prosa. A qualidade das letras é sempre impressionante (mesmo com a “polemica” de que ele teria sido machista em uma musica [eu nem sei qual é porque eu não acompanhei essa palhaçada], sendo que precisaria de muito contorcionismo mental para tirar essa tese de qualquer uma das letras na minha opinião), e o destaque desse disco de samba clássico vai para a faixa As Caravanas, provavelmente a melhor musica do ano, com sua composição adicionando elementos do funk carioca, letra remetendo a Camus e falando do preconceito velado do carioca da zona sul com o carioca da zona norte, e elementos instrumentais grandiosos dignos de um encerramento de álbum tão espetacular.


3° Lugar: Villains, Queens Of The Stone Age

Apesar do Josh Homme estar ficando cada vez mais louco e retardado, eu não poderia deixar Villains, o sétimo disco da sua banda principal, de fora dessa lista, porque eu escutei esse disco até cansar desde o dia que ele saiu. Saindo do sombrio e depressivo …Like Clockwork (o meu preferido na discografia do QOTSA) a banda resolveu apostar na força dançante que o rock tinha e pode ter de novo, e o resultado é um disco que não te deixa parado, com a empolgação no máximo, mas entremeado por cicatrizes anteriores, como na balada “Fortress” e na linda musica final “Villains Of Circunstance”. Apesar de ter nove faixas apenas, quase todas as musicas do disco tem uma duração acima da media, e isso é usado para construir musicas que evoluem conforme o tempo passa, o que faz com que o disco se mantenha interessante até o final. Com certeza é a banda que mais me cativou esse ano e que virei fã (quase) incondicional.


2° Lugar: Forget, Xiu Xiu

Eu descobri Xiu Xiu vendo um canal de YouTube que promovia bandas desconhecidas fazendo covers de musicas famosas. No vídeo, a banda liderada por Jamie Stewart tocava Sharp Dressed Man, do ZZ Top, e nesse cover, apesar de muito “normal” para a banda, já dá para notar algumas peculiaridades do vocalista e líder da banda, como o revirar de olhos em varias partes da musica, os vocais ficando cada vez mais estranhos, e os vários instrumentos de percussão que a baterista usa durante a musica. Forget também é uma boa porta de entrada para os iniciantes, por ter suavizado mais nas experimentações e deixado as influencias de Synth Pop e Post Punk mais claras, mas nem por isso menos denso e impressionante. Abrindo com as estranhas linhas de Rap no começo de “The Call”, que parecem ser um tapa na cara inicial para a sequencia de letras depressivas e terríveis, como “Queen of the Losers” e “Hay Choco Bananas”, todas permeadas por sintetizadores saídos de um filme de terror, instrumentos de percussão não muito presentes na musica atual ou soluções eletrônicas, mas sem gerar praticamente hits pops como “Wondering” ou “Forget”, Mostrando que Xiu Xiu tem total habilidade de juntar o experimental com o gosto popular com maestria.


1° Lugar: The Ooz, King Krule

2016 foi um ano incrível e ao mesmo tempo triste para a musica, com varias perdas terríveis, especificamente meus ídolos David Bowie e Leonard Cohen, mas também de álbuns geniais, com pelo menos quatro discos que vão virar clássicos instantâneos (Blackstar, You Want It Darker, Post Pop Depression e Skeleton Tree). Esse ano eu acho que apenas um álbum tem chance de virar um clássico moderno, mas na minha opinião está no mesmo nível dos demais (e dessa vez vindo de um cara que é só um ano mais velho que eu). The Ooz é uma obra de Punk Jazz criada pelo inglês Archy Marshall sob o pseudônimo de King Krule, e esse é o segundo disco feito por ele sob esse selo. Nesse álbum Krule explora nas letras sua relação com a insonia, a depressão, o isolamento do mundo, as consequências do álcool e das drogas, acompanhado de um som impressionante de uma mistura de jazz, rock e blues, onde o som parece se mover como água corrente: fluida, impossível de capturar facilmente e magnificamente natural e límpido. Muitas das metáforas do álbum tem haver com um tema muito caro para a musica inglesa: o espaço. Nesse caso, o isolamento do mundo que esse cadete espacial está sofrendo, por escolha própria, mas nem por isso menos penoso. Merece cada segundo da sua atenção.


Por fim, fica a pergunta: quais foram seus preferidos de 2017?