JAY-Z no confessionário

Apesar da pose de CEO, JAY-Z é um homem impulsivo. Ele atirou no próprio irmão, esfaqueou um produtor, e bom, já traiu a BEYONCÉ. Essa impetuosidade, contudo, nunca foi maior que o senso de oportunidade de Shawn Carter. Desde do início de sua carreira, JAY-Z é o homem certo no momento certo. Nos últimos anos, os negócios vão bem, mas musicalmente falando, JAY-Z andava perdido. A opulência do Magna Carta, Holy Grail foi trágica. O álbum é uma bagunça completa, apesar de contar com participações de todos os peso–pesados do jogo.
Seu novo álbum, 4:44 não vai mudar seu irretocável legado, mas é uma adição interessante em seu catálogo. 4:44 tem um tom profundamente reflexivo. Parece uma ida ao psicologo. É como se Carter estivesse expiando seus pecados, limpando as estantes e se preparando definitivamente para a aposentadoria. No meio dessas reflexões sobre a vida, vários conselhos. De como guiar os negócios, de como ser negro na América e algumas linhas pra um amigo confuso.
JAY Z sempre pareceu um intocável. Essa imagem começou a ser construída Reasonable Doubt e foi aperfeiçoada através dos anos. Mesmo em seus momentos mais sensíveis , JAY-Z parece inalcançável. Em 4:44, JAY-Z parece um homem vulnerável. Os milhões, a arrogância, os charutos cubanos ainda estão lá, mas JAY-Z parece um humano agora. O que ele não consegue falar, os samples dizem. A produção de No I.D (4:44 é um affair de um MC e um produtor) , baseada em samples de soul , trazem o melhor de JAY-Z desde de American Gangster. Os beats são profundos, sugestiva e simples. O flow de JAY-Z — sempre imperativo — aqui é introspectivo e confessional.
4:44 é um álbum descompromissado. Nenhum faixa aqui pode ser apontada como um single em potencial. JAY-Z, um dos maiores hitmakers da história do rap, lançou um álbum sem nenhum hit. 4:44 vai conseguir todas os certificados, por conta dos acordos comerciais, mas seu objetivo não parece ser vender milhões de cópias e conquistar o as paradas da Billboard. 4:44 é uma carta pra posteridade. Um dos maiores rappers da história, no alto dos seus 47 anos, produziu um álbum pra si mesmo.
Não se engane com o tom confessional, JAY-Z, o business man, continua firme e forte. A ideia de ser um bilionário negro — não um ostentador, mas um investidor–, sempre esteve presente na mente de JAY-Z. Você pode chamar essa filosofia de capitalismo negro, ou empreendedorismo negro, se acredita nesse tipo de coisa. Em 4:44, JAY-Z, o conselheiro de investimentos, continua pregando seu sermão, suscitando até algumas polêmicas . JAY-Z “venceu” o racismo se tornando milionário. Carter ganhou do sistema, pena que nem todos podem ser JAY-Z. Apesar de tudo, “The Story of O.J” demonstra que JAY-Z, sabe que mesmo milionário, continua negro.
4:44 é bom pelo que se propõe a ser: um álbum da maturidade. Tem alguns momentos divertidos ( “We stuck in La La Land, Even when we win, we gon’ lose”, em “Moonlight”, fazendo referência a infame gafe do Oscar), alguns momentos de nostalgia (“Bam” traz aquela malícia e gingado do velho Jigga Man) e alguns momentos emocionantes (as confissões matrimonias de “4:44”, a declaração que sua mãe é lésbica em “Smile”). No geral, 4:44 é uma grande reflexão da vida e dos tempos de Swan Carter. Deveríamos agradecer que JAY-Z, o milionário, reservou um tempinho da sua agenda pra JAY-Z, o rapper, e pra Shawn Carter, o homem.
