Chilli com batatas

A refeição estava salgada e as batatas um pouco cruas. A água gelada ajudou a tirar a secura da boca, e o homem continuou a comer a comida malfeita.

De propósito? Talvez. Nas três penitenciárias em que passou um bom pedaço da vida, a má vontade dos funcionários era marca registrada. Presos não reclamam do molho de tomate azedo, nem dos fios de cabelo no feijão, nem do bife duro como couro de sapato ou dos talheres imundos. Era a forma que os cozinheiros encontravam para contribuir com a pena dos condenados.

Ernesto, porém, estava longe de detestar a comida: comeu as batatas de uma garfada só, junto com o chilli (com um pouco de imaginação, tinha o gosto parecido com o que tia Dulce fazia) e depois os brócolis, num outro prato ao lado.

Bebeu a garrafa de água inteira e depois abriu a pequena caixa de isopor ao lado da mesa, onde gelava uma grande lata de cerveja. O barulho da lata abrindo o fez lembrar dos dias de liberdade, dos churrascos com os primos e os amigos do bairro em que crescera desde os sete anos, quando ele e os pais se mudaram de seu país de origem. Deles, porém, tinha poucas lembranças. Até hoje, o homem não sabia ao certo o que acontecera com o pai, e nem o motivo de sua prisão, durante o primeiro ano no novo país. Uns diziam que ele fora incriminado de forma injusta por um policial com quem teve um desafeto. Outros afirmaram tê-lo visto matando a sangue-frio um traficante conhecido no bairro, e outros ainda sustentavam a história de que sua captura aconteceu após um assalto, onde um policial foi morto.

Ernesto jamais tinha aceitado qualquer uma dessas versões. E se o pai, na realidade, fosse um homem honesto, e o filho passasse a vida achando que ele era um bandido? O fato, porém, é que a mãe teve que ser deportada. O garoto, à época com oito anos, foi morar com a tia e nunca mais viu nenhum dos dois.

Tia Dulce era uma mulher ocupada que se dividia em dois empregos, um como costureira e outro numa fábrica de calçados, para dar sustento aos dois filhos, com onze e catorze anos. Domingos, o mais velho, era um garoto forte que costumava liderar a turma do bairro, razão pela qual Ernesto começou a tomar gosto pelas ruas. As vezes, porém, o primo parecia esquecer o parentesco e agredia-o com socos e pontapés, motivado por razões fúteis como a escolha para os times de basquete e outros jogos de rua, onde Domingos tinha que ocupar a posição mais desejada pelos garotos.

Juan Guilherme, seu outro primo, era um garoto franzino e esperto de quem Ernesto logo se aproximou. Os garotos passavam a maior parte do tempo juntos, trocando as figurinhas dos álbuns que tia Dulce lhes comprava para colecionar ou correndo atrás dos garotos mais velhos, de quem geralmente recebiam alguns trocados em troca de favores como entregar comida, suco ou refrigerante de um lugar para o outro, tomando cuidado para manter Domingos longe do radar.

Certa vez, Ernesto voltava para casa com algumas notas amassadas. Quando percebeu que uma delas tinha caído do bolso, a mesma já estava nas mãos de Domingos. Furioso, o primo agarrou-o pelo colarinho com tanta força que a camiseta rasgou no ombro direito.

-Onde você conseguiu isso? – berrou Domingos.

-Eu ganhei. Me solta!

-De quem? Quem está te dando dinheiro e por que?

-Me solta!

-QUEM?

Tudo o que Ernesto se lembrava deste dia era de Juan batendo na cabeça redonda do irmão com uma frigideira. Domingos ficou desacordado, e os dois desapareceram com o dinheiro, transformando-o rapidamente em balas e figurinhas.

Escaparam da surra por causa do dinheiro, mas Juan e Ernesto apanharam da tia por causa dos pontos na cabeça de Domingos, que até os seus trinta e tantos anos continuaria agredindo quem o apelidasse de cuca-rachada.

Os anos se passaram e os garotos atingiram a maioridade. A tia, já velha para a rotina exaustiva em dois empregos, trabalhava em casa como costureira, mas era hora dos três começarem a lhe devolver os cuidados.

Domingos conseguiu o primeiro revólver aos dezessete anos. Depois disso, começou a amontoar numa caixa de papelão uma quantia de dinheiro e objetos que Ernesto nunca tinha visto. Pensou em pegar algumas notas, certo de que o primo jamais desconfiaria, mas lembrou que Domingos, já agressivo o suficiente, agora tinha uma arma na cintura.

Juan também estava com inveja do irmão, e os dois foram pedir emprego aos garotos que lhes pagavam para entregar comida quando eles eram crianças.

O transporte da cocaína, porém, era duzentas vezes mais lucrativo.

Os dois começaram a ganhar dinheiro. Juan, inteligente, bom de conta e de fala amigável, começou a se destacar e assumiu a gerência do tráfico em pouquíssimo tempo. Com a morte do patrão durante um confronto com a polícia, o garoto assumiu e reorganizou toda a operação, mostrando um exímio talento para empreender. Ernesto assumiu o cargo de gerente e braço direito do primo. Aos vinte e seis anos, Juan Guilherme se tornou o principal traficante de maconha e cocaína da região. Na mesma época, Domingos fora preso e condenado a quinze anos pela morte de um comerciante.

Juan Guilherme enviava dinheiro ao irmão e fazia seus contatos para protegê-lo na cadeia. Tia Dulce, magra e inconsciente, faleceu em seus braços dois dias antes de seu trigésimo segundo aniversário.

Ernesto sentiu a cerveja descer um pouco mais amarga, como se o corpo reagisse à lembrança da morte da tia. A pobre senhora ia visitar Domingos todos os sábados, religiosamente, como certamente faria com Ernesto se fosse viva. Levava uma bolsa pesada carregada com bolos, pães e um caldeirão de chilli com batatas, prato favorito do filho, com quem se sentava e almoçava, lembrando histórias de uma infância tão longínqua que parecia ter acontecido em outra vida, com outras pessoas. No primeiro sábado sem a mãe, domingos passou o dia sentado no lugar onde eles costumavam almoçar, sozinho, segurando uma fotografia onde ele, tia Dulce, Juan Guilherme e Ernesto se abraçavam ao redor de uma árvore de natal.

No dia em que Domingos saiu da cadeia, com o dobro do peso e o triplo de tatuagens, seu irmão preparou uma festa de três dias de duração. Não faltaram charutos, tequila, cocaína e prostitutas. Uma delas, uma garota de pele morena e cabelos encaracolados chamada Yolanda, passou a maior parte do tempo fumando e cheirando cocaína no colo de um Domingos sorridente que colocava notas e mais notas de cem dólares ao redor de seu biquíni.

Juan Guilherme, tempos depois, fez como tinha feito com Ernesto e promoveu Domingos. Quando o novo homem de confiança chegou no escritório do irmão, porém, Yolanda entrou com ele.

A garota passou a ser vista em festas, reuniões e eventos beneficentes que Juan Guilherme promovia na comunidade. A notícia do casamento veio meses depois e foi recebida com preocupação pelos outros dois irmãos. A quem tentasse começar um discussão sobre o assunto, Domingos fazia ameaças de morte e dizia que não ia admitir palavras falsas contra a futura esposa.

A cerimonia aconteceu num sábado à tarde. Domingos, com todos os seus cento e trinta quilos metidos num terno branco, beijou a noiva e selou uma união que duraria exatos nove dias.

Já na lua de mel, Domingos estava no quarto quando olhou pela janela e viu Yolanda sentada no bar, conversando com um rapaz alto de óculos de sol. Sentindo a conhecida euforia que lhe subia pela nuca sempre que ele usava cocaína, o homem desceu as escadas do hotel com rapidez, em direção à esposa.

A enorme mão de Domingos se ergueu e desceu com força no rosto de Yolanda, marcando sua bochecha esquerda. O rapaz de óculos escuros correu para longe sob ameaças e xingamentos. Yolanda perdeu os sentidos, caiu no chão e voltou à consciência em um intervalo de poucos segundos, quando quebrou uma garrafa de champanhe e enfiou-a no braço do marido.

Dez seguranças foram necessários para separar o casal. Juan Guilherme, acostumado com as peripécias do irmão, tirou-o da delegacia, pagou a fiança e mandou vir um médico da comunidade para tratar do corte em seu braço.

Domingos passou os dias seguintes tentando se reaproximar de Yolanda, que se trancara no apartamento de uma amiga desde então. Um dia, sumariamente, Domingos chorava quando viu a amada entrando novamente no prédio. Yolanda disse que ele estava perdoado e que eles fariam outra viagem de lua de mel para esquecer a primeira.

Domingos contava sobre a reconciliação para os irmãos quando eles ouviram a primeira sirene. Ernesto nunca viu tanta polícia como naquele dia. No momento em que mais de trinta agentes subiram as escadas, Ernesto, Domingos e Juan Guilherme, encurralados no mesmo cômodo, se separaram pela última vez.

Ernesto pulou pela janela e caiu dois andares em queda livre até ser amortecido pelos varais abaixo, por onde conseguiu alcançar a janela do prédio ao lado. Antes de fugir, viu dois policiais apontando seus fuzis para ele. Ernesto não soube quantas vezes atirou. Só parou quando percebeu que a pistola estava vazia e ouviu os cliques solitários do gatilho. Acima dele, através da fumaça que saía da arma, viu um agente caído sobre o outro na varanda de um dos pequenos apartamentos.

Domingos correu para as escadas e deu de cara com três policiais. Sem tempo de sacar a pistola, rachou o capacete de um deles com um soco e passou derrubando os outros dois. Mais à frente, outros cinco guardas lhe renderam. De dentro da viatura, algemado nos pés e nas mãos, Domingos viu Yolanda de costas, com a mão encostada no ombro de um policial, e foi para a cadeia.

Às seis horas da tarde, com o dia já escurecendo e os curiosos se amontoando, o corpo de Juan Guilherme saiu do prédio num lençol branco com manchas de sangue que saiam dos nove buracos de tiros, todos em suas costas. Os moradores começaram a gritar, cuspir e jogar toda a sorte de coisas nos policiais, responsáveis pelo assassinato do único homem que zelava pela comunidade.

Domingos soube da morte do irmão no mesmo dia. Quis matar Yolanda, mas descobriu que a vontade de vingança era mais fraca que a dor do luto. Castigado pela culpa e sentindo-se traído, Domingos enrolou o próprio pescoço no lençol e se pendurou para fora da janela.

Ernesto estava fitando o prato e a lata de cerveja vazia quando a voz lhe chamou.

As correntes arrastavam no chão enquanto ele andava pelo corredor, como faziam os fantasmas nas histórias que tia Dulce lhe contava na infância. A cadeira era dura e tão desconfortável quanto parecia nos filmes de cadeia que ele via na televisão.

Alguém abriu a boca e disse alguma palavras, mas Ernesto não estava prestando atenção. As luzes piscaram e seus braços colaram involuntariamente no corpo.

Sentiu os dedos se torcendo como se fossem quebrar, a língua enrolando contra o céu da boca e, antes de perceber o cheiro de carne queimada, parou de sentir.

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