Precisamos falar sobre a eterna notícia do “casal que largou tudo para viajar o mundo”

Não entendo quase nada de cinema, mas em 2011 fiz um curta-metragem amador sobre jovens que largavam empregos pra irem atrás do que sonhavam. Achei que só meus amigos fossem ver, mas, pra minha surpresa, o video teve mais acessos do que o documentário mais visto no cinema nacional naquele ano. De lá pra cá, comecei a receber dos meus amigos e da internet, todo tipo de conteúdo relacionado a abandonar o trabalho e viajar pelo mundo. Praticamente todo dia, há anos, meu Feed de notícias e minha inbox anunciam a história de um casal que largou o emprego pra sair por aí, do artesão que foi até a Patagônia de bicicleta, do cara que mora na caverna, do garoto que viaja com o cachorro de carona, do fim da necessidade de trabalho fixo e de como a economia colaborativa e trampos artesanais vão agora salvar o planeta. Amo todos os relatos e exemplos, me inspiro em todos eles, mas estamos repetindo estas histórias de maneira tão careta quanto aqueles cases de sucesso em revistas de negócios.

Foto de uma das várias vezes que peguei todo o dinheiro guardado e gastei viajando em mochilão

É absolutamente impressionante como toda semana, invariavelmente, veículos tipo o“Catraca Livre” postam uma nova-velha história de um casal que largou tudo e saiu por aí. Este tipo de conteúdo é popular e emotivo na internet. O cara pode não ter nada a dizer, mas se larga tudo pra começar alguma coisa ou para viajar por aí, vai fazer sucesso na rede. Nos últimos anos, também acabei sendo um pouco produto deste tipo de história. Me formei em 2012, mas, desde então, recusei qualquer tipo de trabalho fixo ou vínculo a longo prazo pra gastar todo dinheiro que eu ganhasse como freelancer viajando. Entrei e saí de vários trabalhos e criei outras formas de me sustentar. Fui saindo sempre de todos eles com a sensação de liberdade ao sentir que não precisava daquilo e que o encontro de verdade estava na estrada ou em coisa parecida. Conheci mais de 50 cidades, fiz amigos para a vida toda e mudei minha visão de mundo. E, de fato, poucas coisas são mais prazerosas do que se demitir e se jogar por aí. Ficar íntimo de desconhecidos num albergue, pegar carona, viajar sem passagem de volta, ter um trabalho de balconista já que ‘’o diploma é coisa que a sociedade impõe’’, mostrar para os pais que a geração deles era fútil querendo carro enquanto a nossa pode viajar pela cidade de bicicleta do Itaú por 10 reais mensais. É tudo muito foda, mas, de certa forma, foi também viajando e largando tudo que percebi o quanto também esta ânsia por “liberdade” e desprendimento vai reproduzindo um clichê no qual a nossa geração se submete: a liquidez do recomeço.

Print do documentário citado no início do texto

A explicação e exemplo pode ser vista no próprio Facebook. Em todas as vezes que saí de um trabalho pra viajar e entrei no facebook esporadicamente, reparei por mero acaso, como o meu próprio Feed de notícias e a onda de assuntos temporários tinha a ver com o resto da vida ao meu redor. Em todas as vezes que viajei e observei de longe o que era falado na internet, percebi a quantidade de polêmicas e assuntos temporários que a gente replicava em cíclicos, para um ou dois dias depois, aquilo cair no completo esquecimento sem que ninguém lembrasse nada daquilo que foi dito. Uma das únicas coisas que permanece fixa no meu Feed de notícias são histórias de pessoas que recomeçaram e mudaram de vida, como se estas fossem as únicas histórias de sucesso a serem almejadas. O resto vai igualmente mudando e se reciclando de começos inexistentes. Polêmicas, conversas, virais: tudo é tão temporário e efêmero quanto nós mesmos. Menos a tal matéria do casal que largou tudo pra viajar. Ela continua sempre ali. Nos entendemos como descolados e alternativos por reproduzir uma vida cheia de recomeços, mas caímos na cilada de fazer desta transitoriedade aquilo que é eterno. A mudança é o nosso clichê.

Mês passado quatro amigos que não se conhecem vieram se queixar de seus recentes relacionamentos que terminaram exatamente pelo fantasma e pelo medo de estarem perto de começar. Semana passada recebi de alguns amigos um texto dizendo que nossa geração não queria mais comprar bens fixos como carro ou apartamento e sim experiências como viagens e diversões temporárias. Não quero aqui tentar uma explicação formal ou sociológica sobre o quanto este tipo de comportamento é fruto da pós-modernidade. Mas que seja. Do copinho descartável à impressora 3D, dos modelos de celulares trocados ano a ano ao aplicativo da semana, do trabalho flexível de terceirizado à pessoa que você pegou no Tinder: nada contra nada disso, mas é impressionante como nos sentimos livres e alternativos simplesmente por sermos efêmeros, temporários e “descolados” numa sociedade que é toda feita e estruturada para ser exatamente assim.

Tudo ao nosso redor hoje em dia é findado e formado a partir do efêmero; o trabalho tá chato, arranje outro assim como a comida congelada está ruim, jogue fora. Vamos sempre reproduzir a reportagem do Catraca Livre sobre o cara que largou tudo pra viajar porque ela vai sempre ser a representação mais fiel da nossa geração sendo exatamente aquilo que a estrutura efêmera de sociedade atual espera que ela seja.

Não quero aqui desanimar ninguém de viajar ou diminuir a força de vontade que várias pessoas, inclusive eu mesmo, já temos várias vezes para largar trabalhos e se jogarem na estrada vendo o mundo com os próprios olhos. Mas, três anos depois repetindo esta prática, aconselho que, as vezes, o que parece muito alternativo e libertário na internet pode ser simplesmente a representação fiel daquilo que nossa sociedade de eternos finais e recomeços nos impõe a fazer: largar alguma coisa e começar de novo outra. Ainda que isso siga sendo incrível e apaixonante, numa sociedade pautada pelos recomeços, também vai ser um clichê.

Muro de Berlim em 2015
Muro entre México e Estados Unidos em 2016