Expressões, pt. I

Da vitrine da loja de departamentos, Yasmin se maravilhava ao ver o celular magnífico e moderno que pretendia comprar, pensando "puta que o pariu, que coisa linda". Passaria só para dar uma olhadinha, não levaria nada. Ao menos foi o que disse ao vendedor que tentou atendê-la. Estava obcecada demais para tratá-lo bem. Quando entrou na loja, recebeu a corrente maravilhosa de ar condicionado da loja, dispensou o comerciante enquanto puxava de seu bolso o aparelho que já possuia e que, por sua vez, apresentava bons 3 anos de uso. Ele não estava funcionando perfeitamente, travara repetidas vezes e até mesmo não abria certos aplicativos. Já tinha passado da hora de trocar. 
 
Yasmin, no auge de seus 20 anos, era uma mulher alta e de constituição magra. Tinha pouco dinheiro e nenhum emprego. Era ciente sobre o quanto isso custaria, mas a vontade foi maior que ela. Aquele aparelho de 7", visor de altíssima resolução, câmera de 20mp, conexão 4G, Bluetooth, wifi e todas as outras características e penduricalhas de um telefone de última geração, incluindo, obviamente, o preço.
 
Ela, nesta altura do campeonato, já se encontrava no balcão onde eram expostos os últimos lançamentos no mercado de smartphones de diversas marcas. Era um móvel branco e reluzente, tinha um perfume mais agradável que o resto da loja e parecia ter vindo de outro mundo. Exibiam-se os celulares que eram presos aos seus devidos carregadores. Logo de cara, visualizou o aparelho que procurava. Lembrou de tê-lo visto na tevê, aquele ator gostoso que ela gostava tanto usava para tirar uma foto."Qual o nome daquele cara mesmo?", pensou Yasmin. Não lembrava mais, mas ele era bem gostoso, concluiu. O ator, por sua vez, aparecia no comercial segurando o telefone que, agora, se encontrava na mão dela. Pensou, hesitou e no final decidiu abrir a câmera, para tirar uma foto sua. "A foto há de ficar parecida com a da propaganda", pensou ela. A câmera do aparelho era fantástica, tinha ajustes de sensibilidade à luz e podia até se controlar a abertura do diafragma. Infelizmente, a máquina fotográfica não era milagreira e em nada a foto tirada agora se parecia com a do ator. Yasmin ignorou isso.
 
Pensou, novamente, no preço dele. Ponderou sobre as consequências, sobre o que suas amigas diriam sobre ele. Imaginou-as pedindo o telefone a toda hora para poderem tirar selfies. Seria demais. "Ah, que se foda. You only live once, né?" pensou ao chamar o vendedor, avisando ao mesmo que queria comprar o bendito celular. De imediato, o vendedor a passou para o setor de pagamento. 
 
Chegando lá, ela começou a ouvir gritos. O arrependimento subia seu corpo em forma de pequenos calafrios. Percebeu que suas mãos estavam suadas e que chegava a hora de pagar. Primeiro, o vendedor indicou a fila em que ela deveria entrar. O andamento era rápido e a cada centímetro que avançava, se arrependia mais e mais. Ouvia o clamor de homens e mulheres, os gritos de dor. Quando se deu conta, só havia mais uma pessoa em sua frente. "Ainda tem tempo de desistir, posso sempre deixar pra próxima", disse Yasmin, falando consigo mesma. De repente, sentiu o celular velho vibrar no bolso. Viu a pessoa que estava em sua frente entrar na salinha de pagamentos. Ouviu o toque irritante daquele dispositivo ultrapasado. O mesmo toque há três anos. O mesmo celular, que ela já decorara cada pequeno arranhão em sua tela. O mesmo aparelho que por diversas vezes tinha a deixado na mão, que se negava a abrir aplicativos de rede social e que era, em suma, obsoleto. Pesou novamente as consequências. 
 
Interrompeu seus pensamentos e percebeu que era sua vez. Um homemzinho de estatura média, que administrava as entradas e que vestia um terno de corte barato, que por sinal não lhe caía nada bem, chamou sua atenção e pediu para que prosseguisse. Agora ou nunca. Tinha chego sua hora. "Anda, Yasmin", disse a si mesma, pensando no celular novo.
 
Ao entrar na salinha de pagamentos, se deparou com duas enfermeiras e algo que mais parecia um chimpanzé vestindo uniforme de segurança, o qual mantinha o olhar fixo nela. Lá estava também, uma mulherzinha de terno fino branco, sentada atrás de uma mesa também branca, no fundo da sala. O cômodo, em si, era todo branco, e possuia nada mais que 20m^2. Nesse pequeno espaço, havia uma maca, com tiras de couro marrom pendendo pro lado. O couro dessas tiras era a única coisa que não era branca ali, o resto dos móveis, sem exceção, era branco. Havia uma estante, com livros também brancos, atrás da mesa da mulher que, agora, chamava a cliente para se sentar com ela. A mulher fez algumas perguntas rotineiras sobre a saúde de Yasmin, perguntou sobre o quão bom eram seus olhos e se os parentes tinham algum problema de visão. As respostas de tais perguntas foram consideradas satisfatórias e a negociadora deu aprovação na transferência. Só faltava, para ter posse do benquisto celular, pagar. O celular realmente custava o olho da cara.

Yasmin tinha opção de pagar sozinha ou as enfermeiras e aquele brutamontes fantasiado de segurança poderiam ajudá-la no processo. Escolheu fazer essa missão no modo solo. Pediu como ferramenta de trabalho apenas um cortador de unhas. Quando o item foi trazido por uma das enfermeiras, que trazia também uma lixa de unhas. Yasmin, em um processo curto e preciso, cortou e lixou a unha do dedo indicador. Estava pronta. Chegou a hora. Deram-lhe um avental de plástico para cobrir as roupas, pergutaram-lhe mais uma vez se ela queria mesmo fazer o procedimento sozinha. Ela conseguiria fazer isso sozinha, falou mentalmente. Levantou lentamente a mão e introduziu o dedo na cavidade ocular direita. O primeiro obstáculo que encontrou foi a artéria muscular, que subia pelo canto traseiro do olho. Sentiu como se apertasse a corda de um violão mas que esta seria feita de um material gelatinoso e aparentemente frágil. Sentindo uma dor tremenda quando forçou ainda mais o dedo, empurrando-o com a força de ambas as mãos, fazendo com que respingasse sangue pelo chão inteiro e por todo aquele avental. Ainda sim, continuou forçando o indicador, até que a ponta deste finalmente alcançou a parte traseira do olho. A dor era tremenda, mas logo, logo, passaria, pensou ela. Articulou o dedo que estava enfiado por baixo da pálpebra e deixou-o em formato de anzol, fazendo força para fora desta vez. Deu uma puxada e sentiu como se estivesse arrancando um dente de leite teimoso. Precisaria de mais um puxão decidido. Concentrou todas suas forças, tentou esquecer da dor e deu mais uma puxada final. O olho agora se encontrava pendurado em seu rosto, sendo segurado apenas pelo nervo óptico e pelas veias centrais da retina. Tinha feito uma lambança, havia sangue por toda parte. Ela urrava somente por dentro, tentando não transparecer a dor, pois ainda não tinha terminado. Percebeu que atrás dela, a enfermeira, que já assitira esse procedimento algumas vezes, oferecia-lhe uma tesoura. Assim que coloco as pernas da tesoura em volta do cordão de veias que segurava seu olho, viu a mulher à sua frente projetar-se para frente com um pequeno pote em mãos, colocando o mesmo embaixo de seu olho pendurado. Fechou a tesoura. Ao final de seu pagamento, deu o máximo para esboçar um sorriso educado. Sua compra foi finalmente paga, agora era só aproveitar o produto.


Com uma sacola na mão e tapa-olho, nossa heroina saiu da loja. Balançava a sacola, estava sorridente e não sentia mais nada, onde, um dia, estivera seu olho direito. Pensava em chegar em casa e testar os mil e um novos aplicativos que poderia baixar, o quanto ia se divertir enquanto ouvia música e conversava pela internet com as amigas. O mundo estava em alta definição, agora. Resolveu pegar o celular da caixa e tirar uma foto, pra eternizar o momento. Assim sendo, parou em uma praça próxima à loja, tirou o telefone da caixa, e ligou-o. A tela sem nenhum arranhão, que beleza. O celular inicou sem demora e Yasmin ligou a câmera, posicionou no ângulo que considerava bom e quando ia tirar a foto, passaram dois rapazes de bicicleta, um deles acelerou o pedalar e antes que ela conseguisse reagir, arrancou o recém adquirido dispositivo das mãos dela. Antes de formular um pensamento, se deu conta de que o rapaz que a roubou já estava dobrando a esquina. O último vislumbre que teve de seu novo celular foi quando ladrão sobre duas rodas virou-se para trás e acenou em direção a ela, rindo com o aparelho na mão.