O Acompanhante

Victor Bellator
Aug 28, 2017 · 9 min read

Sabe quando a gente tem plena certeza de que a escolha é errada mas, mesmo assim, vai por esse caminho? Então… Minha escolha teve nome e sobrenome: Maria Luiza Jenter.

Me lembro da primeira vez em que a vi, chegando em uma festa. Aqueles cabelos loiros brilhantes e o sorriso quente de simpatia que me derreteram o coração e, logo de primeira, me conquistaram. Ela tinha 1,70 de altura, um corpo divino. Tão bem curvada quanto a melhor estrada, a menina vinha sorrindo e olhando pro chão cheia de receio e vergonha. O jeito com que Maria caminhava pra dentro do ambiente, sendo iluminada tanto por holofotes quanto por sorrisos de observadores me deixou tentado, pra dizer o mínimo. Beleza escandalosa.

Pois bem, imaginem a cena: aquele pedacinho de céu que mais parecia ter saído de uma música do Blink-182, me olhando com seus dados olhos verdes e uma bela boca, curvada no mais cortante sorriso que já vi. Claro, minha sorte é algo memorável, então, Malu não vinha sozinha. Ao seu lado, se encontrava meu melhor amigo e irmão de outra mãe: Policarpo de Braga.

Sim, um nome um tanto quanto incomum. Eu sei. Ele também.

Conheci o Policarpo — Poli, pros íntimos — quando eu tinha 12 anos. Naquela época, nem sonhávamos com os espetaculares encantos de Luiza.

Conheci meu melhor amigo indo bater nele, ironicamente. Eu, pra variar, tinha sido tomado por um sentimento de posse que nutria por uma namorada da época. Levem em consideração que segredaram-me que ele tinha tentado roubar dela um beijo. Lógico, eu pirei e fui acertar as contas com aquele babaca.

De novo, peço que imaginem-se na minha pele: era segunda-feira pela manhã e o idiotão aqui nem café-da-manhã tinha tomado ainda. Pois bem, eis que me chega um malandro, alto e cabeludo, calçando os maiores coturnos que eu já tinha visto. A cara do magrão era coberta por acne e aquilo fazia um contraste ridículo com a pele branca que padronizava o corpo inteiro do cara. Foi em tais circunstâncias que conheci Policarpo. Nos tornamos inseparáveis desde que ele me provou não ter feito nada. Poli sempre foi bom de conversa, isso é uma das coisas que mais me impressiona nele, até hoje.

No calor do momento, fiquei solteiro e comecei a ver meu novo amigo na maioria dos dias. Passávamos inúmeras horas debatendo tudo o que era possível e foi esse um dos melhores períodos da minha vida. As idéias que me vinham na cabeça eram, em suma, novíssimas. Passei a ser, realmente, outra pessoa. Agora eu tinha algo que nunca tive antes: verdadeira lealdade.

Não há nada como ter aquela pessoa que te entende. Uma coisa é alguém que tu sabe que morreria por ti, outra, muito diferente, é alguém que tu não quer que morra de maneira nenhuma. Nunca me arrependi de nada que fiz por ele. Foi nessa bendita premissa que se resumiu nossa amizade, até aquele dia.


A belíssima e provocante loira ao lado do Poli me observava. A primeira vez que ela se afastou foi quando chamei meu amigo pra fumar um cigarro. O ato é tão simples, o ritual tão complexo. Vê-la se afastar foi como se alguém levasse meu coração batendo pra longe do corpo. Parecia-me que as veias estavam esvaziando, deixando todo o sangue e a vitalidade ir embora. Por fim, me dei conta de que queria ir atrás dela. Meu primeiro erro.

Quanto ao meu cigarro com o Polímero — outro dos apelidos geniais do meu amigo — acendemos ambos na mesma chama e começamos a conversar sobre as trivialidades do dia-a-dia. O preço que ele tinha pago na carteira de cigarro, a quantidade de cerveja que comprou e onde pegou a bebida. Evitamos o inevitável até que, enfim, o cara me soltou essa:

— Carlos, acho que a Malu não me quer mais.

Boom. Largou essa bomba, assim, sem mais nem menos. Minha fértil e despreparada mente rapidinho traçou o caminho até os lábios da tentação. Ela é tão linda. Tão perfeita. Sério, quase consegui tocar a situação, tamanha era a verossimilhança da imaginação de escritor que sempre me assombra. Contudo, meus caros, uma coisa sai em nossa cabeça, outra, bem diferente, em nossa língua. O que respondi foi:

— Braga, olha só, maninho. Deixa disso. Não vale o esforço, muito menos a preocupação. Se vocês trocaram essa ideia, - nesse exato momento, arqueei, de forma inquisidora, minha sobrancelha direita - O que suponho que tu deva ter feito, e ela não tá aqui, é porque não quer estar, man. Relaxa.

Policarpo, naquela hora, pareceu ter sido atingido por um raio. Não só o convenci com a resposta, como também li em seus olhos: hora de ir atrás de outra.

O que, de fato, me assusta aqui são duas coisas:

  1. Tinha plena certeza que ele faria isso e, partindo desse princípio, era sabido que podia ir atrás dela sem que ninguém se importasse. Alguns poderiam dizer, inclusive, que falhei como amigo e manipulei-o para fazer isso. Não é o que eu penso. Aí, entra a segunda ideia:
  2. Meu irmão caminhava em direção à algo que já foi marcado antes. Aliás, ele devia saber que isso aconteceria. Ao menos admitia a possibilidade. Eu conheço ele, vejam bem, sei que não é da índole do cara abordar garotas assim, do nada. That fucker’s up to something, concluí.

Bom, em primeiro lugar, meu coração estava em chamas. A única coisa que eu queria naquele momento era contar minha mais nova paixão pela ex-companheira do Braga pra todo mundo. Compartilhar esse sentimento tão lindo e mortífero que é o amor. Me entendam, a linha entre ter cautela e ter lealdade se prova, por repetidas vezes, tenuíssima. Nunca, em toda nossa amizade, tinha me sentido tão péssimo amigo quanto antes dessa conversa. Deixei com que meu coração levasse a melhor de mim, mas, não obstante, dei a volta por cima e agora estava bem comigo mesmo de novo. Era hora de resolver o outro problema, então.


Encontrei-a dançando uma batida grave e lenta que fazia seus belos quadris balançarem. As roupas que Malu usava se ajustavam de forma perfeita em torno de seu corpo e a posição em que estava, por incrível que pareça, favorecia ainda mais sua beleza. Aos meus singelos olhos, eram sofisticados e belos os movimentos que fazia, eu diria até graciosos. Toda beleza e poesia daquele corpo, escritos de uma maneira inconstante, imperfeita e, ainda sim, maravilhosa aos olhos. Transbordando Maria Luiza, fui em sua direção.

Logo de cara, ela me notou, virou-se em minha direção e começou a percorrer a curta distância entre nós. Apoiei as costas perto da parede onde estava e me preparei. É agora. No fundo, sei que desejei isso acontecer. Quando ela começou a se aproximar, entretanto, me dei conta de que foi um erro ter ido até ali. Meu segundo erro. Não acabaria bem. Eu não deveria ter feito isso. Aqueles belos lábios sedosos e o lindo dourado escorrendo em forma de cabelos pelo topo de sua cabeça. Tamanha perfeição não pode se destinar a alguém tão simplório quanto eu, é muita sorte. Diz-se que Deus nos faz sua semelhança, pois ela deve ser bem próxima do maioral lá em cima. A coisinha mais bonita em que já pousei meus olhos, é sério. Pois tenho visto cosa feia, tenho visto judiaria, contudo, até hoje me arrepia o sorriso daquela menina. Assim que chegou em minha frente, Maria colocou os braços em volta de meu pescoço e por um momento pensei em fraquejar. Ouvi no céu da boca o trovejar da dúvida, o raio da vontade, me tentando a falhar para com Policarpo. O sentimento foi tomando conta de mim e, no final, conseguiu o que queria. Alcançou o objetivo de todo desejo louco.

O famoso colpo di fulmine que quase matou Michael Corleone, em suma, é uma sensação eufórica e chapante que te deixa flutuando enquanto dura. Contudo, tudo o que sobe, desce e tudo o que faz efeito, passa. Eu estava louco, realmente, e a culpa era todinha da Maria. Que mulher, meus amigos. Que mulher.


É um sentimento estranho e enraivecedor quando roubam-lhe um objeto querido. Outro, muitíssimo discrepante, quando alguém que já te proporcionou carinho faz isso pra outra pessoa. Na tua frente. Com teu irmão de outra mãe. Talvez por esse pensamento — ou por pensar demais — , talvez também por intervenção divina, o que se sucedeu foi algo inesperado e frustrante:

Alguém, não se sabe o nome dessa pessoa nem quem ela é, apareceu no caminho de todos os meus pensamentos. Um rapaz pouco bonito, que colocou a mão na cintura de Malu e a puxou, em uma só batida da música que tocava ao fundo. Roubando primeiro meu ar, depois a dama, o cara forçou os lábios nojentos dele nos lindos e carnudos dela. Acabando com meu mundo. Conquistando o sorriso mais sincero que vi Maria dar na noite. Óbvio, eu só queria matar aquele cara. Desejava dizer pra ele o porquê daquilo não ter sido certo e com quem diabos ele tinha mexendo. Mas, com um sorriso a contragosto, me dei conta de que ali eu era o acompanhante de Policarpo. Nada mais. Encostado em minha parede, afundei tal qual o Titânic em um gélido e melancólico oceano de decepções e expectativas. O gosto desse afogamento sentimental era amargo e doentio. Perdi.

Maria Luiza devia ter tido a mesma ideia de matar aquele cara, ou, ao menos, devia ter lido minha mente. Me lembro da expressão de vergonha no rosto dela depois de ter presenteado o desconhecido com o sorriso. Recordo da retração pós-beijo dela e do giro que o mundo deu quando, como quem não quer nada, dei meia-volta, peguei meu melhor amigo pelo braço, arrancado-o dos lábios de alguma desconhecida e levei-nos de volta para casa.

No caminho, passei mal. Talvez por conta do excesso de bebida, talvez por excesso de outras drogas mais perigosas. O veneno destilado no sorriso daquela linda mulher. O doce néctar imaginário do beijo que me foi roubado e o verdadeiro gosto de bile subindo pela boca.


Os primeiros passos para fora da festa foram os mais difíceis. De novo, sentia como se o sangue fosse sugado de minhas veias. Meu corpo amolecia a medida em que eu caminhava — em ziguezague, é claro. Quando chegamos na esquina, regurgitei ao lembrar daqueles lábios imundos que roubaram-me o beijo de uma vida. Talvez eu tenha tido a vã esperança de vomitar memórias, porém, mais pareceu restos de comida embebidos em álcool do que algo que realmente me ajudasse a esquecê-la.

Policarpo — também descontente com a outra — cuidou de mim, demonstrando mais uma vez que lealdade é via de duas mãos. Comprimiram-se as horas e pouco me lembro depois de expelir todo álcool que sobrou em meu estômago.

Caminhar a distância para minha casa foi de penoso até quase impossível. Demorei por volta de 2h num caminho de 30min.

O caminho todo, fui ouvindo um relato de um triste e magoado Policarpo. Machucado pela decepção, amargo pela falta de companhia, ele falava de injustiças e desgraças. Mal sabia ele, coitado. Minha mente dava flashes do que acontecia. Claro que não caberia a mim, no estado mental em que encontrava-me, contar minha história, então, só ouvi.

O tão querido e quase vizinho Policarpo de Braga acompanhou um emporcalhado e bêbado eu até o portão de minha casa. Entrei cambaleando e cheguei consciente em meu quarto por ajuda divina. Lembro-me de deitar em minha cama e cuspir aquele nome maldito uma última vez, pedindo uma segunda chance. Não recebi.


No outro dia, me levantei antes do meio-dia. Com a cabeça limpa como um assobio, contabilizei a noite passada e, de verdade, não vi nada de tão ruim. Nada que lembrasse, ao menos. Se Maria Luiza foi como um sopro de vida, fui tal qual um furacão. O tempo passa e a ferida sara. O corte fecha. A paixão some.

Apesar de toda lealdade, toda vez em que fecho os olhos, vejo Malu na minha frente. Sinto seus braços em meu pescoço e por uma fração de segundo, meu mundo é perfeito. Talvez, aqui esteja meu terceiro erro.

Abro os olhos toda manhã desde então e o sentimento é vazio, desesperador e muito ruim. Nunca mais vou tocá-la. Ela terá outros homens, terei outras mulheres e isso passará. Sei disso. Porém, constantemente coisas são mais fáceis ao serem ditas do que ao serem feitas. Vou dormir feliz pelo alívio, acordo triste pelo desconcerto. Mais um dia se passa e sei que, quando chegar a manhã seguinte, meu primeiro pensamento vai ser: sonhei com Malu, de novo.

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Victor Bellator
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