Eu sei o que você pensa sobre o museu que queima
E sobre o Bolsonaro, e sobre o Lula, e sobre o quanto se importa com um refugiado venezuelano

Que as labaredas consumindo o Museu Nacional são resultado da ineficiência corrupta do baronato político; que Marielle Franco foi assassinada brutalmente com claríssimas motivações políticas; que o candidato Jair Bolsonaro atenta contra o bom senso e a dignidade humana. Quem tentamos convencer?
Motivados pelas notícias negativas que invadem nossos aparatos digitais, nós, seres sociais e arautos da nova moral, temos o ímpeto de compartilhar da indignação travestida de obviedades. São recorrentes os sensos comuns que permeiam o noticiário consumido e, ávidos pela aprovação cultural de nichos mínimos de internautas que pensam ridiculamente igual – agradeça aos algoritmos –, pontuamos obviedades para quem pensa o óbvio. A conta é simples: se você, leitor, compactua com os ideários antilulistas, por exemplo, seu círculo social – e isso, até mesmo, fora da internet – será majoritariamente composto de eleitores com posicionamentos políticos parecidos com o seu. Se é advogado, os protagonistas do seu feed terão OAB; se for artista, DRT, dívidas e um violão.
As redes sociais são um espelho triste daquilo que queremos parecer. Sob a nossa melhor foto, que ilustra as páginas onde opinamos sobre tudo sem sabermos sobre nada, procuramos a aprovação dos congruentes e habitantes de mesmos nichos e vertentes; mesmos pensamentos; mesmas convicções. A necessidade de se mostrar indignado com aquilo que a corrente acredita, assim como de ocupar os mesmos ambientes e vivência atrás de aprovação fantasiada de like, ulula no solitário limbo do big data.
Inseguros e dependentes, nunca quisemos parecer tão seguros de nós, nossas atitudes e pensamentos, corroborados por cópias ideológicas do seu ser. A necessidade de aparecer altivo e presente ignora as vertentes de tempos solitários, que paradoxalmente ignoram a solitude, e exalam egoísmos e masturbações mentais e estéticas do próprio ego. O medo de ser esquecido ou indiferente àquilo que seu círculo de amiguinhos pensa ou da forma que age assusta, o que é inerente do ser humano. Porém, o sentimento de despertencimento, causado pela inerente presença da morte, provocava nos tementes o ímpeto de fazer, de fato, algo para marcar seu nome na história. Sejam pinturas rupestres para mostrar um cotidiano banal, estudado milhões de anos depois; ou sonetos ou sinfonias; ou estudos e atividade militante. Agimos, reproduzimo-nos, escrevemos, trabalhamos, pintamos, vivemos para propagar, e esquecer, nossa própria finitude – e que sejamos memoráveis, pelo menos para aqueles que, aparentemente, se importam.
Nunca estivemos tão sozinhos, enquanto valorizamos a desnecessidade de vivermos juntos e, ao mesmo tempo, não sabemos valorizar a solidão. Nossos pensamentos, antes reclusos ao nosso próprio crescimento, têm de ser aprovados por um grupelho unânime de júris corroborantes. Enquanto isso, valorizamos nosso próprio ego em detrimento ao mais belo do ser humano: o amor.
Demonstrar amor e sentimentos, principalmente a paúra e a dor, é visto como fraqueza. A ‘arte’ contemporânea exalta a autossuficiência e a desimportância de se amar – coberta com afinco pelos stories em baladas e selfies escondidas por maquiagem: eu estou bem. As relações românticas são ultrapassadas, o sexo virou uma punheta a dois e o egocentrismo permeia os valores de uma sociedade só e doente. Qualquer ato de doçura e desapego, caridades e empatias, tem de ser público, buscando a aprovação burra daqueles que, como você, tem medo. Qualquer felicidade momentânea tem de carregar embaixo dela comentários e curtidas confirmando o quão vazia ela não é.
A indignação, assim como a felicidade, segue cartilhas: qualquer coisa que fuja à fórmula e tribunal das redes não é valorizada. Mostre-se triste, leitor, por conta de martírios seus, e não coletivos, em uma das redes: é das experiências mais incongruentes com o ambiente esbelto e perfeito.
Enquanto isso, a vida queima entre as paredes de um museu de grandes – e passageiras – novidades, com duração de 24 horas numa bolinha no aplicativo. O museu será esquecido.
