Triste ocaso

O último gole de Romanée-Conti

O pescoço era envolto pela bandeira do Brasil que inventou. A voz acuada que, de tempos em tempos, dava tom à rouca indignação compunha um Lula ido. Traído pelos fatos, a tristeza de um ícone passado era assistida por procuradores, advogados e um juiz.

O ocaso pleno do líder sindical que se tornou presidente do Brasil – aquele que tem até a quarta série primária, nasceu em um município pobre de Pernambuco e motivou multidões em torno de um país mais justo – é assistido por sabujos de lá e cá. Os fatos, muito menos passíveis de paixão ou politicagem, derrubam Lula de um pedestal que armou com a fala dura aquecida pelo conhaque em cima de carros de som, ou de discursos na ONU. Não comemoro como sabidos analistas o fracasso em contrapor argumentos, as contradições caídas, a ignorância conveniente e o desespero traduzido em goles nervosos numa garrafinha d’água e na inquietude com a qual Lula tocava os papéis de seu processo. Vejo, com tristeza, a fragilidade de um presidente caído.

Vejo um submisso poderoso chamar procuradores de ‘senhor’ e ser rebaixado a réu da própria história, cair nas graças de empreiteiros travestidos de corretores de imóveis e condenar a falecida esposa a investidora do mercado imobiliário. Lula vestiu a carapuça da ex-primeira dama fluminense Adriana Ancelmo ─ não sabia com quem o cônjuge deleitava ilegalidades e, apenas, desfrutava das benesses que, infantil e ingenuamente, criam vir das rendas dos poderosos Sérgio Cabral e Marisa Letícia.

Um afago de Léo Pinheiro macula o vermelho-sangue que emoldura a estrela outrora brilhante numa das mais sutis ─ criminosa, mas pueril perto das outras acusações ─ denúncias contra o petista na Lava Jato. “Lula lá” no esquecimento de quem viu no sindicalista um Brasil diferente. A alma mais pura do país assombra a carapuça que dorme em um quarto num tríplex qualquer.

Maculada a imagem do presidente dos pobres, Lula, que não sabia o que era Romanée-Conti, já não sabe se nunca bebeu o champanhe com Renato Duque, não sabia dos escândalos na Petrobras sob seu nariz ou de qualquer ilegalidade de parlamentares e diretores que vestiam o 13. Sem qualquer influência nas entranhas do PT, brada-se candidato perseguido antes das prévias. Crê em fábulas, em dilmas, em dirceus e vaccaris. Vice-presidente do Brasil desenhado por João Santana, com regência fina de Marcelo Odebrecht e governado pelo patriarca risonho, o pernambucano que não podia ir à praia afoga-se nas próprias contradições.

De Lula fica a imagem do homem que enganou carentes de luz no nordeste, que motivou afagos de intelectuais de gabinete e o tombo do anjo enterrado em três andares da Enseada.