A canoa de Gustavo Fruet

Quando a proa aponta para baixo, a canoa vai ao fundo.

Somadas as intenções de votos de todos os outros candidatos, Gustavo Fruet não ultrapassaria seu principal rival na corrida para se manter na Prefeitura de Curitiba em 2016. Rafael Greca, ex-prefeito de Curitiba, disparou em relação à última pesquisa, realizada há aproximadamente um mês, quando tinha 28% das intenções de voto, o que representa alta de 17 pontos percentuais. Gustavo Fruet caiu de 19% para 16%.

Gustavo Fruet leu mal o curitibano, e não contará com os dois candidatos se engalfinhando pela vaga no segundo turno, como ocorreu nas eleições passadas. Mais do que má sorte, essa revelada ingratidão curitibana por Guga é fruto da sua própria falta de habilidade política, escolhas erradas, e inaptidão para o cargo que ocupa. Gustavo Fruet foi o deputado federal mais admirado da capital, eleito pela primeira vez em 1998, chegou à segunda reeleição para a Câmara dos Deputados em 2006 com mais de 210 mil votos. Com a fama de sub-relator de movimentações financeiras da CPMI dos Correios, que deu início ao famoso processo do mensalão, concedeu entrevistas ao Jô Soares, participou do Roda-Viva, orgulhou os curitibanos com a retórica anti-PT, tudo para em 2012… fazer aliança com o PT para a prefeitura de Curitiba; numa eleição que sairia vencedor mesmo sem o apoio do partido que hoje tem vergonha de si mesmo.

Do ponto de vista estratégico, o namoro do PT com Gustavo Fruet foi um desastre. A inexistente vice-prefeita Miriam Gonçalves sempre esteve de prontidão nos piquetes grevistas dos funcionários públicos municipais, plantou a discórdia que hoje Gustavo Fruet colhe junto aos funcionários do município. E pior: mesmo depois de ‘desembarcar’ de Gustavo Fruet, os indicados do PT ainda mantêm seus cargos comissionados em secretarias, como a Saúde e Cultura, mais preocupados com as candidaturas dos vereadores que prometem apoiar. Se leu, não aprendeu as lições do “Príncipe” de Maquiavel.

O fraco arranjo partidário redundou numa coligação que reúne somente 9, dos 38 vereadores da capital. Um ajuste que deu à candidata Maria Vitoria, com 6% das intenções de voto, o maior tempo de TV na propaganda eleitoral gratuita. Digamos que os ajustes nas eleições municipais de 2016 sofreram a influência das pretensões ao Palácio Iguaçu, 2018. Pode até ser, mas há mais coisa entalada na garganta do curitibano. Essa indigestão é fruto e obra direta de Gustavo Fruet.

Podemos admitir que Gustavo Fruet tenha mais aderência na periferia do que tinha em 2012, por outro lado, é inegável que sua gestão foi um desastre para o curitibano médio. Da implementação das “vias calmas” às “ciclo faixas”, das “vagas vivas” ao conceito engraçadinho de atendimento nas redes sociais, toda essa perfumaria pseudo cool que se borrifou na Prefeitura de Curitiba causa úlcera na faixa da população que forma a opinião pública da Capital.

Não por acaso, todo esse confete moderninho, que não ajuda nada e ninguém, é jogado justamente na porção da população que se distribui no entorno dos prédios situados no eixo central, entre os terminais do Campina do Siqueira, Centro e Cabral. As marquises do comércio são albergues ao ar livre. O trânsito está caótico. O prédios vandalizados. Contra o monopólio dos taxistas, e a favor da classe media, nem o UBER o prefeito foi capaz de defender, o que lhe renderia uma ótima propaganda política a favor do transporte público e melhoria do tráfego da cidade, que está pior que São Paulo. A bicicleta sim tem defesas apaixonadas, até um tenebroso esqueleto adornando a entrada do prédio municipal na Avenida Cândido de Abreu.

A parcela da população que foi às ruas pedindo o impeachmant de Dilma Rousseff (mais ou menos 120 mil Curitibanos), que em inúmeras oportunidades lotou a Avenida Anita Garibaldi em frente à Justiça Federal, e que nunca votou no PT ou partidos de esquerda, notou a ausência de Gustavo nas manifestações. Aliás, notou também quando Gustavo Fruet assinou a carta de prefeitos contra o impeachment. O pessoal da “prefs” nas redes sociais falhou em não apontar o trending. Estava mais preocupado em fazer memes de capivara.

Em todo esse ensaio atrapalhado de Gustavo Fruet a cereja do bolo ficou por conta do marketing negativo da sua campanha. Na propaganda política veiculada na TV durante o horário eleitoral, Gustavo Fruet aparece como o fiel representante da “República de Curitiba”, onde imagens das manifestações — que ele mesmo nunca foi — aparecem aos montes, enaltecendo justamente o caráter da população que ignorou durante seu mandato. Nos grupos de WhatsApp e posts de Facebook notou-se o carinho da galera. No mais, Gustavo Fruet é pautado pelas acusações de seus adversários, sempre responsivo e nunca propositivo. Se fez a lição de casa arrumando as contas da prefeitura, é possível que outro eleitorável usufrua seu legado na gestão financeira do município. Plantou na horta do vizinho.

Um prefeito honesto, um passado vencedor. Um candidato fraco, um presente ruim. Duas semanas para levantar a proa é pouco. A canoa de Gustavo Fruet está enchendo d’agua.