Militância na lona — a falsa polêmica em torno de Ronda Rousey.

Texto publicado originalmente em agosto de 2015 no blog http://www.margaretes.com.br/militancia-na-lona/

Posso dizer que tenho a experiência de quem pratica artes marciais há mais de 15 anos e nutre uma paixão pelos esportes de luta.

Nas artes marciais modernas, ensinadas em inúmeras academias ocidentais, a diferença de gênero (homem ou mulher) obedece um código moral tácito, que respeita a individualidade do atleta considerando suas limitações e características pessoais, sem cair na esparrela feminista. Em qualquer academia de artes marciais, a relação esportiva entre homens e mulheres não é diferente da relação entre dois homens ou entre duas mulheres, com aquela pequena e fundamental ressalva: o limite é a individualidade.

É justamente no campo das lutas marciais que a individualidade das pessoas insiste, treino após treino, em bagunçar o coreto das classificações embaladas pela militância de gênero.

Os exemplos são inúmeros: não consegue acompanhar o aquecimento?Tudo bem, pega leve no começo. Já treina faz tempo? Ótimo! Você é o seu limite — dizem os treinadores. Exagerou na força, ou desrespeitou alguém fisicamente mais vulnerável? No próximo “rola” ou “round” você vai encarar alguém mais experiente, para ser colocado novamente em seu lugar. É a regra geral, e isso acontece no treino dos homens, nos treinos das mulheres e nos treinos mistos, não depende do sexo. Muitos homens são finalizados por mulheres. Outros mais ficam com o olho roxo depois de participar de um treino feminino profissional. É comum e acontece todo dia.

O quebra cabeça ideológico fica mais desarranjado quando astros das artes marciais desafiam a cabeça “2+2=4” da militância de gênero. O mais recente exemplo da exposição humilhante da galera “papo cabeça” foi a entrevista concedida por Ronda Rousey, atual campeã do UFC. Perguntada pela jornalista se ela se achava sub-remunerada em relação ao maior e mais bem remunerado lutador de boxe da história Floyd Mayweather –comparação obviamente esdrúxula–,Ronda respondeu que estava “feliz e confortável” com a retribuição pelo seu trabalho e que, quando tivesse mais de 50 lutas provavelmente sua remuneração seria idêntica, em que pese sua bolsa ser hoje superior à 85% dos homens lutadores do UFC. O vídeo já foi visto por mais de 500 mil pessoas: https://www.youtube.com/watch?v=B2rVl30_doE

Simples e objetivo.

Em outro comentário respondeu que apesar de homens e mulheres terem as mesmas condições no UFC, seria uma ideia estúpida colocar mulheres para lutar contra homens.Não é difícil entender. É claro que para a militância organizada pouco interessa a opinião de Ronda. Para o feminismo infantil, a saída mais adequada para Ronda Rousey seria defender a bandeira da igualdade rasteira, à exemplo de suas congêneres de Hollywood.

Obviamente que Ronda é um fenômeno, e sua remuneração obedece ao interesse das pessoas em vê-la nocauteando mais e mais desafiantes, da forma mais espetacular possível. “É a economia estúpido”, diria o canastrão feminista Bill Clinton.

Se formos observar dados objetivos a coisa fica ainda mais desfavorável para a militância organizada. Somados os tempos das últimas 05 lutas, Ronda é a melhor profissional remunerada na história do MMA por minuto de luta. Ela finalizou suas adversárias entre os 14 segundos e 1º minuto do primeiro round. Se cedêssemos à comparação imbecil do feminismo histérico, e confrontássemos com as lutas masculinas, as duas últimas disputas de cinturão dos homens (que consagraram os campeões Robie Lawler e TJ Dillashaw) duraram 7 rounds, 45 minutos de luta, e saldo de 3 narizes quebrados. Nesse caso é pior ser homem do que ser Ronda Rousey. Mais uma vez os dados objetivos não importam para a militância organizada.

Alheio a todos esses fatores, pululam nos portais e blogs as reivindicações de igualdade sem qualquer compromisso com os fatos. Não acredita em mim? Sem problema, sugiro aos curiosos que visitem qualquer academia de artes marciais e vejam como funciona a dinâmica do respeito à individualidade, sem essa chatice da igualdade à qualquer custo.

Termino o texto com o recado de Bec Rawling, atleta do UFC ofendida nas redes sociais por feministas que atacavam seu método de criar os filhos, e a julgavam por postar fotos de calcinha –a velha falácia da “objetificação da mulher”–: “Eu não sou oprimida. As únicas pessoas que me oprimem são as feministas que me julgam e querem que eu concorde com a sua filosofia. Eu acredito em direitos humanos para todos. Meus garotos não são monstros, eu não sou uma mãe ruim porque não gosto de calças, eu não estou sendo objetificada porque não sou fraca. Eu tomo minhas próprias escolhas e faço o que eu quero porque sou livre”. Na foto publicada em seu Instagram, Bec Rawling segurava um cartaz com os dizeres “FUCK FEMINISM. I BELIEVE IN HUMANS RIGHTS… FOR ALL”. Oss!

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