Trump é Punk!

Victor Domingues
Aug 25, 2017 · 4 min read

Em outro contexto, os intelectuais de esquerda vibrariam com qualquer personalidade política fora dos padrões considerados normais, os “outsiders” do sistema. Aqueles tipos que ultrapassam a linha usual do convencionalismo, que constrangem o padrão comum, e não perfilam a tradição do beija-mão, hábito recorrente na política de arranjos.

A irreverência daqueles que rejeitam valores e práticas culturais dominantes, especialmente no ambiente político formal, sempre foi incensada diante do altar da militância. De tempos pra cá, a coisa mudou. E muito. O comportamento punk rock da ala subversiva, que por tempos caracterizou o lado militante da política ideológica, foi completamente submetido ao patrulhamento de um sem fim de mini grupos de pressão.

Hoje, o político profissional não pode se desviar da cartilha. Pela desobediência dessa bajulação cordial, qualquer político é confrontado por “coletivos" muito bem articulados. Quando esse político profissional apresenta qualquer comportamento fora das expectativas de grupelhos militantes, acabam vez ou outra sendo colocados numa saia justa, e infinitamente acusados daqueles bordões típicos do justiçamento virtual (vejam os exemplos aqui, aqui e aqui). Como o discurso está cada vez mais quadrado, é raro encontrar no ambiente político profissional quem ouse falar o que pensa. Quiçá fugir do padrão esperado pelas claques de plantão. A narrativa política se esgueira por armadilhas do politicamente correto, desviando aqui e acolá da censura ‘social’.

Não há como acusar Donald Trump desse cordeirismo. Ao contrário de seu antecessor, Trump não segue padrões e expectativas. Não modula o discurso para esse ou aquele grupo de pressão. Para os insatisfeitos dentro da sua própria equipe ele já demonstrou o caminho da rua. Os 140 caracteres do twitter fazem as vezes da carta de demissão.

Aliás, o uso de seu twitter como principal plataforma de comunicação implodiu com qualquer filtragem feita pela mídia tradicional. Trump fala o que quer. Usa a carapuça quem quiser. Seu estilo “all in” causa histeria na mídia tradicional.

A comunicação de Donald Trump é direta, sem intermediários, acerta frontalmente o público-alvo, contra e a favor. Não raras vezes os veículos de mídia ficam embaraçados quando percebem que a opinião popular repudia o “politness talk”. A mesma mídia que se surpreende quando o cidadão médio vibra com a ausência de bom mocismo por parte de Donald Trump (nesse vídeo veja o segundo 0:35). Trump não é nada convencional quando o assunto é comunicação. E isso já foi observado por personalidades igualmente não convencionais, como John Joseph Lydon, ou Johnny Rotten para os amantes do punk rock.

Johnny Rotten, vocalista do Sex Pistols, afirmou que a voz da classe trabalhadora está ao lado de Donald Trump, logo, Rotten não poderia deixar de estar ao lado deles. Rotten, que apoiou o Brexit, e recentemente conseguiu a cidadania americana, afirmou que o problema americano é “a mídia esquerdista, que afirma que Donald Trump é racista, o que definitivamente não é verdade(…) ele aterroriza os políticos e isso me deixa feliz”.

a partir do 1:10

Em seis meses as medidas adotadas por Donald Trump foram responsáveis pelo boom na geração de empregos nos Estados Unidos. Muito mais do que a emulação de “progresso” da classe trabalhadora do Partido Democrata. Por isso nada mais faz sentido para a mídia tradicional. Acostumados com a sujeição bovina de políticos considerados “ok”, o padrão cultural então estabelecido pela ideologia política da esquerda está enlouquecido. Daí que os canais tradicionais não se importam mais em promover ficções travestidas de matéria jornalística.

O escrutínio da internet demonstra isso em quase todos as redes sociais dos jornalões. Os comentários nos portais de notícia refletem o que os articulistas sempre tiverem receio em admitir: as pessoas comuns são isso mesmo, pessoas comuns. A maioria delas tem ocupações triviais do dia-a-dia e não estão realmente preocupadas em saber das infinitas qualificações sexuais sugeridas pelo coletivo x, y ou z. Ou das “micro agressões” que devem ser evitadas com utilização de palavras tais e “quetais”. A quantidade de pautas sociais aumenta na medida inversa da paciência das pessoas.

Nada disso estimula a solidariedade coletiva em prol das causas sociais. A falta de autocrítica e a bolha social para onde imergiram justiceiros sociais de toda natureza impedem a autoanálise sólida de suas falhas. Rapidamente a mídia engajada encontrou o bode expiatório perfeito: o homem médio.

Donald Trump sabe disso. Seu discurso canaliza um sem fim de pessoas comuns, que estão cheias do “melhormundismo” da mídia tradicional.

O progressismo americano virou o “default”. Quem não se enquadra na cartilha, como Donald Trump, deve ser colocado pra fora do establishment tradicional, palavra outrora rejeitada pela esquerda. Paul Joseph Watson já disse: o conservadorismo é a nova contracultura (veja aqui). A contracultura rejeita as práticas da cultura padrão.

Daí que o comportamento pouco convencional de Donald Trump, sua extravagância comunicativa, sua verve muitas vezes carnavalesca, encontre eco numa parcela significativa da população que busca algo que lhes pareça fora do senso comum sem, no entanto, ferir suas próprias convicções pessoais. Johnny Rotten seria muito bem endossado por outro Johnny, o Ramone: “os conservadores passam muito tempo se defendendo.” Trump definitivamente não se defende, ataca! Trump é Punk!

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    Victor Domingues

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    Política, essa ingrata.

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