Autofellatio sobre 13 Reasons Why

Escrever sobre 13 Reasons Why é uma empreitada problemática. Não só porque faz um puta tempo desde que assisti, mas porque todo mundo já falou dela. Claro, vivemos numa era onde todo mundo tem opinião pra literalmente tudo, e onde a ausência de uma opinião formada acaba criando uma simbiose com outros preconceitos e narrativas para criar uma opinião que não precisava existir. Mas ainda assim, decidi fazer, porque faz tempo que não escrevo, e preciso relaxar. É um texto masturbatório, e não uma resenha, então recomendo assistir a série inteira, porque vou falar até do último episódio.

Eu nem tinha visto o trailer dessa série, e fiquei bem curioso quando vi que Selena Gomez era uma das produtoras. Eu não sabia o que esperar, e no fim das contas, me interessei pela atmosfera de colegial. Eu ainda sinto uma grande nostalgia por Gossip Girl e The O.C., então a odisseia de Hannah Baker me cativou de primeira.

Primeiramente, gostaria de destacar que gostei bastante da construção de algumas personagens. Clay, o protagonista, é uma Mary Sue com uma cara constante de choro, que vive em cima de um palanque moral e só serve para pilotar a trama. Ele é fã de música indie, meio geek, meio tímido, meio tudo, mas a única coisa que ele consegue ser inteiro é um pé no saco. Já Hannah é um apogeu ilustrativo de frustração adolescente: ela sofre com problemas gravíssimos, como o trauma de ser responsável pela morte de alguém, os estupros, as constantes humilhações e a dificuldade em lidar com os próprios equilíbrios emocionais, mas ela também dramatiza os pequenos problemas, como o que teve com Zach. No fim das contas, as 13 fitas são um grande “vai se foder” para todos que ela queria punir com sua morte. É mais do que isso, e pretendo falar das ações dela depois.

Mas devo confessar que minha personagem favorita na série é o grande babaca Bryce. Sim, o cara que humilha, bate, estupra e mente é meu favorito, mas não em termos de caráter, obviamente. O que me agrada nele é justamente a natureza dele como personagem. Apesar de ser o principal “vilão”, a mentalidade dele é a de um garoto. A diferença é que ele consome uma cultura machista que normaliza as coisas que ele faz, e é aí que ele fica divertido: quando Clay se senta na poltrona depois de levar uns socos, Bryce simplesmente diz “respeito”. É engraçado porque, para o valentão, aguentar porradas e ter aquele tipo de coragem é o que faz Clay merecer respeito. Na verdade, Clay já era respeitado só por ser homem. Da mesma forma, Justin era respeitado e querido por Bryce, que olhava para seu amado com uma tristeza abissal quando o destino os separou. Bryce é um dos meus retratos favoritos de uma cultura mais do que comum, e é incrível como esse mero coadjuvante é uma das personagens mais bem escritas da série.

Mas o que mais se falou de 13 Reasons Why, logo após seu lançamento, foi sobre a forma insensível como trataram suicídio. Eu poderia comparar a outras obras que tratam de suicídio, como o excelente filme japonês Suicide Club, ou mesmo dizer que essa atenção foi dada à série porque vivemos numa era onde as redes sociais amplificam qualquer opinião estabelecida em textos e discussões cíclicas, mas só digo que a cena do suicídio de Hannah foi uma das mais sensíveis que eu já vi. Não porque ela serve como um CVV, mas porque a atuação e a construção do episódio mostram exatamente o que Hannah queria fazer com as pessoas que ouviam as fitas: chocar. É fácil e divertido assistir uma série bem produzida com romance e humor, e até esquecemos que o tema do seriado é outro, mas no fim das contas, suicídio é uma coisa feia (pelo menos para os roteiristas de 13 Reasons Why), e matar a personagem desse jeito desconcertante pareceu uma maneira razoável de ilustrar isso.

Além do mais, se você realmente está pensando em se matar, e decidiu assistir uma série sobre uma garota que se mata e usa fitas cassete para torturar as pessoas que a machucaram, talvez você já esteja com a faca e o pulso na mão mesmo.

Eu posso ter esquecido de falar sobre várias coisas, mas isso não é uma resenha, nem uma análise. É só uma masturbação verbal. Agora que ejaculei todas as palavras, estou satisfeito com o fato de ter escrito alguma coisa sobre 13 Reasons Why, ainda mais agora que todo mundo já esqueceu que ela existe.

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