“As palavras voam, os escritos permanecem”— mesmo que ao esquecimento
Uma justificativa engasgada para gritar em meio as barreiras do desinteresse
O termo “Verba volant, scripta manent”, que utilizo no título, consegue me remeter a dois desprazeres: o uso desnecessário do latim e a carta de Temer em 2015.
Não há dúvidas de que tudo que fazemos na rede produz volumes inimagináveis de data, e que essa mesma informação — estruturada ou não — foge ao mais importante peso narrativo: a intencionalidade. Com advento da tecnologia de informação como a compreendemos hoje, não há mais palavras que voam, tudo permanece.
É por temer o quanto de grafia não estruturada e irrelevante que deixo a disposição dos imensos e assustadores algorítimos, que busco aqui, mesmo que a ninguém interessa, produzir uma grafia intencional, estruturada e propositiva por meio da mais ocidental e eurocentrada forma de validação: a cultura escrita.
Se para Caio Tito e os romanos a escrita é conclusiva por ser uma maneira de assegurar a hereditariedade do conteúdo, atualmente a escrita se faz conclusiva para assegurar e reivindicar a autonomia e controle dessa produção. Por mais distantes que possam parecer o data e a grafia, permito-me a esta analogia pra lá de Huxleyana.
Mas deixando de lado desculpas esfarrapadas para escrever, me contentarei em divagar sobre o uso da escrita e suas implicações.
Não é por nada que na forma escrita delegue-se tanto valor, assim como não é por nada que no Ocidente exista tamanho desinteresse pela tradição oral ameríndia: o entendimento técnico-científico vigente valida a ciência perante apenas o valor ocidental, e o faz com o claro objetivo de esfriar nossa produção de conhecimento e afastar qualquer emoção ou sentimento que denuncie o, mesmo assim existente, enviesamento autoral.
Foi por uma clara necessidade do positivismo em distanciar o pesquisador de seu objeto e de legitimar enquanto verdade maior e única seus resultados que o ocidente bebeu tanto dessa fonte. A oralidade foi relegada e seu conteúdo visto como apenas tradição, folclore e superstição — e apenas deixando de ser, quando presente em monografias e dissertações da academia.
É por entender que ao escolher uma ferramenta em detrimento de outra tomo uma decisão política que demorei tanto para optar ao formato tão ingrato e desgraçado que é a escrita: ao mesmo tempo que um dos únicos canais audíveis, o maior algoz da transmissão oral.
A oralidade denota rancor. Herda, por vezes,a narrativa do vencido, que estaria fadada a ser sufocada pela perspectiva do vencedor. A oralidade denota local de fala, propriedade e agência; denota efervescência.
Se a forma que conhecemos o mundo condiciona a forma que o habitamos, a forma que transmitimos este conhecimento também o faz. E é de tanto temer uma ciência quente, pungente e crítica que validamos tanto o que é escrito e invalidamos quase por completo o que nos é dito: as palavras voam, os escritos permanecem.
