Eleição de 2018 — A eleição antecipada e a verdadeira
Com a impossiblidade de Lula concorrer no retrovisor, fica cada vez mais aberto o cenário para a eleição de 2018. As chances de Bolsonaro, Doria, Marina, Ciro, Alckmin e algum candidato eventual do PT se embaralham em ume cenário de indefinição para a migração de votos. Nesse sentido, parece-me que a eleição se dará entre uma máquina partidária forte e um personagem contra-hegemônico. O que aponta em uma direção: Alckmin é o principal nome para 2018.
Diante das denúncias da Lava-Jato, de uma crise econômica quase ingovernável e de uma crise política escabrosa, nesse momento, é travada uma falsa eleição. Eleição falsa, porque nada será votado em 2017. Lula, com a intenção de se projetar e de constranger qualquer decisão jurídica, faz campanha e é combatido por Doria, o simulacro de “outsider” que o PSDB arranjou. O interessante nessa oposição é que ela é alternável. Lula tanto pode vestir a camisa do status quo, ex-presidente, bom trânsito pelo PMDB, defende o próprio legado, quanto a camisa do outsider perseguido político, discurso do golpe, perseguido pela justiça, candidato da classe trabalhadora. O mesmo pode ser dito sobre Doria, eventual candidato do maior partido do país, com a maior máquina, mas, ao mesmo tempo, o “joão trabalhador”, que “não é político”.
O problema é que acredito em um jogo com a eventual figura de Doria. É muito difícil que o dono atual da máquina do PSDB paulista, maior do país, dê a candidatura de mãos beijadas para sua criatura. Alckmin olhou para Marina e percebeu que o melhor agora é usar o peão, insuflar o balão, para fazer com que ele estoure sozinho. Não esqueçamos que o PSDB sempre foi um partido de cacique. Seria inédito entregar a maior máquina eleitoral do país atual na mão de Doria e acredito que boa parte da imprensa tucana já percebeu isso. O nome de Alckmin desapareceu dos noticiários. Não há menção a ele, uma estratégia recorrente na carreira do médico, que sempre se coloca como uma opção racional, pacífica de alguma continuidade. Doria então parece não perceber, mas dificilmente será candidato a presidente pelo PSDB. Já a estratégia de Alckmin parece bem razoável: não parecer péssimo aos olhos de ninguém e deixar que sua grande máquina faça o resto. Ganha em São Paulo e Minas, no Sul, anula uma coça no Rio. Seu principal desafio é o Nordeste. Sem Lula, o sarrafo diminui bastante por lá.
Bolsonaro é um fenômeno incontrolável, tanto pela direita liberal, quanto pela esquerda militante. Suas sandices não resistem à lógica e nem à análise minuciosa de sua biografia, mas três fatores jogam a favor: a pouca memória do país sobre o período militar, a sensação de violência ingovernável, sempre crescente, e o cansaço com o sistema político podre. Nesse sentido, pode acontecer um fenômeno assustador. Existem, porém, dois gargalos significativos: a escassez do financiamento inicial e a falta de uma máquina partidária de militância. Bolsonaro vai bem no Rio, mal no Nordeste e sangra o PSDB em São Paulo. Alckmin tem que estancar essa sangria. Por isso, Bolsonaro é hoje a maior ameaça aos tucanos.
Marina, ao contrário, lança-se candidata, mas não tem nem máquina partidária, nem aceitação imediata de sua figura. O jogo de Marina parece o mesmo de Alckmin: não parecer uma opção tão ruim. Isso faz com que o tucano e a candidata da Rede sejam as duas grandes apostas da elite financeira e midiática do Brasil, mas, ao mesmo tempo, sejam candidaturas sobrepostas. Nenhum dos dois deve mexer significativamente com a nova lei-trabalhista e nem com qualquer reforma da previdência a ser aprovada. Esse seria o céu de brigadeiro para nossas elites: o pacto da Constituição de 88 refeito com novos gestores. Marina eva vantagem na comunidade neopentecostal, mas Alckmin não tem rejeição nesse meio. Além disso, sabemos o quanto a imprensa fará diferença.
O cálculo arriscado para a elite é justamente o simulacro de outsider, Bolsonaro ou Ciro, ou a eventual transferência de votos que Lula pode fazer. Ciro é figura importante no Nordeste, mas tende a minguar por lá se sua candidatura não decolar. Quem acha que a eleição de 2018 está boa para a esquerda por causa da quantidade de absurdos praticados, bebeu o suco do otimismo que desconheço. Não temos máquina, não temos um grande candidato, nem temos consenso. Posso estar errados, mas o cenário é pior do que parece.