O alienígena

Tem uma história que eu inventei ou que alguém inventou pra mim. É uma coisa que me delimitou como ser, que desenhou o meu corpo, as minhas idéias, as minhas crenças, os meus desejos, que contornou até aquilo que eu pensava impalpável. Essa história parece piada, trouxe pra mim graça e tormento.

Quando eu tenho alguma dúvida, quando me sinto perdido, gosto de olhar pro passado. Gosto de procurar a tradição, de viajar para Marte, de ouvir o que os homens de ontem disseram e escreveram, decifrar seus códigos e de algum modo tentar compreender o presente. E no presente estou sempre a buscar os velhos, as velhas, quero sempre beber de fontes fartas quase secas, retorno para o antigo buscando entender tudo aquilo que é novo. E um dia me deram essa história. Uma história muito, muito, muito antiga e que explicou tudo. Que solucionou todos os problemas e resolveu todas as minhas dúvidas em segundos.

Eu não era daqui. Era um alienígena.

Independente de ser verdade ou não, me parecia certo. Desde criança sentia várias dores em lugares diferentes, dores da carne e principalmente dores do espírito. Estas, sim, refletiam no meu corpo as chagas de uma existência infeliz. Ah… Que lindo presente eu recebi. Que linda história eu contei para mim mesmo: tua existência é infeliz porque estás no lugar errado, porque vens de um lugar distante. Estás muito, muito, muito longe da tua verdadeira casa. É isso! Todos os problemas caíram por terra. Todos os problemas nasceram da Terra porque eu nunca fiz parte desse planeta.

No meu mundo não nos separávamos, nos amávamos, sonhávamos e realizávamos, plantávamos e colhíamos, éramos apenas e o fim parecia inalcançável. Nossos olhos eram os mais belos, nossos corpos eram etéreos, não tínhamos pernas, não andávamos, pensávamos apenas e dos nossos pensamentos plastificávamos as mais belas visões, as mais lindas paisagens de um planeta tomado pelo amor e pela luz…

Mas parece-me que eu me perdi deste meu mundo. Uma enorme escadaria que descia até o Inferno chamado Terra surgiu bem na frente dos meus pés. Um Inferno onde homens e mulheres eram diferentes, onde luz e trevas confrontavam-se diariamente, onde não sabíamos bem o que era bom e o que era ruim, onde devíamos existir sendo moradas do bem e do mal. Eu não queria, eu não quero e não gosto de estar aqui. Dói muito e sofro demais.

Pensar assim, no entanto, parece me aproximar mais da dor que me consome. Parece aumentar minhas feridas, parece fazer doer mais esta alma que em palavras não pode se expressar, porque a língua dos homens é repleta de problemas, gêneros e antíteses que não fazem caber o Universo em suas letras. Como falar dos calores frios que recebia de meus pais? Como falar dos amores tristes que plantei depois de colhê-los em tardes do nascer do sol?

Não importa. Não importa porque minha mensagem é outra.

Minha mensagem é, na verdade, um sussurro, algo muito baixo que ecoa dentro de mim, que grita em silêncio e eu insisto em não ouvir.

Quando me contaram esta história de que eu era de outro planeta tudo fez sentido. Entendi porque eu sentia como se minha pele fosse barro e me incomodava a ponto de rasgar todos os meus poros. Entendi porque o ar que eu respirava me envenenava, entendi porque a expiração raivosa sempre pareceu mais certa do que a inspiração infiel. Entendi porque os olhos grudavam ao amanhecer, entendi porque as unhas cresciam tortas. Eu não queria, eu não quero e não gosto de estar aqui. Dói muito e sofro demais.

Entrei em roupas de mulheres várias, amadas, entrei em roupas de homens vários, odiados, e completei um ciclo de vazio que me inflou por completo numa consciência medíocre de mim mesmo. Cansado, exausto e com saudades profundas de casa procurei aqueles que mais amo; procurei meus pais, meus irmãos e irmãs. Mas quando penso em família só consigo ver os seres que ganhei aqui na Terra… E isso me dá vontade de chorar, porque eu não consigo ao menos lembrar minha família anterior amada. Me senti terrivelmente abandonado, me senti um planeta sem estrela, senti que o tempo passou rápido demais, logo eu que nunca senti o tempo… Este é o castigo da Terra.

Então terminei por desistir, por não pedir ajuda mais a ninguém, por julgar Deus e o Universo a pior coisa que tinha me acontecido, porque não conseguia e não consigo aceitar o seu mistério.

Mas um bálsamo curativo surgiu defronte dos meus ouvidos. Me penetrou como a música dos planetas que harmonicamente se movem envolta do Sol amado… Ouvi as estrelas dependurando-se e me abraçando como uma grande família universal. Não consigo me lembrar dos rostos desses antigos amores, sinto o amargor de viver o tempo presente neste planeta infeliz, mas procuro acreditar de todo coração que somos todos da mesma família.

E se esta é a minha cruz eu vou carregá-la como Jesus fez. Se este é o meu destino eu aceito porque já não tenho mais forças para sofrer, e a eternidade é algo que não quero conhecer, não agora, não neste estado. Se estou aqui neste momento é porque posso tornar este lugar o meu lar. Se o meu corpo dói é porque meu casulo de barro se rompe a cada dia para o novo ser que eu ingenuamente e despreparadamente acreditei que ia ser no passado.

Minha história me conforta, e eu acredito em tudo que está por vir.