Platéia na MWC 2016 testando o Gear VR, óculos de realidade virtual da Samsung em parceria com a Oculus.

A culpa não é da ferramenta.

Por quê você deveria ser (muito) mais positivo com a Realidade Virtual, ao invés de demonizar ela.

Um produto novo prometendo ser a “revolução de um modo de consumir conteúdo” está prestes a se firmar no mercado. A demanda já existia,e até algo parecido ou mais simples da tecnologia já existia, mas ainda não tinha seu apelo comercial. Então uma empresa de alcance global decide investir na ideia. Começa a realizar suas presenças em feiras de tecnologia, exposições e diversas falas públicas ressaltando o potencial da tecnologia, e da invenção, e preparando-se para um alcance massificado.

A expectativa aumenta, aquele crescimento do uso e o que esperar daquele produto com os consumidores começam a entrar na pauta de conversa de muitos amigos, grupos de todos os lados e meios começam a abordar o tema. A hype aumenta.

Do outro lado, diversos grupos de pessoas vendo a o alcance que a tecnologia pode vir a tomar começam a criar um enorme caso de terror ao redor do que está chegando ao mercado. as afirmações segundo essa corrente de pessoas é de que esta tecnologia vai afastar as pessoas, colocar elas distantes umas das outras e que a experiencia que este produto proporcionará não foi feito para ser consumido dessa maneira, e sim em grupos de pessoas reais ao vivo.

A tecnologia em questão, e o produto é o Walkman da Sony, e o ano desses acontecimentos é 1979, ano de lançamento dos primeiros reprodutores de música em fita cassete. A maneira como ele chegou foi incerta, fizeram apenas 40.000 unidades para testar se valeria a pena ou não. Mas a recepção foi tão empolgada das pessoas que usavam os primeiros que eles perceberam que o potencial era imenso.

Hoje, dá para imaginar nossa vida sem música no nosso bolso, e a portabilidade de andar com aquele álbum de nossa banda preferida ao alcance das mãos?

Walkman de 1979, e um exemplar de fita. O bizavô do Spotify e do Deezer.

O começo da história é parecido com um outro produto que também está na roda de conversa de amigos, que vem chamando atenção da mídia e que alguns grupos de pessoas também estão meio assustados com a inovação não é verdade?

A história se repete por acaso? De forma alguma. A história se repete por simples motivos de que muitas vezes as pessoas tem medo do desconhecido. E inovação é exatamente isso: Expandir o conhecimento e as capacidades através da barreira do desconhecido.

A famosa ‘tela azul’ do Windows. O informe que se dava no computador quando se deligava por travamento e que popularmente se tornou verbo para definir quando uma pessoa ‘trava’ na compreensão de alguma coisa.

E porquê ser contra a Realidade Virtual ?

Ao longo das discussões que foram levantadas por colegas, amigos e por alguns noticiários, eu vi 3 pontos serem levantados que realmente são relevantes de serem colocados em pauta.

1-O óculos vai acabar com as relações sociais de vez.

A realidade virtual não vai acabar com as relações socias. Inclusive ela vai aproximar pessoas que não tem acesso a lugares, cidades e outras pessoas devido a distancia.

A primeira coisa que deve passar na cabeça de quem imagina o RV por esse aspecto, deve ser que a realidade virtual vai acomodar as pessoas de saírem de seus lugares, de irem ao encontro de outras pessoas e que isto é a confirmação de que você nunca mais irá ver presencialmente aquele amigo seu que gosta um pouquinho mais de tecnologia porquê ele irá preferir ficar em casa e se conectar por você através da realidade virtual, ou então que aquele grupo de amigos agora vai preferir abrir mão do chopp no bar porquê cada um poderá tomar seu chopp no conforto de sua casa e estarem todos num bar virtual.

Não tem como dizer que não, mas a realidade virtual, ainda está muito mais focado em criar experiencias totalmente diferente das habituais que você tem, do que de criar simulacros da uma vida real, para que você passe a abandonar a mundo offline. Experiencias de saltar de paraquedas, dirigir carros únicos e caríssimos, passeios ao redor de cidades e lugares que você não teria tão facilmente a oportunidade de conhecer presencialmente e outros tantos.

Ou seja: o foco vem sendo em trazer novas experiencias que ficavam antes restritas apenas ao nosso mundo da imaginação,criar mundos e cenários que não seriam talvez possíveis sem a ajuda de uma realidade virtual. e não de substituir a realidade.

2-Isso vai nos fazer sermos totalmente dependentes de tecnologia.

E já não somos dependentes de tecnologia? Sim, ainda existe um receio de que fiquemos transformados em zumbis no estilo Skynet, ou que entremos numa Matrix para realizar coisas básicas da vida. Mas é possível imaginar uma vida hoje, sem Whatsapp, internet e eletricidade? Acho que até dava, mas iriamos voltar para um estilo de vida do começo do século XIX.

Não faz sentido ser contra tecnologia criada pelo homem se ela foi desenvolvida justamente para melhorar e trazer novas possibilidades: Ao homem.

3-Será apenas mais um brinquedinho para jogos, e aplicativos no celular, ele não tem usos reais e que realmente mudarão a vida das pessoas.

Em meio a tanta criação de conteúdo voltado ao entretenimento e ganhando mídia, e de várias empresas de games estarem o tempo todo falando sobre jogos novos, existe uma infinidade de potenciais usados dentro da realidade virtual que merecem atenção pelo seu potencial transformador.

1-Samsung #BeFearless

Uma em cada cinco pessoas tem mais medo de falar em público do que de morrer. E o #BeFearless é uma iniciativa da Samsung de incentivar o empoderamento para falar em público de pessoas que tenham este medo. Ele cria ambientes em graus de nível de dificuldade em que a pessoa vai desenvolvendo aos poucos segurança para falar em público. A aprovação pelos que passaram pelo desafio foi enorme e o bem na vida dessas pesosas, imensurável.

2-Realidade Virtual na educação

Sabe aquela história que todos já sabemos que a escola está ultrapassada, massificada, que não está acompanhando a evolução das crianças que nela estão e que é chata? E se ao invés de simplesmente contar histórias e mostrar slides para os alunos dentro das aulas, e se existisse a oportunidade de levar eles para lugares que os livros de história tanto falam ?

O pessoal da Aeroli.to, uma empresa de Porto Alegre, vem desenvolvendo soluções nesse direcionamento:

3-Desenvolver de forma efetiva empatia entre as pessoas

Olhar a realidade da outra pessoa, com os olhos dela. Sentir os problemas, entender a diferença de mundos e valorizar a pluralidade, sem distinção. Falando assim e olhando a intolerância que certas pessoas ainda tem que passar, fazem todos esses argumentos parecerem uma utopia. Mas a realidade virtual vem se provando uma tecnologia capaz de ressignificar o processo de empatia no ser humano.

O cinema e os filmes de realidade virtual tem um alto potencial de alcançar este objetivo.

Em 2015, houve um curta premiado no Sundance Film Festival, chamado The Party, que chamou a atenção de muitas pessoas pelo seguinte fato: Na simulação o usuário passa pela experiencia de ser um rapaz naquelas tradicionais festas de fraternidade das universidades americanas, e durante a festa, ele é incentivado pelos amigos a abusar sexualmente da uma menina bêbada, a Gina.

Cena do Curta Perspective Chapter 1 - The Party

Os relatos das pessoas que passaram pela experiencia assistindo o curta, foram de uma brusca conscientização sobre o que é o estupro, e uma mobilização nos Estados Unidos que tomou enorme alcance sobre abuso sexual.

Mas e de quem é a culpa então?

Dito tudo isso, de quem é a culpa então? É um esperado clichê admitir isto, mas o culpado somos nós humanidade. E apesar de inconscientemente sabermos isso, é preciso colocar em pauta a seguinte reflexão sobre esta culpa:

Pessoas viciadas em tecnologia, são pessoas que estão passando por algum problema. A grande maioria dos usos excessivos e indiscriminados de alguma tecnologia(seja uma rede social, um celular ou um jogo online) são fruto de uma fuga da realidade, decorrente muito provavelmente por problemas pessoais na vida da pessoa tão sérios a ponto dela perder o controle a desregular-se em relação ao uso.

Esses vícios aparentam ser a versão contemporânea de vícios antigos e já conhecidos de nós humanos, como o da bebida alcoólica e das drogas. E caminham num limiar tremendamente mais tênue entre o uso útil e o mal uso, e essas pessoas que perderam o rumo precisam de ajuda, e todo suporte possível.

Salvo a culpa, salvo o medo, salvo o receio, espero de forma concreta ter provocado a boa discussão e a reflexão não só sobre o enorme disrupção que a realidade virtual vem por ai provocar, mas para que a gente coloque a mão na cabeça para refletir que é possível sim fazer o uso saudável dessas novas tecnologias, mesmo com essa receio/curiosidade dos usos que ela terá ao longo do tempo.

Valeu.

VhS