‘Somos todas Viviane’ (pt. 4)

A manifestação está no ápice; alguns encapuzados se aproximam

Crédito da imagem: Jefferson Ferreira

Estuprada: sim ou não?

À família, Viviane disse ter sido estuprada na festa, depois passou a apresentar
comportamentos estranhos. Também contou à mãe que o garoto que lhe dera
carona afirmou mais tarde no escritório que fez sexo com ela dentro do táxi no qual voltaram, segundo informações do Boletim de Ocorrência (B.O.).

A mãe disse que a filha passou a falar coisas como “tem uma coisa ruim dentro
de mim”, “eu sinto que estou morrendo”, “tem muita droga dentro de mim”.
Viviane ainda disse que sofria “assédios constantes” do chefe.

Piorou depois disso. Não saía mais de casa. Até que a mãe levou-a ao hospital
para ser medicada. A clínica-geral receitou remédio com o princípio ativo
topiramato. Ele tem como efeitos colaterais “alterações do pensamento”,
“depressão” e “alterações de humor”. A mãe de Viviane afirmou que não houve nenhum alerta por parte da médica à paciente.

No site Medicinanet.com.br há informações contidas nas bulas sobre os efeitos
colaterais do topiramato:

“Os efeitos colaterais mais freqüentes são: problemas de coordenação; alterações do pensamento, incluindo dificuldade de concentração, lentidão de pensamento e confusão; tontura; cansaço; formigamento; sonolência. Também podem ocorrer, embora menos freqüentemente: esquecimento, agitação, diminuição do apetite, distúrbios da fala, depressão, distúrbios da visão, alterações do humor, náusea, alterações do paladar, perda de peso e formação de pedras nos rins, cujos sinais são presença de sangue na urina ou dor na parte inferior das costas ou dor na área genital.”

Viviane tomou um comprimido, dia 1º de dezembro, e a situação se agravou:
teve alucinações auditivas. O remédio foi suspenso. Dois dias depois, estaria
morta. No início, a polícia nada fez por tratar o caso como “suicídio simples”.

Após a morte da estudante, foi encontrado no quarto dela anotações feitas em
folha de caderno com os dizeres “Me drogaram”, “Me estupraram”, “HIV+”,
“Não tenho mais minha reputação ilibada” e “Perda de processo”, além d’uma
carta. Nela, segundo a imprensa, além de relatar a dopagem e o abuso, Viviane diz que “não aguentaria viver ao fazer a família passar por tamanha vergonha”.

Segundo fontes da polícia à imprensa, a caligrafia e a maneira como as palavras foram grafadas, em diferentes sentidos da folha e alternando letras maiúsculas e minúsculas, seria indicativo de que ela não estava bem emocionalmente.

Depois das anotações e do depoimento da mãe, a Polícia Civil entrou no caso,
que passou a ser tratado como “morte suspeita” (em que algum fato externo
causa uma morte não natural do indivíduo — acidente, assassinato).

Também chegou a levantar a hipótese — não descartada — de que a jovem, por
causa do remédio, foi “induzida a pensamentos suicidas”.

Segundo Marco Antonio Brasil, chefe do Serviço de Psiquiatria do Hospital
Clementino Fraga Filho, da UFRJ, em entrevista concedida ao UOL, em
04/01/2013, “relacionar o possível suicídio ao uso do remédio é um equívoco”. “Seria simplificar uma situação complexa que envolve uma série de outros fatores.”

No site d’O Globo, em 02/01/13, a polícia considerava “cada vez mais remota” a hipótese de suicídio. E dava outra versão: acidente — por causa da menina ter ficado dez dias sem se alimentar direito, de acordo com familiares. Uma consulta com o psicólogo estava agendada para a semana em que ocorreu a queda da sacada.

Embora o suposto estupro tenha ocorrido no final do mês de novembro, não foi comunicado à polícia. O único boletim é do dia 3 de dezembro, quando Viviane morreu.

Banda e mascaradas passam

No meio do auê, a notícia triste:

A caixa de som, tão necessária, precisa sair de cena (Crédito: Rafael Tavares)

— Gente, só queria chamar a moça que estava com o mega-fone porque… a
“pipoqueira” é emprestada e a gente vai ter devolver ela; a gente vai ir embora
agora… Vai ter que ficar com o som do megafone… — faz-se o silêncio, algumas não entendem, ou não querem acreditar. — É isso, vamos ter que levar o som.

Fica uma situação complicada. A moça que vai embora é das mais ativas, que
levanta o moral do pessoal… Sem a “pipoqueira”, o barulho fica
consideravelmente mais baixo. Até o grito da leoa perde potência. Começa o
burburinho entre elas. Talvez a manifestação termine antes do planejado, e
ainda não são nem 19h.

Algumas continuam:

— Machistas, machistas, não passarão! Machistas agressores, não passarão!

Não é a mesma coisa. Elas continuam com os hinos de ordem, batem palmas… Mas o clima é de esmorecimento. Há gritos: mas baixos, em intervalos maiores. E palmas, cada vez mais desanimadas e espaçadas.

Ninguém da manifestação quer se identificar. Uma das únicas que se
identificam, possui opinião diferente da maioria: “Não dá pra julgar [o caso
Viviane
] agora, têm que sair todos os laudos primeiro”.

Ela se chama Mariana Costa, 20 anos, traços orientais, rosto calmo, alegre, é estudante de jornalismo da Universidade Mackenzie.

— Você acha que as meninas se precipitaram? Que vieram se manifestar como se o Machado Meyer fosse culpado de algo não comprovado ainda?
 — Acho… Acho que deveriam ter esperado uma resposta da polícia.
 — Então vocês se precipitaram, ao estarem aqui?
 — Não to criticando, mas acho que foi precipitado, sim…

A passeata perde voz. Algo precisa ser feito.

Última tentativa:

— Mexeu com uma, mexeu com todas! Mexeu com uma, mexeu com todas!

De repente, um som ao fundo. Bum-bu, bum-bu; tic-tictic-tictic-tic; tuc-tic tuc tic tuc-tic… Com uma hora e catorze minutos de atraso, a bateria, motivo de
primeiro questionamento nas redes sociais (“qm tem as baterias?”), chega.
Ótimo! O uníssono descompassado das meninas ganha ritmo; ao som de latas,
tambores, bumbos, tudo vira marchinha de carnaval fora de época. O moral se
ergue, o barulho aumenta e a manifestação ganha ânimo para prosseguir.

Chegam também dez pessoas, todas de preto, dos pés à cabeça, literalmente.
Seus rostos são embrulhados por camisetas pretas, lenços vermelhos. Chegam
sorrateiramente e saem distribuindo panfletinho também, esses menores que os outros (10,5cmx15cm, diferente das folhas A4, de antes), explicando o que é assédio sexual e moral:

* Sexual: “(…) é uma forma de abuso de poder no trabalho que consiste em
constranger colegas por meio de cantadas e insinuações constantes com o
objetivo de obter vantagens ou favorecimento sexual. (…)”;
* Moral: “São atos que caracterizam uma atitude violenta e sem ética nas
relações de trabalho, praticada por um ou mais chefes contra seus
subordinados. Trata-se de exposição de trabalhadores a situações
vexatórias, constrangedoras e humilhantes durante o exercício de sua
função. (…)”

Elas não falam muito. Mas farão uma bagunça…

(Muita) tinta e revolta

Crédito: Jefferson Ferreira

Ao som do samba tocado, alguns encapuzados caem no chão da Faria Lima. Os outros circulam os corpos dos caídos com tinta azul, que trazem em garrafas pet e potes de sorvete. Em poucos minutos, parece a cena d’um seriado de polícia norte-americano. Quatro corpos são contornados. Junto com frases de “Morte aos Estupradores!”, “Basta de vítimas!” e plaquinhas pintadas de laranja com “Machado Meyer — a Índia é aqui”.

A maioria das vozes é feminina. Olhos azuis, castanhos, escondem-se sob os panos, mas a delicadeza dos semblantes permanece.

Crédito: Jefferson Ferreira

Duas das cinco pistas da avenida estão completamente tomadas. Do interior dos ônibus, carros, olhares curiosos, de raiva, pela paralisação do trânsito, e de repúdio fitam todos. Continuam, não estão nem aí… A polícia está lá longe, à espreita. Não interfere.

A bandinha continua; organizada com a gritaria: “A violência, contra a mulher, não é o mundo que a gente quer!” “Se cuida, se cuida, se cuida seu machista, a América Latina vai ser toda feminista!”.

Uma das organizadoras do Coletivo Feminista Yabá, da turma de Direito da PUC-SP, Isadora Penna, 21 anos, vestido florido anos 60, faz uma revelação:

— Depois do caso dela vir à tona eu já recebi cinco denúncias de estagiárias de direito que sofreram assédio dos seus chefes.

Haverá outras Vivianes?

Recado dado: a mensagem asfaltada (Crédito: Rafael Tavares)

Está é a penúltima parte da reportagem (acesse a primeira parte aqui). Ela nasceu originalmente em 2013, mas — pela importância e urgência do tema — está sendo republicada.

Esse trabalho não teria sido possível sem a ajuda dos companheiros e amigos Jefferson Ferreira e Rafael Tavares (que fizeram vídeos e imagens que ilustram esta reportagem).