Eu sou porque nós somos

Quando a humanidade e a tecnologia se encontram

Em um dos clássicos do cinema, O Grande Ditador, Charlie Chaplin realiza um dos discursos mais emblemático da história da sétima arte. Se esse filme fosse feito nos dias atuais, talvez um trecho de sua fala teria sido assim:

O computador e a internet aproximaram-nos. A própria natureza destas invenções clama pela bondade do homem, um apelo à fraternidade universal, à união de todos nós. Mesmo agora a minha voz chega a milhões em todo o mundo, milhões de desesperados, homens, mulheres, crianças, vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes.

Por ter uma essência internacionalista, seu discurso tira o protagonismo do individualismo do ditador e entrega à coletividade dos povos, e foi a partir desse mesmo sentido de coletividade que nasceu um dos mais importantes avanços tecnológicos do século 21: O Linux.

Para que possamos falar do Linux, devemos voltar para 1969 e entender sobre a empresa de comunicação estadunidense AT&T, dos laboratórios Bell Labs e, mais importante, sobre o Unix.

AT&T e Bell Labs

Até 1980 a comunicação dos estados unidos respondia pelo nome de AT&T, o monopólio na área de comunicação permitia que essa empresa não se preocupasse com concorrência, dando espaço para que pudesse financiar projetos, laboratórios e pesquisas de tecnologia. O principal laboratório da época era a Bell Labs, podemos entender o porque apenas olhando para o complexo criado pela empresa.

Bell Labs Holmdel Complex, construção começou em 1959 e foi finalizada em 1962
O futuro da Bell Labs

Um dos projetos da Bell Labs era conhecido como Multics, um sistema operacional de tempo compartilhado, porém, esse projeto não deu certo, e foi ai que dois funcionários da Bell Labs, Ken Thompson e Dennis Ritchie, resolveu sair e fazer por conta própria o sistema operacional Unics, como podemos notar, é muito mais legal chama-lo de Unix. Em uma palestra de apresentação do novo sistema operacional, Dennis Richie resumiu a essência do projeto

O que queríamos preservar era não só um bom ambiente para fazer programação, mas um sistema em torno do qual um companheirismo poderia se formar. Sabíamos, por experiência, que a essência da computação em comunidade da maneira proporcionada pelo acesso remoto e o compartilhamento de tempo de máquinas não é apenas para digitar programas em um terminal em vez de um furador de papel, mas para encorajar a comunicação de perto.

É importante ressaltar que a criação do Unix não se deu pelo interesse do mercado, mas pelo desejo de criar o melhor ambiente de desenvolvimento, não foi por concorrência ou sobrevivência, mas sim por causa da cultura de fluxo livre de conhecimento que existia naqueles laboratórios.

Como era de imaginar, “a ganância envenenou a alma dos homens”. Por mais que o conhecimento na Bell Labs fosse compartilhado, tanto entre seus laboratórios como em universidades, devemos lembrar que a AT&T é uma empresa privada, logo, o esforço de vários trabalhadores foi transformado em produto comercial e com os direitos de venda pertencentes à AT&T.

O Império Contra-Ataca

Monopólios não são bem vistos em lugar nenhum, nos EUA não seria diferente, o governo estadunidense estava se preocupando que a AT&T começasse a monopolizar também o recém criado mercado da informática, como resultado de um processo jurídico, a empresa norte-americana ficou proibida de vender computadores diretamente aos clientes.

Nessa realidade, a AT&T começou a vender o código-fonte, por um valor simbólico, do Unix para universidades, que eram responsáveis por compilar o código por conta própria, uma dessas universidades foi de uma cidade chamada Berkeley, que compilou o código-fonte do Unix e, a partir dele, criou um sistema operacional chamado Berkeley Software Distribution, mais conhecido como BSD.

Stardestroyer a serviço do império

Quando o processo jurídico que proibia a venda do Unix acabou, a AT&T estava pronta além de comercializar o sistema operacional, como também iniciar processos de “uso ilegal do seu sistema”. Todo esses acontecimentos teve como resultado um mal-estar para aquela filosofia de fluxo livre que existia nos laboratórios da Bell Labs, porém, algo grande estava para acontecer!

Para aqueles que me podem ouvir eu digo: “Não se desesperem”.

Enfim, Liberdade!

Em 1984, Richard M. Stallman fundou o que nós conhecemos hoje como movimento do software livre (esse movimento merece uma publicação a parte). A ideia era simples: Criar a fundação de software livre e ter como o principal projeto dessa fundação recodificar o sistema Unix.

Exatamente isso, reescrever todo o código do Unix! A AT&T poderia ter a licença, mas graças a troca de informação que tinha na Bell Labs, o código estava na cabeça dos programadores. Refazer um projeto com milhões de linhas de código pode parecer impossível, mas a colaboração de centenas de programadores o tornou possível.

O nome do projeto foi batizado pela sigla recursiva GNU, GNU is Not Unix (GNU não é Unix).

Gnu is Not Unix

A Ultima Peça

Porém, mesmo com todo o esforço dos desenvolvedores, eles estavam tendo problemas para criar uma parte fundamental do sistema operacional: o kernel. O projeto GNU tinha toda a armadura do homem de ferro, mas estava faltando o reator arc para que ela pudesse funcionar.

Linus Benedict Torvalds
Olá pessoal por aí usando minix -
Estou criando um sistema operacional (livre) (apenas um hobby, não será grande e profissional como o gnu) para clones AT 386(486). Ele vem crescendo desde abril e está começando a ficar pronto. Eu gostaria de qualquer feedback das pessoas sobre o que gostaram ou não no minix, uma vez que meu OS se parece um pouco com ele (mesmo layout físico do sistema de arquivos do sistema de arquivos (devido a razões práticas, entre outras coisas)…
Quaisquer sugestões serão bem-vindas, mas não prometo que vou implementá-las. :-)
Linus (torvalds@kruuna.helsinki.fi)
P.S.: Sim — Não contém nenhum código minix e tem um fs multi-threaded. NÃO é portável [sic] (usa alternância de tarefas de 386 etc) e provavelmente nunca vai suportar outra coisa senão discos rígidos AT, já que isso é tudo o que tenho. :-(

E foi assim, no dia 26 de agosto de 1991, em um grupo de notícias, que Linus anuncia a primeira versão do kernel do Linux, ou seja, esse nome se refere ao kernel do sistema operacional GNU/Linux, porém, foi apenas Linux que se tornou o nome popular do sistema. A partir dessa data, começou a existir várias distribuições baseada no Linux, como: Debian, Red Hat, Ubuntu e Android.

Nós não Somos Máquinas, Somos Homens!

O linux é uma prova que avanços tecnológicos não acontecem por causa de uma necessidade econômica, o ambiente e a estrutura criada pela AT&T para a pesquisa proporcionou que a genialidade e a busca por liberdade dos homens florescesse. Além do Unix, foi nos laboratórios Bell que também surgiram os transistores e a linguagem de programação C.

E se essa estrutura fosse criada para todas as áreas do conhecimento? Se ao invés da AT&T fosse o próprio povo que criasse essa estrutura, para que não existisse o risco do que aconteceu com o Unix? Esse “se” pode está custando muitos avanços e vidas.

A terra, a matéria-prima e o conhecimento não pertence a um homem, nem um grupo de homens, mas todos os homens, pertence a você, o povo.

Vós, o povo tem o poder, o poder de criar máquinas, o poder de criar felicidade. Vós, o povo tem o poder de tornar a vida livre e bela, para fazer desta vida uma aventura maravilhosa. Então, em nome da democracia, vamos usar esse poder, vamos todos unir-nos. Lutemos por um mundo novo, um mundo bom que vai dar aos homens a oportunidade de trabalhar, que lhe dará o futuro, longevidade e segurança.

Fontes

Linux, A Bíblia (8ª Edição) - Editora Alta Books
Charlie Chaplin- O Grande Ditador
dltconsulting.com
bell works
wikipedia.org