Da indústria à mesa: os desafios da alimentação saudável

Trabalho, estudo, família, vida social… A rotina na qual a maioria da população está inserida não permite horas para o cuidado pessoal e o bem-estar físico — que inclui boa alimentação, práticas regulares de atividades físicas, boas horas de sono etc. Buscando alternativas que poupem tempo, muitos recorrem ao fast-food: alimentos congelados, ultraprocessados, nada saudáveis.

A alimentação rápida e industrializada é mais barata e, de acordo com a Agência Senado, mais de dois terços dos comerciais sobre alimentos na TV anunciam fast food, guloseimas e refrigerantes. Além disso, a publicidade ganha mais destaque que os rótulos desses produtos, que deveriam fornecer informações nutricionais claras sobre eles.

Observando a oferta crescente de produtos de má qualidade nutricional e a confusão de informação sobre nutrição na mídia e nos rótulos, a jornalista Francine Lima criou, em julho de 2013, o projeto “Do Campo à mesa”, composto por canal no Youtube (com mais de três milhões de acessos), blog e página no Facebook.

Com o lema “você é o que você sabe sobre o que come”, Do campo à mesa é um trabalho jornalístico que busca informar o público por meio da produção de conteúdos sobre alimentos, com a missão de promover a transparência na comunicação entre quem produz e quem compra, em nome de uma alimentação saudável e sustentável para todos.

Em um dos vídeos mais famosos do canal, a jornalista fala sobre a quantidade de morangos que encontramos nos iogurtes disponíveis nos mercados e a falta de informação dos SACs aos consumidores

Indicado pelo Ministério da Saúde, o projeto surgiu graças a internet e sua capacidade de disseminação de conteúdo através da independência de mídias tradicionais.

Para Francine, o brasileiro ainda prioriza a comida de verdade, mas o crescente consumo dos ultraprocessados deve ser evitado. “Ainda preservamos nossa cultura alimentar, mas há uma entrada preocupante de produtos ultraprocessados na dieta, substituindo refeições. A alimentação saudável contém essa substituição e valoriza a comida brasileira”, relata em entrevista à Rede Mobilizadores.

Mestra em Ciências pelo Programa de Nutrição em Saúde Pública da USP, Francine estuda o papel da rotulagem dos alimentos como promoção da alimentação saudável. “Encaro os rótulos como veículos de comunicação de massa, que mesclam informação com publicidade. Mas, neles, a publicidade aparece em primeiro plano, enquanto a informação fica escondida nos cantos”, diz a jornalista.

Uma rotulagem com informações claras sobre o produto comprado é o caminho para o consumidor saber o procedimento, ingredientes e nutrientes desse alimento, podendo escolher a opção que lhe parecer mais aceitável. Entretanto, essa transparência traria problemas para as indústrias — como explicar, por exemplo, que o pão integral tem como principal ingrediente a farinha branca?

A falta de informação da população sobre o assunto, aliada aos nomes difíceis que a indústria faz questão de usar e a pouca interatividade da lista de ingredientes e da tabela nutricional dos produtos fazem com que a maioria das pessoas comprem o produto por conta da publicidade feita em cima dele, não de seus reais benefícios.

“O assunto alimentação saudável é constante na mídia. Só que ele ainda aparece muito com abordagens erradas. Fala-se muito sobre dietas e efeitos de nutrientes específicos no emagrecimento ou na prevenção de doenças”, relata Francine.

Precisamos de projetos educativos e consumidores conscientes que pressionem as grandes indústrias a informarem seus consumidores de forma honesta, tornando possível escolhas para uma alimentação saudável e sustentável, que priorize os alimentos como um todo, não apenas os nutrientes.