Precisamos mudar o olhar da medicina: em vez de ser curativa, ela pode ser preventiva”

Entrevista com a Diretora do Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais em São Paulo, Judit Lia Busanello, que fala sobre transexualidade e o olhar discriminatório com o qual a sociedade a enxerga

Sabemos há muito que qualquer acontecimento fora do padrão heteronormativo vigente na sociedade causa repulsa e fobia entre a maioria conservadora. Com a transexualidade não seria diferente. Uma pessoa é considerada transexual quando se identifica com um gênero (masculino ou feminino) distinto daquele esperado socialmente em função do sexo biológico.

A transexualidade é classificada como patologia — Transtorno de Identidade de Gênero — pelo DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) e CID10 (Classificação Internacional de Doenças). Essa patologização incentiva a discriminação e dificulta a vida dos transexuais, que exigem garantias de direitos como qualquer outro cidadão.

Judit Lia Busanello é psicóloga atuante e diretora do Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais. O núcleo, vinculado ao Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, oferece serviços de fonoaudiologia, endocrinologia, clínica geral, urologia, proctologia, psicologia, psiquiatria e assistência social para um total de 2800 pacientes desde 2009.

Na entrevista, Judit fala sobre os serviços oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), além de informações a respeito da lei João Nery — que garantirá um documento de identidade com o nome social da pessoa.

Como você, psicóloga, distingue gênero e sexualidade? De que forma esses dois termos se relacionam?

Judit Busanello — O senso comum confunde orientação sexual com identidade de gênero. Identidade de gênero é como a pessoa se reconhece e como ela quer ser reconhecida na sociedade, reconhecendo-se com masculino ou feminino. A sexualidade se relaciona com o interesse afetivo-emocional. Eu posso ser homo, hétero ou bissexual. Ou seja, sexualidade não tem nada a ver com identidade de gênero e o binarismo pênis/vagina limita o ser humano.

Qual a sua opinião a respeito do Processo Transexualizador do SUS? Acredita que o período de acompanhamento psicológico durante dois anos são necessários?

Judit — Não tenho dúvidas que há a necessidade de um processo, porque precisamos nos basear em algo. Existe o DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) e o CID10 (Classificação Internacional de Doenças). Mas pra mim eles não servem pra dizer se uma pessoa está pronta ou não para uma cirurgia.

O que vai definir não é uma portaria, mas o processo individual. O que define se uma pessoa está preparada ou não para a cirurgia é a relação do sujeito consigo mesmo.

Aqui nós temos uma conduta diferente: respeitamos os dois anos por que é lei, mas o processo em si a pessoa pode mudar. Os indivíduos chegam aqui em momentos diferentes da sua construção de identidade. Alguns só conseguem construir essa identificação após a independência financeira. Como podemos exigir coisas de alguém que nunca pôde se manifestar, que nunca pôde existir?

Um dos grandes dilemas em torno da despatologização é a retirada dos serviços na rede pública de saúde. Qual a sua opinião a respeito?

Judit — As pessoas precisam entender que o endocrinologista não vai prescrever um hormônio se não tiver finalidade para tal. Se você é uma pessoa trans, a finalidade do hormônio é modificar o seu corpo. Se você deseja modificá-lo, o médico precisa saber o porquê dessa modificação, e se é uma decisão que você manterá, porque ele corre riscos de sofrer punições, por processos éticos. Ou seja, precisamos de um diagnóstico.

Eu não acho que seja esse o mote da despatologização. O que precisamos mudar é o olhar da medicina: em vez de ser curativa ela pode ser preventiva. O Brasil não amplia muito esse foco, mas temos conseguido isso aqui no ambulatório. Não queremos que os pacientes olhem o psiquiatra e o psicólogo como pessoas que estão aqui para barrar o processo. Não é esse o olhar que propomos, nem o que deveríamos fomentar na sociedade.

Gostaria de saber como é que funciona, qual é a periodicidade das cirurgias.

Judit — O Hospital das Clínicas é o único em São Paulo que faz a cirurgia, e possui três portas: o Amtigos (Ambulatório de Transtorno de Identidade de Gênero e Orientação Sexual), a Hormonioterapia e o Prosex e endocrinologia. São quatro portas encaminhando pra uma porta no HC. Como somos quatro, negociamos três cirurgias ao ano por portaria.

Conseguimos, ano passado, realizar cinco cirurgias de mulheres trans, seis cirurgias de homens trans e temos mais três agendadas para esse ano. O problema é que o HC tem apenas um centro cirúrgico para dividir com os milhares de ambulatórios que tem lá dentro.

Toda semana eles realizam a cirurgia de transgenitalização, porém, uma por mês é nova, as outras são retoques. Por exemplo: os homens trans fazem uma cirurgia para a retirada da mama, depois outra para retirar útero e ovários e, por último, a reconstituição da genitália. São três fases, e o intervalo entre elas é de 15 dias a um mês.

A fila de espera aqui, para quem entra agora, é de 15 a 20 anos. Lá no HC temos 26 pacientes esperando o agendamento. Façamos a conta: 26 dividido por três, são oito anos, isso para os que estão na fila do agendamento.

A fila de espera aqui, para quem entra agora, é de 15 a 20 anos

Aqui no Ambulatório são 2800 pacientes. Desses, 2300 querem a cirurgia, sendo 68% mulheres trans, 4% homens trans e 28% travestis.

São poucos homens trans, você não acha? Há algum estudo que indique o motivo disso?

Judit — Li um artigo muito bacana uma vez, de um professor da UFRJ, que é homem trans, Guilherme Almeida. Ele fala algo que eu acho que faz todo o sentido: os homens trans passam muito mais despercebidos pela sociedade que as mulheres trans. Nós encontramos homens baixinhos, com feições mais femininas. Já mulheres grandes, com gogó, são mais difíceis.

O hormônio masculino causa modificações imensas, é muito forte. Quando eles encontram uma parceira ou parceiro que os aceitam do jeito que são, não veem necessidade de fazer a cirurgia.

Por esse motivo, um problema que enfrentamos aqui é os cuidados que o corpo biológico feminino exige. Temos câncer de colo de útero, câncer de mama.

Eu acho que os homens trans deveriam ser mais abertos, porém, deveríamos ampliar as formas de exame, por que você fazer um transvaginal em um homem trans também e uma coisa meio complicada, né?

Qual sua opinião a respeito da Lei João Nery? Acredita na possibilidade de aprovação dela?

Judit — Eu acho fantástica! Na Argentina já existe essa lei do Documento de Identidade de Gênero. Um documento com a sua identidade te autoriza a existir perante a sociedade. Digo isso por que temos aqui uma advogada que conseguiu a mudança de mais ou menos 120 nomes, mesmo sem a cirurgia, e a qualidade de vida muda muito.

O Jean Willys e a Erika Cocay, os autores da lei, são maravilhosos. Se eles conseguirem aprovar… Não sei como seriam as questões jurídicas, mas diria que ela é maravilhosa e necessária, e resolveria muitos problemas, inclusive o desemprego. O movimento social tem que cair em cima pra que seja aprovada.

Um documento com a sua identidade te autoriza a existir perante a sociedade […] e a qualidade de vida muda muito

Você apoia tratamentos de hormonioterapia e a cirurgia de readequação de gênero antes da maioridade legal?

Judit — Concordo, porque para mim é nítido que os problemas com a transexualidade começam na adolescência, quando os hormônios passam a definir características. Acho que poderíamos, sim, inibir a puberdade e interromper a produção de hormônios que definem a masculinidade ou a feminilidade.

É uma coisa perigosa, precisaria ter um acompanhamento psicológico e psiquiátrico intenso, mas seria maravilhoso. Você deixar o seu filho ou filha crescer sendo o que ele é, é uma ideia fascinante e libertadora.

Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids-SP
Rua Santa Cruz, 81 — Vila Mariana.
Tel: (11) 5087–9833.