Transgênicos e os caminhos contrários à bioética

As sementes que aumentam a utilização de agrotóxicos nas plantações é antiética do ponto de vista dos biólogos

O cultivo de Organismos Geneticamente Modificados no Brasil foi autorizado em junho de 2003, com a chegada da soja RoundUp Ready, da Monsanto. De lá pra cá, o mercado de cultura transgênica ganhou cada vez mais espaço, e contribuiu de maneira decisiva para o país liderar o ranking mundial no uso de agrotóxicos — posto que ganhou em 2008 e mantém até hoje.

Foto: Hypescience

De acordo com o relatório de Serviço Internacional para Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia, o Brasil ocupa o segundo lugar entre os países que mais cultivam espécies transgênicas do mundo, com 40,3 milhões de hectares cultivados, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.

Esses dados apenas evidenciam a urgência de discutir sobre os alimentos transgênicos, que são organismos com mutações no DNA causadas pela biotecnologia. “[Essa interferência] vai contra ética porque é uma mutação. A inserção dos genes de outra espécie em plantas mexe com alguns tabus da ciência”, explica Thiago Dolcemascollo, pós-graduado em Sanidade, segurança alimentar e ambiental do agronegócio.

Para ele, os alimentos transgênicos são vantajosos, apesar de todas as controvérsias. “Um produtor passa a utilizar plantas modificadas geneticamente para controlar lagartas, diminuindo a utilização de agrotóxicos para lagartas. Esse é um dos motivos do porquê passou a ser utilizado, para diminuir as toxinas que podem chegar ao consumidor final e diminuir os danos à produção causado por pragas”, relata.

Apesar da explicação, os dados adquiridos através das pesquisas acima mostram que, com o aumento do cultivo transgênico, plantas daninhas e insetos criam resistência às sementes modificadas, levando os agricultores a aumentarem o uso de agrotóxico, pois as alterações genéticas quase sempre são resistentes aos pesticidas que, curiosamente, são fabricados pelas mesmas empresas que criam as sementes transgênicas.

Além disso, por ser um campo recente de estudo, não há longas pesquisas comprovadas sobre os alimentos geneticamente modificados e seus riscos à saúde e ao meio ambiente. “O máximo que os transgênicos podem fazer é causar algumas reações alérgicas. Em relação aos riscos ambientais, existem legislações que tentam diminuir o impacto causado, controlando a quantidade desas sementes na plantação”, alega o biólogo.

Eis aqui outro ataque à ética e à legislação: a recém-aprovada lei da não rotulagem de alimentos transgênicos. O projeto do Deputado Luiz Carlos Heinze, do PP — RS, que segue para o Senado, fere o artigo 6º do Código de Defesa do Consumidor, que garante ao consumidor o direito de receber informações claras sobre os produtos, com especificações de composição, qualidade e os riscos que podem apresentar.

Com os transgênicos, o mercado agrícola pode lucrar ainda mais, logo, os produtores e agricultores de produção familiar e pequeno porte, perdem a competição. Quem compra as sementes modificadas precisa pagar royalties (taxas de patente) à empresa produtora desses organismos geneticamente modificados. Essas multinacionais ganham com a venda das sementes, dos agrotóxicos e das patentes.

Temos, até no Senado e na Câmara, as chamadas “bancadas ruralistas” — governantes que defendem os interesses desses gigantes do agronegócio. Vivemos até pouco tempo atrás sem saber da existência de transgênicos e agrotóxicos. Fica claro que essa é mais uma forma de lucro, entretanto, colocando em risco o meio ambiente e o ser humano da forma mais perigosa que existe: modificando DNAs e criando organismo mutantes.