Os indivíduos e a imposição civilizatória

Victória Menezes
Sep 3, 2018 · 3 min read

Na obra “O Mal Estar na Civilização”, Freud defende que a cultura ocidental impede que o indivíduo moderno seja feliz por impor restrições a seus instintos sexuais e agressivos. Para ele, o sentimento de culpa seria explicado pela influência alheia e necessidade individual de aceitação.

Norbert Elias em “O Processo Civilizatório” argumenta que o poder manifesta-se não apenas no plano macro, mas também na forma com que os indivíduos se portam frente aos outros. Para sustentar tal afirmação, o autor recorre à ordem que antecedeu a Revolução Francesa. A nobreza francesa endividada sustentava o status de nobreza, ainda que a burguesia fosse a verdadeira detentora das riquezas, por seguir uma série de etiquetas da corte.

Tendo isso em vista, os burgueses passaram a aprender o comportamento dos nobres para ascender socialmente. De acordo com Elias, a Revolução Francesa foi possível porque ninguém mais acreditava na particularidade da aristocracia. O processo civilizador constitui uma mudança na conduta e sentimentos humanos. O que ocorreu na França foi uma total reorganização do tecido social. A etiqueta, assim, torna-se conteúdo exportável: as burguesias e aristocracias européias enviam seus filhos para estudar na França.

O conceito de civilização no Ocidente passa a relacionar-se com contenção de impulsos. A guerra é encarada como incivilizada, enquanto a diplomacia (negociação) é civilizada. A violência monopolizada pelo Estado e a concentração de homens armados, força os homens desarmados a controlarem sua própria violência nos espaços sociais.

Cultura “kultur” no alemão significava possuir erudição, dizia respeito à arte, à espontaneidade. Enquanto civilização “civilisation” no francês relacionava-se aos bons modos, técnicas de se apresentar. Os alemães acusavam os franceses de limitarem-se ao estilo, ressaltavam a falta de espontaneidade emocional. Para a burguesia alemã, a literatura francesa era essencialmente dissimulada. A aristocracia alemã, então, introduz a termologia de “civilization”, que indicava a repressão daquilo que remetia ao biológico. Portanto, a civilização ocorre por meio dos costumes (etiqueta) e do Estado (diplomacia).

Tal como Freud, Elias ressalta o autocontrole como característica fundamental da civilização. A não manifestação de sentimentos torna-se, assim, um valor social. O sentimento de culpa surge junto às exigências sociais e à necessidade humana de aprovação, gerando uma auto-regulação como uma pressão contínua e uniforme. Os indivíduos internalizam as dinâmicas de poder, que exercem sobre si mesmos e sobre os outros. Deste modo, surgem os espaços sociais pacificados, em que a violência física é condenada, mas a violência simbólica é autorizada, ou seja, violência mediada por regras de etiqueta.

Portanto, o comportamento civilizado pode ser caracterizado por: controle emocional, capacidade de compreender a racionalidade das ações do outro (ligações de causa e efeito) e a ampliação do “espaço mental”, ou seja, o conhecimento de que o outro possui um universo próprio dentro de si, o que leva a ações calculadas. O indivíduo moderno e civilizado desenvolve uma obsessão por calcular cada ação que realiza, tendo em vista a possível reação dos outros. A psicologização é justamente a complexificação da imagem do outro. Esta orientação de negação de impulsos faz parte de um processo de racionalização, que torna o indivíduo capaz de identificar cadeias causais para encontrar caminhos mais favoráveis para seus objetivos. O autocontrole característico da civilização traz consigo sentimentos de vergonha (medo de desvalorização) e culpa (conflito interno – proibições sociais internalizadas).

De acordo com Freud, a agressividade introjetada pelo indivíduo é enviada de volta para o lugar de onde veio, isto é, é dirigida contra o próprio eu. Lá é acolhida por uma parte do eu que se contrapõe ao resto, como um super-eu, e exerce contra o eu a mesma agressividade que o eu gostaria de satisfazer em outros indivíduos. Elias, seguindo a mesma linha de pensamento, acredita que a civilização exige que o indivíduo controle incessantemente seus impulsos emocionais momentâneos, realizando uma auto-supervisão automática de suas paixões. Assim, ao mesmo tempo que o indivíduo torna-se menos prisioneiro de suas paixões, a conduta deste torna-se mais restringida nas possibilidades de satisfazer diretamente seus anseios. A vida ao tornar-se menos perigosa e mais calculada, é também menos emocional ou agradável no que diz respeito à satisfação direta do prazer.

Assim, parte das tensões e paixões que eram antes liberadas diretamente contra outros, agora tem que ser elaborada no interior do ser humano, gerando inquietações e insatisfação. Suprimir as emoções é estar em conformidade com a estrutura social.

Victória Menezes

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