Carolina

Eu tinha 17 anos, ou talvez 18, não me lembro ao certo. Passava todos os dias por aquelas ruas, cumprimentava sempre as mesmas pessoas, escutava sempre as mesmas músicas. Eu me sentia sempre igual, indiferente sobre a maioria dos assuntos que rolavam por ai, não era autossuficiente, mas também não era carente. Gostava de ser assim. Eu gostava da paz que eu costumava sentir quando era assim.

De volta pras essas ruas, hoje, quase 20 anos depois, quase que consigo ver as minhas memórias, de tão vivas que estavam na minha mente. Olhei pra esquina da rua 14, quando ela corta com a 15, e la vi ela, ou o fantasma dela, a verdadeira razão das minhas memórias tão vivas, Carolina e seu vestido verde musgo, parada bem perto do final da calçada, os carros que passavam faziam seu vestido mexer, e também seus cabelos. Vendo aquela cena, quase consegui sentir seu cheiro, que a tantos anos está impregnado na minha memória.

Carolina, que gostava de música dos anos 80, que gostava de todos os tipos de arte, de fazer arte. Carolina, que gostava de tocar gaita por aí, que gostava de colher flores, principalmente margaridas, as minhas favoritas. Carolina, que mexia com a minha sanidade.

Foi nessas ruas que nos conhecemos, que vivemos os melhores e os piores momentos da nossa juventude, e foi também nessas ruas que nós nos despedimos. Todos aqueles anos, todos aqueles momentos, pra sempre gravados nas nossas memórias e no muro da casa da Dona Maria, sua vizinha.

Ah, Carolina. Se você soubesse o pedaço de mim que você levou quando me deu aquele último adeus. Se você soubesse o pedaço de mim que nunca mais se preencheu com ninguém. Se eu soubesse que alguém poderia tomar um pedaço tão grande de mim do jeito que você fez, eu teria feito tudo de novo, do mesmo jeito que foi. Quem me dera poder fazer tudo de novo, duas, três, quatro vezes. Eu faria.