A mordida do cachorro birmanês

Laivos de sangue quente jorravam sobre o primeiro céu da vigésima década d’A menina. O sol que se punha, de certa forma, era o mesmo — mas ela estava mais velha. Com menos fôlego, e um dia mais próxima da morte. A consciência a respeito da insignificância da vida humana tinha levado A menina a preencher os hiatos de seus compromissos acadêmicos com giros pelo deserto da Mongólia, pelas praias de plânctons bioluminescentes do Camboja, e agora, finalmente, chegara. Era o seu primeiro dia no Myanmar. A antiga Birmânia. Aquele lugar que aparecia no jornal vez ou outra. Aquele lugar… Que lugar era esse mesmo?

Mandalay, era o nome da cidade. Antiga capital do império britânico na Ásia. Uma perfeita imagem da decadência. Mandalay era um labirinto de ruas poeirentas, percorridas quase exclusivamente por uma sucessão de motocas dos anos 80, sendo bem generosa. Devem ter sido compradas da China, deduzia A moça, pela falta de qualidade das máquinas. Mas não tinha ideia.

Era um barulho infernal.

O chão de poeira transformava-se em céu de neblina. Não era possível ver o momento em que um transformava-se no outro. Seria sufocante estar fora do hotel por mais de uma hora. Mandalay causava-lhe dores de cabeça.

Colocou os pés nas ruas em busca de um motoqueiro que a levasse a uma tal Mandalay Hill. Ao que parecia, tratava-se de um convento, a 40 minutos de distância vertical, em degraus. Não se dera ao trabalho de pesquisar muito. Depois de vinte e cinco países, a graça da viagem estava em ser surpreendida. Imaginava ser um bom lugar para contemplar o queimar do entardecer. Esperava que a escadaria a pudesse levar acima da neblina.

Ao negociar em língua de sinais um preço de 6000 kyats, ida e volta, até Mandalay Hill, tornou-se oblívia ao fato de que havia, em realidade, abordado um motorista de riquixá. Sentou-se sobre o banco tamanho PP, acoplado por uma gambiarra à bicicleta do senhor birmanês, e questionou-se, por alguns segundos, a respeito de sua sanidade. A gambiarra tinha complexidade o suficiente para fazê-la sentir-se mais próxima de casa. Faziam falta, por vezes, as veias abertas da América Latina. Seguiu em frente.

Pensou que, se de fato estivesse próxima à sua casa, em solos latino americanos, jamais teria considerado tal meio de transporte. Viajar colocava A menina em um plano de confiança com o universo. Ela sentava-se sobre o banco amarrado à bicicleta de homens desconhecidos, e aceitava, em troca, recompensas por sua coragem. Nunca falhava. Desde a vez em que pegara carona com um senhor qualquer em uma estrada do interior da Letônia, até ali. Acreditava que havia um Kanun dos viajantes. Um código que honrava, acima de tudo, o visitante. Sentia, quando estava na estrada, estar rodeada de pessoas dispostas a dar início a uma vendetta por ela, caso alguém ousasse lhe fazer mal.

Foi uma viagem mais longa e desconfortável do que deveria ser. O senhor, já de idade avançada, lutava para levar A menina ao seu destino em troca de míseros 2 dólares. Ela corria o risco de perder o pôr-do-sol, e, por um segundo, considerou trocar de lugar com o gentil homem. Desistiu, pois não saberia como propor a troca. A comunicação é duplamente subjetiva, e altamente improvável. A comunicação é, sobretudo, cansativa.

O riquixá fazia incursões corajosas pelas ruas, desafiando as motocas chinesas. Ou seriam vietnamitas? O Vietnã possuía indústrias nacionais? A menina sentia que sabia muito pouco sobre o mundo, e, por isso, não cansava de percorrê-lo.

A alvura d’A menina chamava a atenção de todos, e logo percebeu ter escolhido uma saia curta demais para aquele país. Nunca percebera o privilégio que era poder usar saias curtas demais. Se bem que, pensando bem, ali, a coerção que sofreria seria apenas social. Ninguém ousaria tocar seu corpo, sabia bem ela.

A baixa velocidade do riquixá permitiu que ela observasse tudo a seu redor. Eram seus primeiros momentos na Birmânia. Tudo era absolutamente novo, e fundamentalmente arcaico. Ela poderia até sentir-se insignificante em suas viagens por outros cantos do mundo, mas ali não. Ali, A menina era notada. Ali, A menina era especial. Ali, é como se A menina experimentasse a vida no arquétipo do turista. O turista, para o birmanês, era bonito. Bonito de formas que eles não conseguiriam alcançar. Bonito o suficiente para merecer não apenas os olhares de todos, mas a pontaria de seus smartphones. O Myanmar passara pela chamada Mobile Revolution. Mais de 100% da população tinha celulares. E o objetivo último desta posse era, na visão d’A menina, capturar turistas.

A menina também capturava aos não turistas. Dissecava-os da forma mais discreta que encontrava. Perguntava-se se seria racista o fato de encontrar traços parecidos entre todos eles. O fato de o país ter estado fechado pelas últimas três gerações talvez contribuísse para esse labirinto de espelhos. Sentia-se menos culpada ao perceber que eles seriam incapazes de diferenciá-la de uma nórdica. Seguia em frente.

Todos os homens por quem passava trajavam uma espécie de saia chamada longyi. A abertura ao capitalismo, iniciada em 2012, se tornava notória nos sinais de ponto de venda de Polo Ralph Lauren e Havaianas — mas ai da Levi’s se tentasse ocupar solos birmaneses. O longyi era apenas um pedaço de pano, mas tinha um papel central naquela sociedade. Não cheguei a ver uma dúzia de pessoas que não estivessem usando um, e, rezava a lenda que ele poderia ser dobrado de até mil formas, com uma utilidade diferente para cada uma. Em 60 anos de clausura militar, aquele era o ápice da tecnologia nacional.

As faces das mulheres eram sistematicamente cobertas com temas gráficos. Suas bochechas eram ornadas com listras brancas, assemelhando-se a uns móveis de madeira parcialmente patinados, com um lustre especial, e suas testas e queixos por vezes ganhavam desenhos mais sofisticados. Tanaka, era o nome daquela substância. Protetor solar feito de casca de árvore. A capacidade de adaptação do homem é impressionante, pensava. A menina não sabia que seres humanos protegiam-se do sol antes do advento de Sundown. A menina sabia muito pouco sobre tudo.

Chegara. Preocupada com a saúde do homem, ofegante a esta altura, optou por escalar a escadaria sem a sua ajuda. As colunas das coxas d’A menina latejavam contra sua pele, parabenizando-a por ter conquistado o longo caminho rumo ao topo de Mandalay Hill. Meu corpo é mero sustentáculo do meu intelecto, sempre pensara ela.

Cores de beterraba crua cortavam o céu de Mandalay, na Birmânia. A menina perdera metade do pôr-do-sol, mas ele parecia prolongar-se mais do que o usual. Percebera que aquele mesmo sol vestira de dourado o exército britânico que marchou sobre aquelas terras usurpadas. Aquele mesmo sol testemunhara a glória e a decadência daquela cidade, e agora brincava de jogar A menina entre aqueles dois estados de espírito. A menina gostava de sentir como se não estivesse em lugar algum. Gostava de sentir como se não pertencesse. Gostava de estar no meio, pois isentava-se da responsabilidade que é criar raízes. Era só então que sentia-se em casa.

Olhou ao redor, e percebeu que as paredes eram ladrilhadas com pequenos pedaços de vidro cortado. As paredes espelhadas de Mandalay Hill ajudavam a difundir ainda mais a polpa da beterraba, e pontilhava A menina com ela, lembrando-a da sua absoluta solidão. Suas tentativas de mosaico eram amadoras. Na Birmânia, até mesmo a ostentação tem um quê de humilde; quase como se pedisse sinceras desculpas às populações descalças e de face decorada de tinta de casca de árvore que habitavam todo o perímetro da montanha. Eu recrudescia perante toda aquela simplicidade, e me considerava tão, tão distante daquilo tudo. Eu havia chegado àquele país buscando por um local intocado por todas as influências ocidentais, mas, em nenhum momento, pensei que me sentiria tão esvaziada de sentido caso realmente encontrasse o que procurava. Nenhum dos traços de significação que me eram familiares estavam presentes — cabia a mim pintar o retrato daquela sociedade.

Acostumada com photoshop, A menina não soube o que fazer com o nanquim — decidiu, então, deixar que ele, ao contrário, fosse o responsável por deixar sua marca sobre ela.

Ela sabia que a Ásia era coberta por um manto de misticismo pintado pelo Ocidente — manto este tecido com as técnicas milenares da Rota da Seda. O Oriente sofria do mesmo tipo de apropriação brutal da qual sofrem todas as mulheres, desde sempre. O homem sempre foi o autor da vida, e, como todo autor, detinha autoridade sobre o que escrevia. O que o homem escrevia, virava dogma. O que a mulher escrevia, heresia. A mulher, aos olhos do homem, eram seres de gênio impenetrável. Assim também é o Oriente em relação ao Ocidente. É curioso como, somente a partir dos saberes orientais, os ocidentais foram capazes de distorcer o Oriente. É curiosos como, somente a partir da exploração do trabalho doméstico feminino, puderam os homens usufruir de seu ócio criativo para discorrer sobre o “misticismo” da mulher. A menina sabia que, da mesma forma como não se poderia confiar em relatos masculinos sobre a feminilidade, não se poderia conhecer o Oriente a partir do Ocidente. Queria ver com seus próprios olhos. O desafio era que, no entanto, estes olhos havia sido made in USA.

Virginia Woolf dizia que Shakespeare teve uma irmã tão ou mais talentosa que ele — e muito mais velha — de cuja a existência não se ocupa o mundo. Shakespeare é Marco Polo, e sua irmã, Ibn Batutta. Shakespeare é Maquiavel, sua irmã, Ferdusi — cinco séculos adiantado a ‘O Príncipe’ com seu Livro dos Reis. Mas, da existência da irmã, não ocupa-se o mundo. Da existência do irmão, desenha-se tudo.

As luzes desfilavam no céu como se quisessem embriagar A menina de poesia. Ela teve a impressão de fazer ao sol um gentil favor ao emprestar a ele sua face, para que nela ele desfilasse, antes que decidisse ir-se — não deixando passar aquele espetáculo em branco. O sol demorou-se por tempo demais, como um convidado querido cuja presença começa a deteriorar-se. Não é possível muito bem saber o por quê, mas já era hora de estar finda sua presença. Era como se ele se agarrasse às recém-aparadas pontas de seus cabelos para marcar uma transformação mais profunda do que ela poderia antever. O tempo dobrava-se e a amassava entre as 7 dobras de seu origami. Aquele pôr-do-sol parecia querer vingar todos os outros negligenciados pel’A menina em nome de algo mais importante a ser feito. Menos importante, se dava conta. Aquela demora expunha a dificuldade urbana de entregar-se por inteiro. Cada fração de segundo é marcada na pele de quem não se alimenta da próxima. O sol ficava por vontade dela, e ela se afastava. Parte do charme do pôr-do-sol, percebia agora, era sua ausência pela maior parte do dia. O enfado d’A menina com o pôr-do-sol iniciou-se simultaneamente ao seu asco, leitor, deste arrastado parágrafo.

Já desistindo de aguardar a sombra esconder a poeira que paira e sufoca, e percebendo-se mais só do que nunca no topo do mundo, decidiu desertar. Despediu-se, então, da cortina translúcida que povoara seu imaginário pelos incontáveis minutos anteriores — quem sabe não passaram-se mesmo dias — e arrastou-se de volta pela sala de tortos espelhos-mosaico. Obrigou-se a encará-los por alguns momentos a mais do que seriam necessários para apreender todos os detalhes mais vistosos, cumprindo seu papel de turista e fingindo uma compreensão superior de tudo aquilo. A verdade é que perdeu-se na vaidade que encontrou refletida naquele mural.

Entregue à leveza do ineditismo, flutuou pelos lances de escada, ainda mais rápido do que subira. Os degraus desgastados em um azulejo verde gelavam seus pés, descalços em respeito a Buda, e eram sua única lembrança de conexão com o mundo terreno. Os 60 anos de regime militar conservaram, a preço de sangue, uma atmosfera da mais pura autenticidade. Não haveria qualquer outro lugar do mundo em que A menina desejasse estar, apesar de sentir que, onde quer que fosse a partir dali, de certa forma, ainda estaria ali.

Dor.

A materialidade da vida terrena atingiu-lhe com um golpe baixo. Uma lágrima trêmula chegou ao seu nariz antes que este pudesse apontar para o rabo que ali embaixo abanava. Um cão. Seus dentes desenharam na pele clara d’A moça a marca daquele local. Tatuagem. Um momento infinito de luz que, percebia agora, fora bem sucedido em devolver o sol à sua toca. Finalmente. Ao menos isso. Fora isso, choro. O corpo é um mero sustentáculo do intelecto, tentava, inutilmente, se consolar. Toda a paz e a transcendência que habitaram o corpo d’A menina foram responsáveis por amarrá-la e levá-la à vila do desespero. O corpo humano dói.

A menina amaldiçoou a moça que a vendera aquela calça curta mais cedo, que providenciou o encontro de sua batata da perna com os caninos de um cachorro de rua birmanês.

Amaldiçoou a tentativa de conferir sentido à sua existência. Vã. Sabia disto. Mas também sabia que, em viagem, parecia-lhe que andava enfim pelos caminhos certos. O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza, diria Pascal. Um caniço pensante. E o homem está fadado a viver entre a sua ‘terrenalidade’ e sua racionalidade — até que, por força do tempo, a segunda vença, ou seja vencida pela primeira.