Jovem ambulante no Festival do Deserto do Thar — Jaisalmer, Índia (ou o local mais próximo que consegui chegar da fronteira do Paquistão sendo estrangeira)

Não sei falar “tchau” em Hindi

ou Niilismo de bolso

Depois de toda viagem, há um pequeno período de luto. Um pequeno período em que, por mais que você deseje falar sobre qualquer coisa — exceto o fato de estar de volta — parece que isso é tudo sobre o que as pessoas querem te perguntar.

Toda viagem adiciona um ‘antes & depois’ na sua história — alguns mais suaves, outros mais abruptos, como sinto que foi o meu caso. É compreensível precisar de um tempo para internalizar todas as experiências que aconteceram -e, sobretudo, deixaram de acontecer- em tão pouco tempo. Dois meses passam voando. Na estrada, mesmo dois anos passariam.

Não foram poucos dentre os viajantes que conheci que estavam rodando o mundo ‘para se encontrar’. Eu não me excluo desta lista, apesar de nunca colocar nestas palavras por medo de parecer piegas, ou até mesmo pequeno-burguês.

Certa vez, quando tinha acabado de pousar em Délhi, na Índia, um amigo me encaminhou um texto de Nietzsche — no Brasil, eram 3h30 da manhã. Através deste manuscrito, Nietzsche murmurava, ainda com sono, que para que possamos encontrar aquilo que verdadeiramente nos define, inútil seriam nossas tentativas de nos desvencilharmos de todas as influências que nos acometeram até o presente dia. Afinal, não precisa ser homem, branco, intelectual e prussiano para sacar que quem nós somos hoje é a soma de tudo aquilo que um dia atuou sobre nós sob forma de influência. Talvez não a soma, mas uma equação mais complicada do que eu seria capaz de detalhar. Nós somos o produto do que talvez Hannah Arendt chamasse de “soft power”, e Zygmunt Bauman, bem… algo líquido, certamente. Voltando ao filósofo da alvorada, bem, ele dizia que se quisermos entender quem somos, devemos, ao contrário de nos despirmos de influências, buscarmos mais e mais, ad nauseam mesmo — viver até não aguentarmos mais. Será aí então que veremos que, não importando a situação, há traços tão invariavelmente nossos que irão acabar por nos definir como quem realmente somos.

Se foi Nietzsche em um momento de delírio febril ou Augusto Cury em um best-seller de auto-ajuda, eu não sei. O que sei é que toda vez que viajo, me deparo com mais partes de mim — algumas partes que eu nem sonhava que estariam lá, e alguns vazios que, no dia a dia, a gente enche com correria. É bobinho tudo isso, né? Vou pular esta parte da jornada interna pois você já deve ter lido algumas centenas de vezes. [In]felizmente, não tem como fugir desse fascínio que sucede o término do luto e, no meu caso, a quebra do silêncio. Viajar é um privilégio imenso.