#7. Caverna do Diabo e Pousada Núcleo Terra

Foi impressionante. Saí de Ibiúna na Terça-feira cedo, após quase dois dias de chuva forte, mas foi me afastar alguns quilômetros na estrada, e o céu abriu novamente. A estrada até Registro, que depois segue até Eldorado onde fica a Caverna do Diabo, me tomou umas 4h dirigindo, mas eu nem senti. Bom momento pra curtir o playlist de quase 2500 músicas do pendrive, e beliscar as castanhas e frutas secas que a Mi recomendou. Meu novo destino: Caverna do Diabo.

Já havia visitado 4 vezes o PETAR e mais de 20 cavernas, mas ainda não conhecia a famosa Caverna do Diabo. Cheguei ao parque por volta de 14h, vazio. Só havia eu e um guia no parque todo, tempo e espaço para conhecer tranquilamente a imponente caverna, que pessoas do mundo todo vêm pra conhecer. Fantástica, de dimensões e formações extraordinárias. Uma pena que foi tão remexida pelo homem, com escadas, barragens e iluminação. O único ponto positivo que encontrei nessas intervenções, é a melhoria da acessibilidade para deficientes físicos. Fora isso, a arrogância do ser humano mexeu demais na maravilha que a natureza criou. O passeio foi breve, rendeu algumas fotos, uma cachoeira e uma trilha suave. Mais uma caverna pra lista.

Meu próximo desafio era encontrar um lugar para tomar banho (é, não havia tomado banho desde Domingo) e para pousar o Adventureiro. Antigamente havia camping na Caverna do Diabo, mas desativaram. Como iria seguir para Iporanga, a 50km dali e estava cedo, resolvi voltar pra estrada. Lembrei-me da Gambôa Ecorefúgio, uma pousada bem gostosa que já havia ficado antes em Iporanga e já conhecia a dona. Cheguei rapidinho, mas infelizmente (ou felizmente) ela não tinha estrutura para camping, e me sugeriu a Pousada Núcleo Terra (Capitão Caverna), bem ali pertinho.

De fora, a pousada era bem convidativa. Parei o carro no portão, entrei e fui recebido pelo Bethoven, uma criança em forma de cachorro grande. Logo atrás dele veio o Julio, simpático, e me disse o valor da diária com café da manhã. Pra mim estava perfeito! Porém, ele estava com uma excursão infantil, e costumava fechar exclusivamente pros alunos. Estávamos caminhando para o portão, e ele, super solícito, ia me indicando a pousada logo à frente, do outro lado da rua, quando reparou no Adventureiro. Contei um pouco sobre a jornada, e sua curiosidade e entusiasmo acenderam:

– Rapaz, que diferente! Que coragem, que bacana! Não, faz o seguinte, fica aqui com a gente. Entra aí, depois a gente vê essa questão dos valores, mas não se preocupa, fica aí com a gente essa noite, eu falo com os professores, eles vão entender, vão gostar da tua história. Você não é um turista qualquer, hoje você é meu convidado!

Meio sem jeito e surpreso, aceitei muito feliz o convite. Ele ainda me arrumou um quarto com beliche, lençóis e cobertores limpinhos e me convidou para o jantar. Aquele cuidado todo, pra um desconhecido. Na boa? Faz despertar o melhor dentro da gente. É contagiante, da vontade de oferecer o que você tiver de melhor em troca. Como a história das balinhas (um dia eu ainda conto essa história por aqui). Expliquei um pouco mais sobre a viagem, e a proposta de trocar trabalho por alimentação e hospedagem. A pousada era tão bem cuidada que eu quase não tive o que oferecer de trabalho. Por “sorte”, ele já queria repintar o muro de toda a pousada, então me ofereci prontamente pra isso.

Também tivemos ótimas conversas onde expus minhas sugestões para melhorar a divulgação da pousada pela internet, relacionamento, etc. Por dois dias fiquei na pousada e pintei quase todo o muro, em troca o Julio me ofereceu todas as deliciosas refeições e estrutura impecável por mais 3 dias livres para que eu visitasse as cavernas, embora por ele, com seu grande coração e empreendedorismo interpessoal, me dissesse algumas vezes que pintar o muro como troca nem seria necessário. Percebi que um cara como o Julio tem tudo o que precisa, e consegue tudo o que quer, simplesmente porque acredita no bom tratamento das pessoas e das coisas. Organização, cuidados com seus materiais na pousada, oferecer refeições e estrutura de qualidade, mesmo sem muita “sofisticação”, e principalmente tratar BEM as pessoas, era o segredo do seu sucesso. Parada certa quando eu voltar pro PETAR novamente.

Gentileza gera gentileza. Claro que precisamos pagar as contas, mas se nos esforçarmos um pouco, o dinheiro perde o papel principal em nossas vidas e entra como protagonista uma vida que dá certo.

Pra concluir esse episódio, conheci a turma do fundamental do Jardim Escola Cora Coralina, de Florianópolis. Eles utilizam o método Waldorf de ensino, estimulando a interação com a natureza, música, biodinâmica e observação das estrelas, fogueira e contação de histórias, entre outros aspectos. Interagindo com os professores observando os alunos, notei que o método é realmente muito interessante, e enviei uma mensagem sobre isso para minha família pelo WhatsApp. Eis que meu tio comenta: “nossa prima Wendy é professora numa escola de Floripa que utiliza esse método”. Virei imediatamente para os professores: “Vocês conhecem a Wendy?” “Sim, ela é professora do Cora Coralina”. Pronto! Todos embasbacados pela coincidência (ou apenas incidência) de nos encontrarmos numa cidade com menos de 20 mil habitantes no Estado de SP, e termos alguém tão próximo em comum a 500km de distância. Fizemos uma fogueira e os professores me deixaram contar a história das balinhas, que as crianças (e os professores) gostaram bastante.

Na sexta-feira eles foram embora, e na mesma noite chegou uma turma de 40 pessoas. Eram os #Forasteiros, uma turma que começou organizando viagens pelo Facebook há dois anos, sendo que lá mesmo, na Pousada Núcleo Terra do Julio, havia sido seu primeiro destino com poucas pessoas, e hoje possui mais de 100 mil seguidores, que se organizam em viagens sensacionais por todo o Brasil. Fizemos passeios separados durante o final de semana, mas na noite de Sábado pra Domingo acabei me infiltrando na fogueira que eles montaram, afinal, estava frio e tinha um violão. Foi mais legal do que eu imaginava, até porque o gosto musical deles era bem parecido com o meu (rs), então aproveitamos aquele frio em torno da fogueira, com violão e música boa até 2h30 da manhã. Pouco antes, o Tom havia me dado carinhosamente um adesivo e um bóton dos Forasteiros, primeiros adereços do Adventureiro na estrada. Na manhã seguinte, meu xará Victor Paris, fotógrafo e um dos organizadores do grupo, me entregou uma camiseta maneira dos #Forasteiros e me tornei oficialmente um forasteiro forense.

No próximo post eu conto como foram os passeios pelas cavernas. Só sei que essa semana na Pousada Núcleo Terra reencheu meus pulmões de ar puro pra seguir viagem!

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