Dia após dia. É um corte aqui e outro ali. Ele vê os colegas indo embora, com suas caixas cheias de fotos, canetas e grampeadores, alguns até roubados do escritório. Enquanto eles passam ele engole em seco e imagina quando vai ser sua vez. Quando que vai ser chamado para aquela sala no quarto andar, em que vai se sentar suando frio e se sentindo desconfortável e gordo demais para suas calças sociais número 48. Vão olhar para ele do topo de suas mesas, do topo de seus narizes compridos e bem modelados pelas mãos de cirurgiões bem remunerados e vão rir. Vão rir de suas calças apertadas e de segunda mão, vão rir de seu bigode fino e mal aparado, de sua calvice prematura e deus proíba que eles consigam ver seus pares de meias trocadas ou então irão rir disso também. Mas não o chamam hoje. Nem nessa semana. Ele passa o final de semana inteiro tenso e temeroso de que vai ser “aquele cara que foi despedido segunda feira e surtou” mas a segunda feira veio e também não o chamaram para aquela conversinha definitiva. Na segunda foi o Zé da contabilidade, na quarta foi o Rogério do Almoxarifado e na sexta foi a Silvia da diretoria, eles estavam demitindo eles mesmos! Se até os deuses e deusas da diretoria estavam na mira o que restava para ele, um misero mortal do setor de compras? Ele não conseguia mais se concentrar em nada, seu ultimo pedido de compras foi de dez mil clipes de papel, seu chefe olhou para ele e perguntou se estava passando por algum problema em casa com a patroa. Não conseguiu nem dizer pra ele que não era casado. Cada vez que ouvia passos pelo corredor imaginava a segurança vindo pegar ele e o expulsar do prédio, afinal um coitado desses não merece nem uma palavrinha com o bam bam bam, paradoxalmente a cada vez que tocava o telefone ele tremia, levantava do gancho e quase podia jurar ouvir a respiração do homem lá de cima e um sussurro dizendo “Você é o próximo Ivair!”. Ivair não foi o próximo. Não deu tempo. Sua demissão estava programada para dali uns 10 dias. Ele não aguentou e se demitiu antes. Foi até a sala do seu chefe pela primeira vez e deu um discurso de quinze minutos sobre a pressão do mercado de trabalho e sobre nunca ter podido seguir seu sonho de ser pintor de paisagens. Ele nem encheu uma caixa com suas coisas, mandou que tocassem tudo no lixo. Saiu da empresa sob risos e olhares desconfiados. Foi direto em uma loja de material de pintura, comprou um kit com tela, pinceis e tintas. Lembrou que não pintava nada a mais de vinte anos e sentiu um frio na barriga como não sentia a mais de vinte anos. Achou que pudesse ser fome, esquentou uma lasanha congelada e comeu olhando pela janela e tentando escolher quais cores iriam deixar sua tela com aquele tom de céu.

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